Lenda de Frei Gil de Santarém

APL 2871

Vou recordar uma lenda de Frei Gil de Santarém — figura que tem merecido o mais alto interesse de grandes vultos das letras nacionais. 
Contaram-me esta lenda na Beira Alta, província que viu nascer o santo fidalgo. Era Gil Rodrigues, filho de gente nobre, rico e ambicioso. Logo de menino a sua inteligência e desejo de saber intrigara seus pais. Adorava os manuscritos e deixava-se encantar pelo conhecimento das plantas e do corpo humano, que um velho amigo de casa, físico de vasto saber, lhe ensinava a pedido seu. Sabia a Bíblia de cor. Destro nas artes da cavalaria, era belo como nenhum outro. Forte, sadio, arrogante mas generoso. Adorava sair para o campo e por lá andar vagueando, sozinho, a meditar no porquê de todas as coisas.
Numa dessas tardes ele encontrou uma jovem pastora. Cabelos loiros e olhos cor do mar. A rapariga parecia mais um anjo do que um ser humano. E Gil entabulou conversa com a rapariga.
— Que fazes por aqui?
Ela sorriu-lhe, apontando as ovelhas.
— Como vês… trago-as ao pasto.
— Vens todos os dias?
— Quando posso vir.
— Moras longe?
— Perto de Vouzela
— Também eu. E nunca te vi antes!
— Eu já te vi passar.
— Sim?... Quando?
— Várias vezes, mas vais sempre a cavalo e num galope…
— Gosto de galopar, de ver fugir a terra... quando, afinal, sou eu que fujo!
— Mas agora estavas aí muito sossegado!
— Estava a ler.
— A ler o quê?
— Aristóteles. Não sabes quem era? Mas digo-te que todo o seu saber não cabe neste vale...
— E cabia dentro dele?
— É assim o espírito humano. Mas tu não podes compreender. O teu horizonte é só este. Vives aqui, entre montanhas.
— E tu?
— Eu?... O meu corpo vive entre montanhas... mas o meu espírito foge mais do que o meu cavalo.
— Sim? E aonde vai?
— A outras terras. Fala com outras gentes... vive outros costumes... estuda outras ciências...
— Quem te falou disso tudo?
— Um velho que vive sozinho numa casa, além, para lá daquele penedo... Ele sabe muito!...
— É como esse tal que está aí nesse livro?
— Quase! Ele conhece todo o nosso corpo, por dentro, e sabe curá-lo quando ele enferma.
— E tu queres saber tanto como ele?
— Quero saber mais! Hei-de saber muito mais! Já consegui que os meus pais me deixassem ir para Paris.
— Onde fica isso?
— Muito longe daqui.
— Vais sozinho?
— Levo apenas o meu escudeiro.
— Que pena!
— Porquê?
— Gostava de te ver todos os dias... E assim... não mais te verei!
— Hei-de voltar para assombrar toda esta gente!
— Mas já não virás conversar com a pobre pastora... Tenho pena que te vás!
Ele sorriu-lhe, gaiato.
— Enquanto não vou, aproveitemos este tempo. Só irei daqui a um mês. Aguardo a licença d’el-rei.
A pastora olhou-o com admiração. E perguntou:
— Tu és nobre, não és?
— Sou.
— E podes falar comigo, simples pastora?
Gil aproximou-se dela mais. E cariciosamente perguntou, por sua vez:
— Nunca ouviste falar de pastoras muito bonitas terem sido esposas de reis?
— Não.
— Pois, pelo menos em pensamento, tudo pode acontecer!
 
