Lenda de São Pedro e dos Dois Irmãos

APL 2881

A lenda que vou contar agora teve a sua origem perto de Aveiro
Numa daquelas pequenas povoações que beijam o mar, vivia o tio Marcos com dois filhos, dois belos e valentes rapazes que eram o seu orgulho de pai. Criou-os e educou-os como verdadeiros irmãos, cada um deles capaz de se sacrificar pelo outro. E quando chegou a hora da morte, o tio Marcos chamou os seus dois rapazes e disse-lhes, voltando-se para o primogénito:
Albino, tu és o mais velho. Não te esqueças, homem, do que eu te ensinei!
Albino respondeu com firmeza:
— Meu pai, não esquecerei nem uma só das suas palavras!
Então o velho voltou-se para o outro filho:
— E tu, Jorge, respeita sempre o teu irmão como se de mim próprio se tratasse. Quero que vocês os dois sejam um nó tão apertado que ninguém o consiga desatar!
Mordendo os lábios de emoção, Jorge respondeu apenas:
— Meu pai, pode confiar em mim!...
Fazendo um esforço enorme para falar, o velho Marcos continuou:
— Ainda bem, meus filhos, ainda bem! Assim morro descansado!
Estendeu o braço magro e tremente e pegou num pequeno saco, de aparência insignificante, colocado à sua cabeceira.
— Aqui está tudo o que lhes posso deixar. A ti, Albino, cabe-te guardar a minha herança. És o mais velho... Toma! Está tudo neste saco... Segura-o bem!
Albino adiantou-se e pegou no saco. O velho sorriu debilmente:
— É leve, como vês… mas vale uma fortuna! Uma fortuna, compreendem? Mas só deverão abrir o saco quando para isso sentirem verdadeira necessidade... Até lá, contem com os vossos braços... com o vosso trabalho...
As palavras começaram a baralhar-se, a voz parecia querer extinguir-se. Uma farfalheira horrível subia da garganta do moribundo. Num esforço supremo, conseguiu ainda balbuciar:
— Adeus, meus filhos!... Coragem!
Esmagado pelo sofrimento, Albino baixou a cabeça. Jorge, porque tinha as mãos livres, correu a apoderar-se das mãos do velho. E o tio Marcos, que sempre fora um homem bom e justo, partiu tranquilamente para a grande viagem.

