Lenda do Almocreve de Estói

APL 2835

Ainda hoje se diz ali, em São Brás de Alportel, em pleno coração do Algarve, que tudo isto aconteceu de verdade... Todavia, de geração em geração, conta-se apenas como lenda. E é também unicamente como lenda que eu vou contar...
 
Chamava-se José Coimbra, para uns, ou Ti Zé da Serra, para outros, era almocreve, e fazia a sua vida percorrendo os caminhos do Algarve, especialmente entre Faro e São Brás de Alportel.
Ora, um dia — dia bonito de Primavera bonita, segundo me disseram — ia o nosso José Coimbra (ou Ti Zé da Serra), guiando o seu jumentinho pela estrada fora, quando ao passar junto às ruínas de Milreu, aí a uns duzentos metros de Estói, viu qualquer coisa que o deixou pregado à terra, de olhos esbugalhados e de garganta entupida — enquanto o burrinho, cheirando também a mistério, desaparecera para não mais ser visto.
Mas que acontecera, afinal? Apenas o seguinte: aparecera uma moura encantada ao José Coimbra (ou Ti Zé da Serra). E que moura formosa ela era! Cabelos loiros, olhos azuis, vestida com um manto de princesa, e sorrindo. Sorrindo como só os anjos certamente sabiam sorrir. Os anjos e as verdadeiras mouras encantadas…
O primeiro impulso do almocreve, logo que se sentiu voltar a si, foi esfregar os olhos para ver se estava a sonhar ou não. E esfregou com força. Com muita força.
Não, não havia mais dúvidas: era uma linda moura encantada que o olhava e lhe sorria! Ele lembrou-se das histórias contadas por seus pais, que Deus já levara para a Sua santa guarda. Sim, bem lhe tinham dito (e por mais de uma vez) que ali, em Estói e nos arredores (como aliás em todo o Algarve), havia muitas, muitas mouras encantadas.
Mas aquilo nunca lhe acontecera. E para mais assim, tão de repente… O José Coimbra (ou Ti Zé da Serra) suspirou de tal maneira, que a bela aparição sorriu ainda mais. E numa voz que parecia cântico de sereia ou trinado de passarinho disse apenas:
— Não tenhas medo... Vem comigo!...
E o José Coimbra (ou Ti Zé da Serra), como é voz corrente na região, foi mesmo, seguindo o caminho indicado pela moura encantada.
Não andaram muito, porque, a certa altura, a moura parou. E com seu pezinho descalço — o José Coimbra (ou Ti Zé da Sena) nunca vira pé tão bonito!... — bateu na terra. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. E logo se abriu um alçapão.
Por um instante, o almocreve ainda pensou fugir. Mas ela olhou para ele e ele perdeu toda a coragem.
— Vamos... Desce atrás de mim.
E desceram ambos uma escadaria de mármore, que os levou a um sala enorme cheia de ouro por todos os lados. As paredes eram de ouro. E de ouro o belo tecto, também.  
A moura encantada indicou-lhe uma cadeira de ouro, para que se sentasse.
— Espera só um instante... Eu volto já.
O almocreve sentou-se, sem forças para reagir. Sentia uma tremura estranha em todo o corpo, e um ruído esquisito zunia na sua cabeça. Ah, se aquilo fosse apenas um sonho! Mas não, era realidade. Absoluta realidade!
E mexeu-se, e beliscou-se a si próprio, para novamente ter a certeza de ainda estar vivo. Lá isso estava... Mas por quanto tempo?
De repente, voltou a deixar de pensar. O que viu pregou-o à cadeira. Pregou-lhe o corpo, a voz e o pensamento. Mesmo que quisesse, não seria capaz de dar um único passo. Mesmo que quisesse, não seria capaz de dizer uma única palavra.
Diante dos seus olhos esgaseados, estava agora a bela moura encantada, segurando de um lado um terrível leão, e do outro lado uma não menos terrível serpente.
— Escuta, pobre homem: queres trocar a vida miserável que tens por uma vida de opulência, e ser possuidor deste palácio e de todo o ouro que ele possui?
E como o José Coimbra (ou Ti Zé da Sena) nada respondesse, ela insistiu:
— Queres ou não?
Então, num arranco de coragem, o homem conseguiu gritar uma resposta.
— Quero, sim!
Mas logo se encolheu, temeroso do que lhe podia acontecer. E gaguejando atirou uma pergunta que reflectia toda a sua inquietação:
— Mas... mas… para isso… que... que tenho eu... de... fazer?
Sem se mexer donde estava, a moura encantada respondeu-lhe calmamente, vagarosamente:
— Tens de aceitar três condições... Em primeiro lugar, serás três vezes engolido e três vezes vomitado por meu irmão, que está transformado neste leão. Depois, três vezes serás também abraçado por minha irmã, que está transformada nesta serpente, e que deixará o teu corpo em chaga nos pontos em que te tocar... E por fim eu beijar-te-ei a fronte, para te tirar os santos óleos que recebeste no baptismo...  
Houve um silêncio. Silêncio pesado, enervante, cruel. Silêncio de expectativa e de angústia.
O almocreve olhou a medo para o leão e para a serpente. No seu íntimo, quis rezar, mas não se lembrou das orações. Todo ele tremia, por dentro e por fora. Mas conseguiu falar, apesar de tudo.
— Deixe-me pensar… na sua proposta... Depois lhe virei dizer o que resolvo... Está bem?
E quando ele pensava que a moura encantada ia dizer que não, pelo contrário ela mandou embora o leão e a serpente, pegou em duas barras de ouro e deu-as ao almocreve.
— Toma... Isto é para te ires acostumando ao peso do ouro... Ficarei à espera da tua resposta.
E apontou as escadas, ao cimo das quais o alçapão já estava aberto. E o José Coimbra (ou Ti Zé da Serra) subiu o mais depressa que lhe foi possível, carregando as duas barras de ouro. E assim que se apanhou em liberdade, apesar do peso que transportava, começou a correr como se tivesse vinte anos de idade...