Os dias foram passando. Para a linda pastora beirã esses dias decorridos na companhia de D. Gil, no ermo das montanhas, era o próprio Céu na Terra. Assim, muito se afligiu quando certa tarde D. Gil não apareceu. Recolheu mais cedo o gado e resolveu ir caminhando sozinha pela estrada por onde o seu amado tantas vezes galopara. De súbito, o seu coração pulsou mais forte. Acabava de distinguir D. Gil e o seu escudeiro, com ares de quem vai encetar uma grande viagem. Desceu à estrada para que ele a visse. E assim aconteceu. A penumbra tomava já conta dos montes. Dentro em pouco seria noite. Mas a pobre pastora nem se deu conta disso.
Topando-a na estrada, D. Gil estacou surpreendido. Desceu do cavalo e veio falar-lhe.
— Pois tu vieste esperar-me ao caminho, assim de noite... e sozinha?
Ela encolheu os ombros, como se já nada valesse sobre a Terra.
— Precisava ver-te! Calculei que ias partir e vim dizer-te adeus.
O cavaleiro tentou gracejar.
— Louquinha! Pois não compreendes que demoro pouco na minha viagem?
Ela voltou a encolher os ombros. Estava triste.
— Para mim, será uma vida inteira! Nunca mais voltarei a ver-te!
— Não digas isso! Bem sabes que és linda e não poderei esquecer-te!
— Mas ias partir sem sequer te despedires...
Ele mordeu os lábios. Tentou desculpar-se:
— Sabes... Ontem... eu não tinha a certeza... E hoje... havia tanta coisa para arranjar... Compreendes?...
Ela suspirou.
— Compreendo, meu Gil! Aprendi muito com as tuas leituras no alto da serra. Não precisas dizer mais nada! Vai... e que sejas feliz!
O cavaleiro de Vouzela estava embaraçado. Tentou incutir-lhe confiança.
— Ouve: quando eu voltar famoso — como disse o nosso rei — farei de ti a mulher mais invejada das redondezas!
Ela abanou a cabeça. Havia lágrimas nos seus olhos, que o fim de tarde escondia. Apenas a sua voz as denunciava.
— Gil! Leva esta medalhinha que me deram quando fui baptizada. Nunca te separes dela, mesmo que me esqueças!
D. Gil beijou a medalha e a mão que lha oferecia.
— Hei-de trazê-la sempre junto ao coração. Juro-te! E agora volta para casa. É noite já. Os teus pais devem estar em cuidado. Adeus, minha linda pastora!
— Adeus, meu cavaleiro de um sonho que um dia tive!
— Hei-de voltar, prometo!
— Mas talvez eu já não exista! Adeus!
E sem que o jovem fidalgo tivesse tempo de dizer mais nada, a pastora abalou correndo, como se os seus olhos vissem no escuro. D. Gil ficou uns momentos parado, talvez com remorsos. Depois, montando o seu fogoso corcel, desapareceu num cotovelo da estrada.

