Lenda de Moncarapacho (verso)

APL 718

As histórias que vieram
De além de nossos avós,
Diz a lenda que tiveram
Raiz no tempo feroz

Em que mouros e cristãos
Se batiam, dia a dia,
Por esta terra, estes chãos,
Com dureza e valentia.

E a lenda que vou contar,
Que já outro alguém contou,
É daquelas de pasmar
Pela sorte que ditou. 

*
Quem, de além, por mar viesse,
À luz doirada do dia,
Porque o rumo desfizesse,
Mais avante não fria.

É que ao norte lhe ficava,
Com a forma de um topásium,
Um monte que se elevava
E, por nome, era Carpasium.

Conhecido de outros povos,
De gregos e de romanos,
Sempre ali havia novos
Guerreiros, todos os anos.
 
Iam uns, outros ficavam
No lugar dos que partiam;
Uns aos outros guerreavam,
Uns aos outros combatiam.

Reinaram ali, depois,
Os ferozes islamitas
Que se diziam heróis
De lendas jamais escritas.
 
Vieram de outros lugares
De além dos mares distantes,
Trazendo, para seus lares,
As mulheres e as amantes.

Era gente valorosa,
Afeita à guerra e aos p’rigos,
Mas na hora gloriosa
Não poupava os inimigos.
 
Aos pés do cerro assentou
O mais tremendo arraial,
Que, decerto, desmaiou
Quem o viu, descomunal.

Não mais sossego foi dado,
Àquele campo mimoso;
Cristão que fosse apanhado
Sofria trato horroroso.

Já ali, à luz do dia,
Luz do sol à noite escrava,
Não cantava a cotovia
Nem o trigo germinava..

Até as fontes secaram
E os rios que lá havia
Os curvos cursos trocaram
Como da noite p’ra o dia.

Além, os astros morriam
No seu caminho eternal
E as estrelas não luziam
Naquele céu infernal...
 
O que fez a dura lei
Das gentes do Al-Corão?!...
Que mudaram, como eu sei,
Em rude o que era cristão...

A tudo o nome mudaram,
Desde o cume aos alcantis;
Pois em tudo transformaram
A face deste País.

O que era verde topásio
Mudou de cor, por desleixo;
E até o Monte Escarpásio
Passou a Monte Escarpeicho.

Foi assim, por muitos anos,
Que a força bruta da guerra
Impediu que os puritanos
Retomassem sua terra

Que de seus avós já fora,
Mas os ventos da desgraça,
Nos tristes dias de agora,
Punham-lhes uma mordaça.
 
Como cães, eram tratadas
As puras gentes cristãs,
A ferros acorrentadas
Por dias, noites, manhãs.

O Tempo se eternizou
Para tais Filhos de Cristo,
E a morte os santificou,
Fazendo da vida um misto

De heroismo e santidade,
De dores e sofrimento,
Que Deus, em boa verdade,
Lhes dera por cumprimento.

Porém, um dia, ai um dia,
Uma densa cavalgada
Já de Bias aparecia,
Tão veloz e bem armada,

De aspecto tão incomum,
Que, vinda de além do rio,
Nunca mais, em tempo algum,
Montecarapeicho viu.
 
Opôs-se-lhe o moiro bruto,
Com dureza e valentia,
Pensando que o seu reduto
À luz cristã resistia.

Mas a força da razão,
Mesmo que Allah-Deus se torça,
É de mais persuasão
Do que a razão pela força.

E assim foi que em longas horas,
Peito contra peito ardendo,
Por dias, noites, auroras,
O combate foi perdendo
 
Aquele calor primeiro,
Porque o moiro mal contente,
Dava o corpo derradeiro
Ao seu deus, de ali ausente.

Durou a luta dez dias
E dez noites, sem parar,
Em refregas, correrias,
Que era só matar, matar.

Mas uma mulher sublime,
Por entre os mortos e os vivos,
Resgatando-se do crime
De ser moira, aos seus cativos

Lavava as f’ridas com choro
E água pura de uma fonte...
E à dor aplicava o soro
Dos seus lábios, fronte a fronte.

Era assim — quem sabe lá! —
Que os moiros, frente aos cristãos,
Morriam, como se Allah
Os levasse em suas mãos.

E os valentes portugueses
Que tais eram, — é bem de ver! —,
Fechavam olhos, às vezes,
Para o moiro em paz morrer.


* *


A luta findara há muito
Na paz serena das loisas,
Mas El-Rei, por seu intuito,
Mudou o nome das coisas.

Não qu’ria mais que a lembrança
Desses perros infiéis,
Ficasse, por semelhança,
Lembrando tempos cruéis.

E de quanto ali mudou,
De quanto fazia empacho,
Da terra o nome ficou
Sendo Montecarapacho.
 
Foi o Tempo assim andando,
Sem mais guerra ou mais despacho,
E o nome foi-se alterando
Até ser MONCARAPACHO.


* *
É esta a remota história
Desta aldeia que é já Vila,
P’ra que fique, na memória,
Serenamente tranquila.

Mas a moira, a virgem moira,
O que dela feito foi?
Nosso El-Rei, por casadoira,
A requestou, como herói.

Vendo Allah, de outro luar,
Que à sombra do Al-Corão
Não devia ela casar
Com o Rei que era cristão,

Ali, p’ra sempre, encantou
Sua carne de apetites,
E o seu corpo transformou
Em fustes de estalagmites,

Que ao presente ainda existem
Lá no Cerro da Cabeça,
E que aos milénios resistem,
Sem que alguém a Deus o peça.

Fonte Biblio LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.137-144

Place of collection Moncarapacho, OLHÃO, FARO

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

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