Sabe-se (e diz-se) que ele entrou em casa já de noite e com as maiores cautelas. Não queria que ninguém descobrisse o que trazia consigo. Nem a própria mulher...
Assim, escondeu logo as duas barras de ouro e deitou-se sem nada contar. Mas teve um terrível pesadelo, que o fez revolver-se e gritar como um possesso, acordando toda a vizinhança.
Em sonhos, ele vira-se a ser engolido e vomitado pelo leão e a ser abraçado pela serpente...
O pior foi que daí em diante, todas as noites, o José Coimbra (ou Ti Zé da Serra) passou a ter pesadelos violentos, alucinantes.
Apesar disso, ele guardou silêncio. E aos poucos, os pesadelos foram diminuindo e acabaram por desaparecer.
O almocreve julgou-se salvo. Salvo para sempre, e ainda por cima, possuidor de duas barras de ouro…
Mas enganava-se. Depois dos pesadelos, vieram os maus negócios. José Coimbra (ou Ti Zé da Serra) começou a arruinar-se, a empobrecer e ficou na miséria. Na mais negra miséria!
Pensou então que somente teria uma possibilidade de resolver o dramático problema: vender as barras de ouro que tinha escondidas. Sim, vendê-las, por exemplo, numa feira grande, onde lhe dariam decerto bom dinheiro por elas. E se o pensou, melhor o quis fazer... Correu em busca das duas barras de ouro e olhou-as como autêntica tábua de salvação. Porém, à maneira que as fitava, ia sentindo perder a vista. Só teve tempo de as guardar de novo e saiu dali a correr, como um tresloucado, gritando que estava cego!
Uma desgraça nunca vem só — diz o povo, com razão — e o velho adágio confirmou-se na vida de José Coimbra ou Ti Zé da Serra, o almocreve de Estói, como lhe chamavam por ali.
Cego! Nem rezas, nem bruxarias, nem remédios o conseguiram curar. O pobre homem passou a viver num mundo horrível de escuridão. Até que um dia, já desesperado, resolveu ir gastar os últimos patacos com um especialista de olhos, em Faro, do qual se diziam maravilhas...  
Acompanhado pela mulher, que o ajudou a montar num jumento quase tão velho e inútil como ele — o almocreve partiu a caminho de Faro. Era a sua última esperança.
 