Já em terras de Espanha, certa manhã bonita, num cenário estranho de luz e sombra, D. Gil foi, de novo, obrigado a parar diante dum homem bem vestido e ar afidalgado, que lhe dizia:
— Senhor cavaleiro, parai um pouco!
D. Gil retorquiu, altivo:
— Levo pressa, senhor! Preciso de chegar a Paris o mais rapidamente possível.
O desconhecido sorriu.
— Tendes tempo! Gostaria de conversar um pouco convosco, pois conheço algo de vós.
— Seja! Dizei então qual o assunto que escolhestes para a nossa conversa.
O desconhecido soltou uma risadinha, antes de responder:
— Bem... os assuntos são vários... Gostaria de falar sobre os vossos estudos em Paris... Sobre a pastora que deixastes na serra donde partistes... Do vosso futuro como figura destacada da mui ilustre família Valadares, da Beira Alta... Do vosso pai alcaide... Enfim... como vedes... há muito que falar...
D. Gil estava estupefacto. E não escondeu a sua surpresa.
— Mas... sabeis tudo a meu respeito!...
O outro riu, desta vez alto.
— Sim, sei tudo... de toda a gente!
— E quem sois?
— Eis o que menos interessa, senhor cavaleiro...
— Creio que é da praxe...
O outro interrompeu-o.
— Ora! O que interessa é o que valho… e não quem sou! 
— Não vos compreendo!
— Já ireis compreender-me. Quereis ser muito rico e famoso, não é assim?
D. Gil sorriu.
— Creio ser essa a ambição geral! É por esse motivo que vou estudar para Paris.
O outro meneou a cabeça.
— Eis o vosso grande erro! Vinde comigo, e eu vos levarei à melhor universidade do mundo. Aí, sim, aí é que aprendereis tudo o que os outros não sabem!
D. Gil começou a interessar-se.
— Tendes a certeza?
— Absoluta! Foi lá que eu aprendi tudo quanto sei. E lá aprendi, como verificastes, a conhecer tudo a respeito daqueles com quem falamos.
O jovem cavaleiro quedou-se uns momentos pensativo. E por fim exclamou:
— É realmente extraordinário... Pois bem: irei convosco!
O homem sorriu satisfeito.
— Senhor cavaleiro D. Gil! Terei o maior prazer em fazer-vos companhia. Contudo… põem-se umas pequenas condições. Na academia onde vou levar-vos, os mestres sábios que a compõem obrigam os alunos a guardar inviolável segredo de tudo quanto lá se passa, e a renegarem a Fé, assinando um documento com o seu próprio sangue. Estais de acordo?
D. Gil encarou o desconhecido. Não sabia que dizer. Arriscou:
— Achais que essa ciência é incompatível com a Fé?
— Absolutamente!
D. Gil silenciou. Recordava nesse momento sua mãe e o bom abade que tanto elogiava o seu entendimento. Mas a vontade de superar os outros homens arredou os últimos escrúpulos, vencendo as reminiscências da sua meninice. Acabou por declarar:
— Se é verdade que posso alcançar tudo o que quero, estou de acordo!
O desconhecido teve uma expressão de alegria intensa. Gritou quase:
— Vamos, então! E deixemos morrer a ideia de Paris!
E numa nuvem de pó a cavalgada perdeu-se no caminho.
Ora, reza a lenda que em breve o jovem fidalgo Gil Valadares se superiorizou aos próprios mestres em engenho, em ciência, em desenvoltura. Possuía conhecimentos invulgares, adquiridos na tal academia. Passou depois a Paris, onde deixou os sábios estupefactos e aturdidos.
O caso começou a tomar proporções assustadoras. D. Gil Valadares deitava por terra todas as teorias, construindo outras. E, simultaneamente, levava a vida mais viciosa que se possa imaginar!
Um dia, porém, estava D. Gil sozinho no seu quarto, depois de uma orgia, quando lhe bateram à porta de modo estranho. O fidalgo português perguntou:
— Quem bate?
Ninguém respondeu. D. Gil gritou:
— Entre quem é!
A porta continuou fechada. Então o moço cavaleiro irritou-se e foi abri-la. Lá fora não estava ninguém. Mas dentro do quarto uma voz, branda mas firme, fez-se ouvir:
— Gil... muda de vida! Arrepende-te! Aproveita a oportunidade que te dou!
D. Gil levou as mãos às têmporas. Pensou que eram ainda efeitos da orgia da noite anterior. Deitou-se. Mas essa voz foi repetindo o mesmo aviso, hora após hora, dia após dia:
— Gil... muda de vida, senão morto és!... Ouviste, Gil? Ainda estás a tempo! Ouve o meu conselho!...
Ao cabo de alguns dias, o jovem cavaleiro não pôde mais. Gritou, apercebendo-se donde lhe vinha o aviso:
— Senhor! Estou a ouvir-Vos! Tenho levado uma vida desregrada, mas quero mudar agora mesmo. Estou arrependido!
Num gesto tresloucado, levantou-se e começou a deitar pela janela fora os livros, os papéis, os próprios móveis...
E ouviu então a voz daquele homem bem trajado que lhe aparecera no caminho:
— Estás louco! Destróis tudo quanto te dei? Não te lembras de mim Gil? Fui eu que te levei à academia onde aprendeste quanto sabes! Ficaste ligado a nós para sempre! Tenho um documento assinado com o teu sangue. Lembras-te?
Se se lembrava!... Atirou-se para o chão, chorando de desespero. Crispando as mãos no peito, encontrou a medalha que a jovem pastora da Beira Alta lhe havia dado, à despedida. A custo, os seus lábios moveram-se, murmurando:
— Senhora da Conceição! Vós que viestes até mim das mãos de uma pobre rapariga que eu abandonei, tende piedade deste pobre mortal! Vou tentar recordar a minha primeira oração: Ave Maria, cheia de Graça... o Senhor é convosco! Bendita sois Vós, entre as mulheres... Bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus!...
D. Gil nem terminou a oração. Ante os seus olhos estupefactos ardia um documento suspenso no ar: o documento que ele havia assinado com o seu próprio sangue! Quando o documento não era mais do que cinzas uma forte ventania entrou no quarto e arrebatou-as, levando-as pela janela aberta. Lá fora soou um berro tremendo. D. Gil soluçava, sem saber como dar graças a Deus!...
 
Mal se refez do que lhe havia acontecido, Gil Rodrigues Valadares montou no seu corcel, de regresso à sua terra. Mas no caminho — segundo conta a lenda — professou na cidade espanhola de Palência, contagiado pelo exemplo dos padres de S. Domingos. Voltou então a Portugal, onde se recolheu no convento de Santarém, ficando para a posterioridade como Frei Gil de Santarém, exemplo de saber e de virtudes.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 125-130

Place of collection-, SANTARÉM, SANTARÉM

Narrativa

When XIII Century,

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