Lenda de Ardínia (B)

APL 744

Quando o valente caudilho dos cristãos, D. Thedon (...), por aqui andava fazendo crua guerra aos mouros, tão alto soavam as suas gentilezas no alcaçar d’Al-Boacem, rei mouro de Lamego, que uma filha deste, por nome Ardinga, ou Ardínia, concebeu por ele a mais ardente paixão. E, com o intuito de ver o alvo dos seus sonhos, e de se unir a ele pelos santos laços do matrimónio, uma noite, vestida de homem também, e acompanhada de uma sua irmã de leite e confidente, fugiu a ocultas, dos paços de seu pai, e caminhando — Deus sabe por onde e com que risco e dificuldades!... — chegou ao primitivo convento de S. Pedro das Águias, na margem esquerda do Távora (...), dirigiu-se ao abade, por nome Gelásio, revelou-lhe tudo, e pediu-lhe que intercedesse por ela para com D. Thedon, que ao tempo se achava distante.
 Mandou logo o abade um mensageiro a D. Thedon, e, enquanto ele não chegava, tratou de instruir os mistérios da nossa religião à pobre Ardinga e de ministrar-lhe o baptismo, ao que ela se prestou de bom grado; mas Al-Boacem, apenas deu pela ausência da filha, correu após ela, e tanto lidou, que a surpreendeu no humilde cenóbio, e, ardendo de ira, a trucidou e afogou no Távora, retirando-se com os seus (...).
 Não se fez esperar D. Thedon, e, quando lhe contaram o ocorrido, cego de cólera, jurou morrer solteiro e não mais embainhar a espada nem poupar sangue de mouros enquanto Deus lhe conservasse a vida. E logo, como leão furioso, caiu sobre os sarracenos, e bem cara lhes fez pagar a morte da sua Ardinga, até que, engajado em batalha muito desigual, pereceu por seu turno, às mãos deles, solteiro como jurara, e nas águas do rio Tedo, que dele tomou o nome.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre Património Imaterial do Douro - Narrações Orais (contos, lendas, mitos) Vol. 1 Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2007 , p.148

Ano1879

Place of collection Granja Do Tedo, TABUAÇO, VISEU

InformantePatrício Lusitano (M),

Narrativa

When1879

CrençaSome Belief

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