Aí por alturas das ruínas de Milreu, a duzentos metros de Estói — conforme se continua a recordar, de geração em geração — houve necessidade de parar para alimentar os dois jumentinhos, o dele e aquele em que seguia a mulher. O almocreve desceu e ficou sentado numa pedra, à beira do caminho, enquanto a mulher foi tratar dos animais.
De súbito, o José Coimbra (ou Ti Zé da Serra) teve a percepção nítida de que se encontrava mais alguém junto dele.
— Quem está aí?
E aos seus ouvidos chegou a voz que ele bem conhecia, a voz da moura encantada:
— Sou eu. Eu, que tenho estado à espera da resposta que não ma quiseste dar... Faltaste à tua promessa!
Ele não falou. Não sabia que dizer. Não sabia como desculpar-se. E a moura continuou, na mesma vozinha que mais parecia cântico de sereia ou trinado de passarinho:
— É por isso, por teres faltado à tua promessa, que tu estás assim... pobre e cego! É o teu castigo... E se te poupei a vida foi só porque nunca revelaste o meu segredo e o segredo dos meus irmãos.
Nesse instante, a amargura que havia no interior do homem desfez-se em lágrimas. Ele teve pena da moura encantada e dos seus irmãos, encantados também. Pena sincera. E chorou...
Como se essas lágrimas tivessem alcançado o coração da bela moura, esta disse depois, numa voz emocionada:
— Vou perdoar-te, porque és bom... Volta portanto para casa; e amanhã de manhã, antes do Sol nascer, senta-te à tua porta... Com os primeiros raios de luz, os teus olhos darão dois estalos, e tu ficarás a ver de novo... Primeiramente verás as casas do Padre José Dias… depois as gaiolas e os canários... e depois tudo o que tu quiseres!  
Mesmo cego, ele quis-lhe agarrar as mãos para as beijar, num agradecimento. Mas só encontrou o vazio. Nada mais. A moura encantada desaparecera por completo!

Quando a mulher voltou, ficou espantada ao vê-lo de pé.
— Que é isso homem? Que queres tu?
— Ainda bem que apareceste... Quero voltar para casa!
O espanto encheu o rosto dela.
— Como? Que dizes?
— Quero voltar para casa! Não ouviste?
O espanto dela foi ainda maior.
— Mas que se passou?
— Não se passou nada. Resolvi não ir a Faro. Tens alguma coisa a dizer?
— Não. Tu é que mandas... Mas pensei que querias consultar o tal especialista...
— Não vou. Prefiro guardar o último dinheiro que me resta... Vamos!
E regressaram, melancolicamente. Cada um pensando para si. A mulher sem atinar na resolução do marido. O almocreve ansiando que chegasse a manhã seguinte, mas sem divulgar o seu segredo...

Foi ele o primeiro a acordar — se é que chegou a dormir...
— Mulher, leva-me lá para fora... Quero sentar-me à porta.
— Tão cedo, homem?
— Sim... Quero sentir o Sol a nascer, já que não o posso ver...
E ela fez-lhe a vontade. Sentou-o no poial, cuidadosamente, e deixou-lhe o bordão para ele se apoiar, enquanto ela varria a casa.
Passaram uns minutos. Dali a pouco apareceram as primeiras luminosidades do Sol. E logo o José Coimbra (ou Ti Zé da Serra) ouviu dois estalos na sua própria cara. Era verdade! O milagre dera-se! De um pulo, ele ergueu-se, gritando:
— Eh, mulher, vem cá depressa!... Já vejo outra vez!... Olha, olha... Vejo o Sol… as casas do Senhor Padre José Dias… as gaiolas e os canários… e os campos... e tudo! Já vejo outra vez!
A mulher veio correndo, assombrada. E mais assombrada ainda ficou quando viu que era verdade. O marido recuperara a vista! Caiu de joelhos junto dele, exclamando.
— Louvado seja Deus!

A partir dessa manhã, segundo se diz, viveram sempre felizes e contentes, e o almocreve de Estói voltou a ser o almocreve mais ligeiro daqueles sítios.
Mas, ao que parece, não tornou a passar pelo sítio de Milreu, preferindo fazer caminhadas muito mais longas para se afastar desse local — embora não se soubesse porquê...
E também não se sabe o que foi feito das duas barras de ouro escondidas por ele. Sabe-se, sim, que a bela moura continua ainda à espera de quem a queira desencantar e desencantar os seus dois irmãos, transformados em leão e em serpente...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 217-222

Place of collection São Brás De Alportel, SÃO BRÁS DE ALPORTEL, FARO

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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