Albino e Jorge choraram longamente a saudade do pai. E guardaram o saco da herança como um tesouro. O trabalho era para eles o cumprimento dum dever. Os braços não se recusavam a qualquer canseira. Partilhavam assim, os dois irmãos, a vida que se lhes oferecia, no mesmo sentimento de camaradagem e amizade. Até que um dia…
Um dia apareceu lá na aldeia, vinda de longe, uma rapariga estranhamente bela e sedutora. Dizia-se que tinha fugido à família para não casar com um homem que odiava.
De qualquer modo, depressa a rapariga estranha enfeitiçou muitos rapazes da aldeia. E entre eles contavam-se Albino e Jorge.
A atmosfera em casa começou a ser menos respirável. Olhavam-se comprometidos, os dois irmãos. Falavam pouco. Trabalhavam menos. E, uma tarde, quando ambos voltaram do trabalho, Albino resolveu abordar o assunto. O diálogo que se estabeleceu foi simples mas duro.
— Jorge!
— Que é?
— Sabes de que te vou falar, não é assim?
— Calculo!
— Pois a verdade é que ambos gostamos dela… não te parece?
— Acho que sim. E o pior é que ela dá a impressão de gostar de nós dois!
— Hum! Lá nisso não acredito, Jorge. Deve ter uma preferência.
— Já o notaste? Bem… eu não queria falar nisso, mas… visto que o percebeste...
— Pois percebi. Ela, aliás, não o esconde. Já mesmo o deu a entender…
— Ainda bem, Albino! Assim é melhor!
— Ainda bem, dizes tu? Então conformas-te assim com tanta facilidade?
— Conformar-me, eu? Que ideia! Estou radiante!... Pois se é a mim que ela prefere...
— Ela prefere-te?... Enganas-te, Jorge! Quem ela prefere é a mim!
Então, numa risada, toda a má disposição acumulada até ali explodiu com violência. Jorge retorquiu:
— Não estás em teu juízo perfeito, com certeza! Pois ainda não viste para quem ela olha com mais ternura, para quem ela sorri com mais amor?
Albino respondeu com azedume:
— Sim, vi muito bem!
— E restam-te dúvidas ainda?
— Nenhumas! Ela de quem gosta é de mim!
Jorge gritou, colérico:
— Não! É de mim!
E a partir desse instante tudo passou a ser diferente. Entre os dois irmãos começou a criar-se um desentendimento que depressa se transformou em abismo. Então, cada um deles procurou conquistar para si o coração da bela desconhecida.
Procurando iludir a vigilância do irmão, Albino conseguiu falar a sós com a rapariga.
Ela parecia esperá-lo. Olhava-o intensamente, com o seu olhar de fogo. A Albino não lhe ficaram dúvidas do seu triunfo. Mas tentou ainda obter maior certeza.
— Escuta: é a mim que tu amas, não é verdade?
Ela sorriu, dengosa.
— Pois ainda não entendeste?
Como resposta, ele tomou-lhe uma das mãos. Ela, com um dedo, desenhou-lhe um círculo à roda dos lábios. Albino perdeu a serenidade, mas conseguiu balbuciar:
— Seremos os dois felizes! Eu tenho a herança que o meu pai me deixou! Poderemos partir para longe.
Ela passou-lhe os braços em volta do pescoço.
— Como tu quiseres!
Enlouquecido, Albino apertou-a fortemente contra ao peito.
— Oh, meu amor, amanhã mesmo partiremos!... É noite de S. Pedro! Acabada a festa, ninguém mais nos verá aqui!
Ela afastou-o languidamente.
— Não te esqueças do teu irmão! Ele não vai aceitar a situação tão facilmente como tu pensas...
Albino encolheu os ombros. E logo a rapariga, olhando-o bem nos olhos, perguntou subitamente séria:
— Serias capaz de passar por cima dele... só para fugires comigo?
O rapaz teve um ligeiro estremecimento. Mas o olhar dela era tão profundo, tão perturbante, que ele declarou:
— Para fugir contigo... serei capaz de passar por cima de tudo!
Então ela soltou uma gargalhada. Depois beijou-o com volúpia, disse-lhe adeus e fugiu. Só, Albino ficou um tanto perplexo. Aquela rapariga tão bela era quase diabólica! Mas a verdade é que não sabia resistir-lhe. Ansiava que a festa de S. Pedro acabasse, para poder fugir com ela.
Entretanto, Jorge estava alerta. O irmão desaparecera e não via a rapariga. Um ciúme desesperado queimava-lhe as veias. Nisto descobriu-a, sorrindo-lhe sob uma árvore frondosa, à beira da estrada. Ele correu para ela, como enlouquecido, e perguntou-lhe à queima-roupa:
— Gostas de mim?
Ela continuou a olhá-lo devoradoramente. Ele perturbou-se mais e repetiu:
— Gostas de mim?
Um voluptuoso trejeito de lábios deu a Jorge a certeza por que tanto ansiava. Propôs-lhe, confiante:
— Ouve, querida! E se nós fugíssemos amanhã à noite, depois da festa de S. Pedro?
A voz dela soou quente. Os seus dedos estranhamente afilados percorriam os braços do rapaz, num enleio de serpente. Mas a frase que pronunciou era um tanto dura, um tanto negativa:
— Como? Fugirmos assim… sem mais nem menos… sem sequer termos dinheiro?
O efeito produzido deu novas forças a Jorge.
— Querida! O meu pai deixou-me uma bela herança! Eu tenho direito a ela!
Os dedos da rapariga subiram até ao pescoço dele.
— Oh, meu amor! Então, podes contar comigo inteiramente! Iremos correr o mundo, viver uma bela vida!...
Calou-se. Apertou-o nos seus braços roliços e, por fim, afastando-o de si, perguntou-lhe:
— Ouve lá… E o teu irmão?
Ele sorriu com desdém.
— Quero lá saber dele!... Que se governe! Já me tem prejudicado bastante!
Baixinho, ela perguntou-lhe ainda:
— E serás capaz de passar por cima dele… só para fugires comigo?
Jorge tentou uma risada.
— Ainda o duvidas?... Amanhã verás!
Na noite seguinte, em pleno arraial de S. Pedro, os dois irmãos encontraram-se frente a frente. Um deles tinha na mão o saco que o velho tio Marcos deixara aos filhos, como herança. E logo ali, num ímpeto de fúria, ante a própria imagem de S. Pedro, os dois homens atiraram-se um ao outro. A rivalidade do amor, tanto tempo recalcada, explodiu de repente. Ambos pareciam dispostos a matar. A luta tornou-se feroz, impiedosa, prestes a chegar a um fim lamentável. Mas, de súbito, escutou-se um grito estranho:
— S. Pedro, valei-me!
Dir-se-ia a voz aflita do próprio tio Marcos. Então, num ápice, como que regida por vontade superior, a luta fratricida parou. Albino e Jorge e todos os presentes que tinham escutado o grito olharam estupefactos para a imagem de S. Pedro. E os seus olhos viram, maravilhados, as mãos do Santo pegarem no saco da herança do tio Marcos, desatarem-no e tirarem de dentro o tesouro que lá estava encenado: apenas um nó muito apertado, muito apertado!
E conta a lenda também que, nesse preciso instante, no meio do arraial houve uma espécie de movimento brusco. E a bela desconhecida desapareceu, envolta em rolos de fumo, enquanto se ouvia uma explosão brutal! 
Só nesse momento os dois irmãos compreenderam, horrorizados, que o Demónio, sob a figura da bonita rapariga, estivera a tentá-los, quase conseguindo alcançar o seu propósito. Salvos, arrependidos, caíram nos braços um do outro, pedindo recíproco perdão.
Assim que os dois irmãos se abraçaram, na antiga imagem de S. Pedro floriu um sorriso, sorriso de felicidade que ainda hoje conserva, para alegria das moçoilas e dos rapazes que lhe dedicam as suas trovas e os seus corações nas noites de folguedo. E a herança do tio Marcos ficou como símbolo do melhor tesouro: a união da família.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 211-215

Place of collection-, AVEIRO, AVEIRO

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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