Lenda do Casamenteiro das Velhas

APL 2877

S. Gonçalo de Amarante é popularmente conhecido como casamenteiro das velhas. De um protesto da juventude nortenha que se julga preterida por este santo, nasceu a seguinte quadra popular:

S. Gonçalo de Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casas as novas?
Que mal te fizeram elas?

Contemos agora a lenda que tanto o popularizou.

Chovia torrencialmente e o vento zunia, martirizando as pobres árvores, que dobravam os seus ramos numa franca submissão. O dia estava ainda na sua juventude. Era domingo, e os fiéis que tinham acorrido a assistir ao Santo Sacrifício da Missa começavam a sair da igreja. Porém, quando a Maria do Rosário — a Rosarinho, como era conhecida — já ia no adro, a tia Inês, resguardando-se do temporal junto às portas do guarda-vento, chamou-a:
— Rosarinho! Anda cá!
A rapariga voltou-se.
— Deus a salve, tia Inês! Que me quer?
A mulher respondeu indirectamente:
— Isto é que está um tempo!... Mas ouve lá, cachopa, que é que tens?
Rosarinho mostrou-se admirada:
— Eu? Mas que hei-de ter?
A outra sorriu de modo enigmático.
— Sei lá! Tu é que sabes! A modos que andas de cabeça no ar! Durante a missa estiveste sempre voltada para a porta... Nem respeitaste o levantar a Deus! 
Rosarinho retorquiu, maliciosa:
— Ora... se a tia Inês viu isso... é porque também não estava a olhar para o altar...
Tia Inês embespinhou-se:
— Olha, cachopa, eu já ouvi outra missa! Não sou como vocês, que têm medo que o tecto da igreja lhes caia em cima!
Rosarinho riu.
— Ó tia Inês, não se zangue! Eu cumpri a minha obrigação, descanse! Sei tudo quanto o senhor prior fez no altar! E até ouvi o que ele disse!
— Devias ter ouvido muito bem! A tua cabeça girava mais que o catavento de S. Cristovão de Mafamude!
O olhar da rapariga tornou-se mais vivo:
— Bem dizem as nossas vizinhas que S. Gonçalo lhe conta tudo!
— E tu acreditas?
— Acredito!
— Porquê?
— Porque vossemecê adivinhou que eu estava à espera de alguém de Mafamude!
Tia Inês teve uma expressão de aborrecimento:
— Com que então sempre é verdade? A mim não me enganas tu!
Inês corou ligeiramente. Tentou desculpar-se.
— Olhe, tia Inês: eu não queria contar ainda a ninguém o que se passa... sem falar outra vez com ele, mas...
— Qual ele?
Rosarinho mostrou-se um pouco embaraçada. Depois decidiu-se:
— Se promete não dizer nada, vou contar-lhe tudo.
A mulher, curiosa, pô-la à vontade:
— Fala, rapariga! Desabafas, e isso faz-te bem!
Inês riu. Estava visivelmente envergonhada.
— Sabe... estou nervosa… nem sei por onde começar...
— Ora... começa por qualquer sítio!
— Bem... lá vai!... Como sabe, eu fui com o meu pai a Vila Nova de Gaia passar lá o Natal com os meus avós...
— Sei muito bem disso! Até não acabaste a renda que me tinhas prometido para o altar de S. Gonçalo.
Inês riu de novo.
— É verdade! Mas o santinho ficou de melhor partido. Vossemecê tem mais jeito do que eu.
— Mas conta lá o que ias a dizer...
— Fui a Vila Nova de Gaia..
Inês interrompeu:
— Já ouvi isso.
Rosarinho insurgiu-se:
— Credo, tia Inês! Vossemecê nem me dá ganas de continuar. Ainda deixa uma pessoa mais nervosa!
A velha gracejou:
— Estas cachopas dos tempos de hoje não prestam para nada! Nem para contar aquilo de que mais desejam falar!
— Vossemecê é que não me deixa!
— Pois sim! Fica sabendo que já adivinhei: arranjaste por lá um cachopo. Ele prometeu que vinha ver-te hoje, e afinal… faltou!
A rapariga ficou subitamente séria.
— Começo a acreditar no que dizem de si. Vossemecê adivinha as coisas! Ora diga-me então: acha que ele não virá hoje aqui?... Olhe que ele prometeu!
— Promessas de rapazes!
— Uma promessa séria, tia Inês! Jurou pela cabeça de S. Cristóvão que só gostava de mim, e comigo havia de casar!
Tia Inês mostrou-se desagradavelmente surpreendida:
— Credo! Isso é lá promessa que se faça!
Tentando desculpar o namorado, a rapariga adoçou a voz.
— Sabe... era para eu acreditar! Eu não estava muito certa.
E num repentino desabafo:
— Gosto tanto dele!...
Tia Inês encolheu os ombros, indiferente a essa declaração apaixonada.
— Ora, os homens! Os homens não valem um só dos nossos cabelos, pequena!
Rosarinho voltou a sorrir, maliciosa:
— Isso diz a tia Inês... porque não se casou!
— E julgas que não tive quem me quisesse?
E acrescentou, petulante:
— Ainda hoje muitos se deitarão sem ceia por minha causa! Eu é que não quero! Nenhum me agrada!
Rosarinho abriu os olhos muito espantada. Inês tornou:
— Acredita nisto que te digo! S. Gonçalo é testemunha!
A rapariga não sabia se havia de rir, se acreditar. A velha fingiu ter notado a estupefacção da jovem e continuou:
— Os homens... é que não valem nada! E o teu não escapa à regra, com certeza!
— O meu é diferente, tia Inês! É tão belo… tão forte... quando me aperta a mão parece que a esmaga!
Tia Inês sorriu, zombeteira.
— O demo da rapariga! Para onde lhe havia de dar! Os homens são todos iguais!
Mas já a rapariga lhe puxava pela manga da blusa e lhe dizia, como em segredo não contido:
— Tia Inês! Olhe para ali! É ele que chega, mesmo debaixo do temporal!
Riu, contemplando-o. E acrescentou:
— Repare que o vento parece que nem o molesta.
Tia Inês olhou em silêncio para o rapaz que se aproximava. E de repente decidiu:
— Vou-me embora!
A rapariga agarrou-lhe um braço.
— Não vá! Está a chover muito! Fique, pois quero que o oiça e me diga depois o que pensa dele.
Tia Inês mostrou-se condescendente.
— Pois seja! E que S. Gonçalo me perdoe de servir de velha alcoviteira… mesmo à porta da Casa de Deus!
O rapaz, que vinha apressado por causa da chuva, atirou-se de um pulo para a entrada da igreja, exclamando:
— Salve-as Deus!
Ruborizada, Rosarinho dirigiu-se-lhe, contente:
— Estava à tua espera, Toino! Sabia que havias de vir! Tu juraste!...
Ele envolveu-a num olhar fogoso.
— Pois jurei!
E reparando que a sua rapariga não estava só:
— Estás acompanhada?
A jovem informou, solícita:
— É a tia Inês. Vive perto da minha casa. Podemos confiar nela.
Toino sorriu para ambas. E perguntou:
— Já acabou a missa?
Foi tia Inês quem respondeu:
— Onde é que elas já vão todas! Apanhou-nos aqui por acaso!
— E eu estou aqui... porque jurei!
E sacudindo os ombros molhados:
— Sempre está um temporal!... Já agora, é melhor ficarmos aqui a conversar um bocado. Pode ser que isto amaine...
E, na verdade, o tempo mudou. Levou, porém, mais de quarenta minutos sem melhoria. Durante esse espaço conversaram de tudo, abrigado pelo tecto da igreja. Por fim, quando os três se separaram, só Deus sabia os estranhos pensamentos que cada um guardava no íntimo da sua alma.
 
Dias passaram. Na solidão da igreja e quando todos os fiéis já tinham saído, a tia Inês foi falar com o seu santo predilecto:
— Meu S. Gonçalo! Sabeis quanto tenho feito por vós sem nada vos pedir!
Olhou a imagem do santo, que parecia sorrir-lhe. Tomou alento antes de continuar:
— Sabeis o que me atormenta… mas tenho vergonha de o repetir... Vós, porém, podeis ler no meu pensamento! Compreendo que parece loucura desejar casar com o Toino. Ele namora a Rosarinho, que é nova e bonita! Ao passo que eu, embora não seja tão velha como dizem… também já não sou nova.
A ideia da diferença de idades enervou a tia Inês, que reatou o seu monólogo com mais força íntima:
— A diferença... é só nas idades! Mas enquanto ela só pensa na hora presente... eu sou uma mulher que sabe fazer a felicidade de um homem. Toino é um barqueiro sério, trabalhador. Mas não gosta de mim! Creio que não devo ter esperanças! Contudo... se eu o pudesse merecer... meu S. Gonçalo... se eu pudesse... seria muito feliz!
Calou-se, a tia Inês. Alguém entrara na igreja. Levantou-se — pois estava ajoelhada — e saiu.

Semanas mais tarde, estava a Rosarinho junto ao portal da sua casa, quando avistou o Toino que se encaminhava para ela. Toda contente, Rosarinho exclamou:
— Toino, bons olhos te vejam! Julguei que estavas zangado! Há dez dias que não te ponho a vista em cima.
Toino mostrou-se embaraçado:
— Preciso falar contigo.
Rosarinho surpreendeu-se. Indagou:
— Que te aconteceu? Estás tão sério... Pareces atrapalhado! Que tens?
Baixando os olhos, Toino declarou:
— Quero pedir-te um grande favor.
Voltou a rapariga a surpreender-se:
— Um favor… a mim? Pede! Decerto não desejas que te dê a Lua!
Ele respirou fundo:
— Bem... Não venho pedir-te a Lua... mas venho suplicar-te que me desobrigues da jura que te fiz!
Rosário deu um salto.
— O quê? Da jura que me fizeste pela cabeça de S. Cristóvão?
— Sim, Rosarinho, essa mesma!
A rapariga olhou o namorado como se quisesse certificar-se de que ele estava em seu juízo perfeito. Não podia crer no que acabava de ouvir. Perguntou, na ânsia de ter percebido mal:
— Já não queres casar comigo?
Houve um silêncio. Ela insistiu:
— Responde! Queres casar com outra?
Cada vez mais atrapalhado, Toino respondeu:
— Assim é, Rosarinho: quero casar com outra.
A rapariga gritou quase:
— E quem é essa fedelha?
Tomo pareceu ficar mais senhor de si. Explicou:
— Não é uma fedelha, é uma mulher já feita. Uma mulher de bem!
— Alguma pateta de Mafamude!
— Também não é de Mafamude. É de Amarante.
Rosário empertigou-se:
— De Amarante?... Quem? A Júlia?...
Toino meneou a cabeça. Mordeu os lábios. Voltara a ficar embaraçado. Mas depressa recuperou a calma.
— Olha, Rosarinho: a Júlia não me serviria, porque da minha mulher ninguém terá nada que dizer. Mas não te canses a pensar. Eu vou dizer-te: estou resolvido a casar com a Inês.
Rosário abriu os olhos num espanto sincero.
— Com a tia Inês? Com essa velha sempre metida na igreja?
Toino continuava calmo. Esclareceu:
— Por muito estranho que te pareça… eu não a acho velha. Tem pouco mais de quarenta anos. É sadia, trabalhadora, séria, e ainda bem parecida de cara e de corpo. Tem todas as qualidades que desejei encontrar na minha futura mulher.
Rosário não vinha a si do espanto. Exclamou:
— Tu estás doido! Trocares-me pela tia lnês!... Será possivel gostares dela?
— Gosto, sim, acredita!
Rosário abanou a cabeça. De súbito voltou a animar-se:
— Já sei! Isso deve ter sido obra de S. Gonçalo. Eu não lhe acabei a renda para o altar, e ela faz-lhe tudo! Até dizem que fala com ele!
Toino encolheu os ombros:
— Isso não é comigo: são coisas entre ela e o Santo. Mas diz-me: queres ou não desobrigar-me da jura que te fiz?
Desesperada, Rosario, gritou:
— Não! Juraste casar comigo e não vou deixar-te à vontade para ires para essa velha!
Enérgico, o rapaz retorquiu:
— Pois casarei com ela, mesmo quebrando a jura!
E dando costas à rapariga desceu apressado a rua estreita onde ela morava.
Conta a lenda que Toino casou, de facto, com a senhora Inês, quebrando a jura que fizera pela cabeça de S. Cristóvão. Então, inexplicavelmente para o povo de Mafamude — à excepção do Toino — a cabeça de S. Cristóvão despegou-se do corpo e rolou pela igreja. Só Rosário, Toino e Inês sabiam, afinal, a verdade. Mas Rosário estava despeitada, e começou a espalhar a notícia. A nova correu pela povoação. Houve quem desejasse felicidades aos noivos. Mas as raparigas de Amarante, solidárias com o caso de Rosarinho, foram queixar-se a S. Gonçalo. Depois, o povo, compôs a quadra que ainda hoje circula de boca em boca, e promove em Amarante e Mafamude romarias e procissões.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 173-179

Place of collection Amarante (São Gonçalo), AMARANTE, PORTO

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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