Lenda do Calhau da Moura

APL 3581

Junto ao rio Tâmega e perto da aldeia de Arcossó, no concelho de Chaves, há uma fraga que é conhecida como o “Calhau da Moura”. E sobre ela o povo conta uma bonita lenda. Diz-se que andava um dia uma pastora com o seu rebanho, numa das margens do rio, quando avistou uma mulher muito bonita sentada numa fraga a fiar. E os fios que usava eram de ouro.
    Puseram-se então a olhar uma para a outra, e de repente a fiandeira levantou-se da fraga e caminhou na direcção da pastora, dizendo-lhe:
    — Dás-me um pouco de leite?
    A pastora disse logo que sim, e, abeirando-se de uma das ovelhas, encheu uma vasilha de leite e deu-lho. Mas, porque era curiosa, tratou também de perguntar à desconhecida:
    — E a senhora quem é? E o que faz naquela fraga?
    — Sou uma moura encantada — respondeu —, e vivo ali.
    A pastora não ficou muito esclarecida, mas também não pôde fazer mais perguntas, porque a moura não estava para grandes conversas. Só lhe disse, ao mesmo tempo que lhe dava para as mãos uma caixa:
    — Toma lá, e não faças mais perguntas. E esta caixa só a abras quando chegares a casa.
    A seguir a moura voltou para a sua fraga e desapareceu. Entretanto, a pastora tocou as ovelhas para casa, mas pelo caminho pôs-se a pensar:
    — Que terá ela posto nesta caixa? Abro? Não abro?...
    E a curiosidade foi tanta que não resistiu. Abriu a caixa, ali mesmo, no caminho. E o que viu lá? Ouro, fios de ouro, libras de ouro?... Nada disso. Apenas bocados de carvão.
    Pôs-se então a chorar, desiludida, pois criara demasiadas esperanças naquele presente. E deitou fora os bocados de carvão e a caixa, seguindo o seu caminho. Acontece que, mal andou uma dúzia de passos, olhou para trás, e o que viu? A moura em silêncio apanhava para a caixa os bocados de carvão que ela havia deitado fora. E reparou também que os bocados de carvão, mal ela os apanhava do chão, se iam transformando em moedas de ouro.
    Largou as ovelhas e correu atrás da moura, a pedir-lhe desculpa. Só que ela já nem a ouviu. Desapareceu de repente com a caixa e com o ouro. Até hoje. E a testemunhar isto, segundo o povo, já só lá está a fraga, que ficou a chamar-se “Calhau da Moura”.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.241-242

Ano2001

Place of collection Arcossó, CHAVES, VILA REAL

InformanteMaria Fernanda Martins (F), 46 y.o.,

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications