Lenda de Santa Maria Adelaide (C)

APL 732

A minha avó que morreu com noventa e um ano conheceu-a e falou-me a mim sempre nela. E a minha mãe ainda se lembrava de a desenterrarem pela segunda vez, porque primeira vez, como estava intacta, tornaram-na a lá pôr. É que, de sete em sete anos, abre-se a cova para pôr outra pessoa. Mas ela, nesses anos, estava consante foi, roupinha e tudo. Depois, noutra altura, quando chegou a época de enterrar outra pessoa, não sei se era família se o que era, então ela estava na mesma.
 A minha mãe, que era criança, lembrava-se que ela esteve uns dias ali atrás do muro [aponta para o cemitério], com o caixão. As pessoas iam lá vê-la. Ela tem aqui, salvo seja [junto à boca], isto esmoucado p’ra dentro. Houve quem dissesse que foi de propósito, mas nisso não acredito eu. Claro, ao desenterrarem-na, espetaram o ferro. Tinham de espetar nalgum lado. Foi na boquinha.
 Agora ali está. Ainda conheci uma senhora que vinha de Tabuaço cá vesti-la e que dizia que via as unhas e o cabelo crescer. E como de facto, o cabelo tem-no assim por aqui [pelo meio do corpo].
 E não vai há muito, estive com uma rapariga do meu tempo, pouco mais nova do que eu que vinha cá muita vez ajudar a compô-la, e que disse:
 — Olha que até o pelinho da pombinha lhe crescia!
 Desculpe, senhor professor, olhe que é com muito respeito que lho digo. Eu tenho 76 anos.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre Património Imaterial do Douro - Narrações Orais (contos, lendas, mitos) Vol. 1 Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2007 , p.134

Place of collection Barcos, TABUAÇO, VISEU

ColectorAlexandre Parafita (M)

InformanteMaria Isabel Araújo (F), 76 y.o., Barcos (TABUAÇO) VISEU,

Narrativa

When XXI Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications