Lenda do Cavaleiro Negro

APL 2796

Na sala onde D. Sebastião costumava trabalhar, deu entrada D. Pedro de Alcáçova. Inclinou-se perante o jovem rei português e, depois de o saudar, declarou com deferência:
— Senhor! Dizei-me o que de mim precisais, que algo importante tenho também a declarar-vos.
Sem alterar o semblante, o rei informou:
— D. Pedro! Todos estão contra o meu desejo de fazer guerra, como se outro fosse o desígnio de um cavaleiro. Quero ir lutar em África, e pediram-me um socorro que estou empenhado em conceder. Mas a empresa parece-me pesada, todavia, para a intentar sozinho, e penso interessar nela meu tio D. Filipe II. Para isso necessito de um embaixador que vá a Espanha falar com o rei meu tio. E só a vós encontro para essa missão, Pedro de Alcáçova.
Numa reverência, D. Pedro mostrou-se conforme ao desejo do rei.
— Irei a Espanha, Senhor, e honrado me sinto com o favor da vossa escolha. Quando devo partir?
— Logo que a Primavera chegue.
— Pouco falta, Senhor. Estamos em meados de Fevereiro.
— Pois preparai-vos. Morre-se de tédio neste Inverno cinzento e duro de Lisboa!
Sorriu D. Pedro, maliciosamente.
— Por vezes, surgem acontecimentos estranhos, a quebrar a monotonia...
— E onde estão eles?
— Bem perto.
— Sede claro, Pedro de Alcáçova!
— Senhor... Há dias que ronda o vosso palácio um estranho e jovem cavaleiro, todo vestido de negro e expressão sofredora. Pede para falar-vos mas não apresenta credenciais.
O semblante do rei animou-se.
— E donde diz que vem?
— Da nossa Beira. Mas, se me permitirdes duvidar, Real Senhor, direi que o cavaleiro mente.
— É novo, dissestes?
— Sim, meu Senhor.
— Vestido de negro? E que armas possui?
— Nada de conhecido. Mas traz patente uma miniatura do vosso escudo.
— Estranho! Onde costumais encontrá-lo?
— Agora está na sala aqui ao lado. Achei por bem perguntar-vos se desejáveis recebê-lo.
— Claro que sim!
— Devo dizer-vos ainda, Senhor, que o meu gesto foi censurado e decerto vão divulgá-lo à rainha vossa augusta avó...
Sorriu D. Sebastião.
— Serei por vós, D. Pedro! Não vos amofineis e mandai que entre esse estranho cavaleiro.
— Sem demora o farei, Senhor! Devo retirar-me?
Hesitou o rei, mas decidiu-se.
— Creio ser melhor.
E como D. Pedro mostrasse certo receio, o rei acalmou-o:
— Nada deveis temer. Além de rei, sou homem e gosto de afrontar o perigo. Esperai na sala ao lado e fazei que entre o tal cavaleiro negro.
 
Num passo pouco firme, o jovem cavaleiro entrou na sala. Por momentos olhou o rei, com olhos vivos, brilhantes, plenos de admiração e respeito. Depois dobrou o joelho e saudou timidamente o rei português. D. Sebastião tentou ver melhor o rosto do seu visitante.
— Quem sois e dondes vindes?
Ele falou:
— Venho de terras beirãs, onde vivo há cinco anos.
— Como vos chamais?
— Já vos direi o meu nome, Senhor, mas antes deixai que vos informe a que vim.
— Falai! Mas, já agora, dizei-me antes: que idade tendes?
— Dezoito anos.
— Possuís o corpo franzino, o rosto belo demais para um homem, a voz fina e imprópria de um cavaleiro... Todavia, pareceis-me agradável. Que me quereis?
Fitando os seus olhos escuros de olhar ardente no rosto atraente do rei, o cavaleiro declarou:
— Senhor! Perdi meus pais muito jovem e fui educado por uma serva que me levou para Fez. De lá saímos há cinco anos e refugiámo-nos nas serras da Beira. Tenho seguido dia a dia as vossas deslocações e ordens. Conheço vossos desejos e sei do cansaço que oprime o vosso coração.
Interrompeu-o o rei.
— Como o sabeis?
— A mulher que me criou aprendeu algo em Fez que fala do passado, presente e futuro...
De novo D. Sebastião o interrompeu.
— Não vindes decerto aqui para me esclarecerdes sobre bruxarias...
— Oh, não, meu Senhor!
— Então?
— Meu rei muito amado! A vossa vida corre perigo e em perigo ficará o vosso reino, se continuardes com o desejo de guerras!
Sorriu o rei.
— Compreendo! Foi alguém de Fez que vos enviou?
— Não, meu Senhor, fui eu! Eu que necessito salvar o meu rei!
— Tanto vos preocupa a minha vida? Ou é o destino da vossa pátria?
— Senhor! Mais a vossa vida que a minha pátria é a razão de toda a minha ansiedade!
Sorriu o rei.
— Explicai-vos melhor, que vos não entendo.
— Pois ides entender-me. Este trajo de cavaleiro não me pertence. Nasci mulher, e desde que vos vi dei-vos o meu coração e a minha vontade!
Atónito, o rei mal cria no que acabava de ouvir.
— Sois realmente... uma mulher?
— Sim, meu Senhor.
— Assim vestida?
— Perdoai-me a ousadia, mas de outro modo não conseguiria despertar a vossa atenção. Sei que odiais a maior parte das mulheres...
— E que me quereis?
As lágrimas chegaram aos olhos da jovem desconhecida.
— Senhor! Se continuardes com a ideia de guerras fora do Reino, desaparecereis como fumo, e anos seguidos vos chorará o vosso povo!
O rei levantou-se. Moviam-se os músculos do seu rosto e cerrava os dentes, tentando conter a cólera.
— Voltai para junto de quem vos mandou e dizei-lhe que o laço armado é pobre e sem interesse para que um rei possa cair nele! A África espera por mim, e nela encontrarei a glória, lutando por um grato ideal!
As lágrimas inundaram os olhos da jovem. Aproximou-se, sem guardar as distâncias convenientes. 
— Amo-vos, embora não tenha despertado a vossa atenção! Porque vos quero, darei a vida para evitar que a vossa se perca!
Irritou-se mais o rei.
— Que comédia é esta? Quem vos disse que a perderia?
— Digo-vos eu, Senhor! Eu que sei ao que vos ides expor, se teimardes em partir!
Tremendo de indignação, o rei ordenou severamente:
— Retirai-vos, se não quereis sofrer um dissabor! Na minha vontade mando eu e não os partidários dos infiéis!
A jovem mordeu os lábios e arriscou, com altivez até então não usada:
— Senhor! Tendes demasiada confiança em vós! Já não peço que olheis para os encantos que os outros homens em mim encontram. Mas para vós e para aqueles que dizeis amar e que ireis perder convosco!
Gritou o rei, encolerizado:
— Retirai-vos, já vos disse! E não quero tornar a ver-vos!
Olhou-o profundamente, a jovem. Depois, numa voz estranha onde amor e ódio se misturavam, sentenciou:
— Haveis de ver-me mais vezes! E assim, tal como estou vestida. Mas então, sabei que a minha presença não vos trará mensagens de amor, mas presságios de morte!
— Ameaçais-me? Que pena serdes uma simples mulher!
— Porquê?
— Porque dar-vos-ia a honra de morrerdes no fio da minha espada!
— Rei insensato, a quem só faz vibrar o ódio aos infiéis e a proximidade do perigo! Breve cairão sobre a cidade três presságios da morte da sua independência! E agora, que disse quanto tinha para dizer-vos, vou retirar-me!
E sem esboçar qualquer cumprimento, a jovem vestida como um cavaleiro voltou as costas ao rei e saiu apressada, num passo que mais parecia do outro mundo do que deste!

Ainda D. Sebastião não estava refeito do desespero causado pela visita de tão estranha mulher, quando D. Pedro voltou a pedir permissão para entrar. El-rei gritou-lhe:
— Sabeis quem é este cavaleiro?
— Não, meu Senhor.
— Uma vulgar mulher que os de Fez nos mandaram, para me dissuadirem de ir combater em África!
Os olhos do fidalgo abriram-se num espanto.
— Uma mulher? De facto... aquele rosto... aquela voz... aquele corpo…
Um grito do rei cortou-lhe o pensamento.
— Basta! Não quero mais ouvir falar dela! E agora chamai D. Cristovão de Távora. Preciso de ficar só com ele. Quanto a vós, bem sabeis o que tendes a fazer.
Conhecendo bem a maneira de ser do seu soberano, apressou-se D. Pedro a chamar o valido D. Cristovão, o único, nesse momento, capaz de apaziguar a cólera do rei.
Entretanto, fora do palácio, sumia-se numa esquina da rua o vulto airoso de um elegante cavaleiro todo vestido de negro…
 
O último dia desse ano de 1575 estava a chegar ao fim. Na sala de diversões, D. Pedro de Alcáçova, D. Cristóvão de Távora e D. Nuno de Mascarenhas conversavam animadamente sobre esse ano que ia findar sem deixar saudades, pois a 18 de Fevereiro ateara-se um pavoroso incêndio na Rua do Príncipe, devastando toda a parte fronteira ao mar e fazendo numerosas vítimas. E ainda não estavam refeitos da desolação em que o sinistro deixara o povo de Lisboa, quando a 3 de Outubro começou a chover tão barbaramente, que a abundância das águas formou um lago que cobriu todo o centro da cidade. E as chuvas, caindo sem descanso, só haviam terminado nessa mesma tarde do último dia de Dezembro. Três meses consecutivos, Lisboa sofrera os rigores de um Inverno inclemente!
Estavam os fidalgos falando do assunto, quando alguém anunciou:
— É chegado o nosso Rei e Senhor D. Sebastião!
Todos se perfilaram. O rei entrou. E o valido, servindo-se da liberdade que lhe dava a preferência do rei, adiantou-se, sorrindo. D. Sebastião olhou os outros dois e indagou:
— Que discutíeis com tanto calor?
Foi D. Cristóvão quem respondeu:
— Os rigores de um impiedoso Inverno, Senhor. O povo já fala de presságios...
Sorriu de um modo estranho, o rei, e disse:
— Ainda teremos de sofrer um novo pesadelo...
Olharam o rei os três fidalgos, como a tentarem descobrir a verdadeira intenção dessas palavras. Mas D. Cristóvão, sempre mais atrevido, ousou perguntar:
— A que pesadelo vos referis, Senhor?
Deu de ombros o rei e fechou o assunto com voz solene:
— Um novo ano entra. Tudo mudará. Precisamos falar de assuntos mais sérios do que esses com que o povo se entretém. A jornada de África será o pensamento principal daqueles que me estimam!
E sem mais acrescentar, el-rei saiu em direcção ao seu gabinete, seguido por D. Cristóvão de Távora e D. Pedro de Alcáçova.
Saiu o Inverno e entrou a Primavera. Secaram os campos que haviam estado inundados, e da lama surgiram os destroços que a inundação escondera. Então, outra calamidade caiu sobre Lisboa: a peste! Não havia já alojamentos para tantos enfermos! No cais, edificou-se à pressa um hospital de madeira, para alojar os doentes. A terceira praga caía sobre a cidade! Mas D. Sebastião continuou sorrindo e tendo em mente um único desejo: passar à África e combater os infiéis!
 
Ano de 1578. Sol ardente, queimando como ferro em brasa. Ar irrespirável, pesado, atabafante. Ausência de vento. Muito pó, subindo e descendo como repuxo de água. Mas a água ali era pouca: Agosto em Alcácer Quibir!
O dia 4 amanheceu gritando a sua claridade. E logo el-rei D. Sebastião acordou, pedindo para almoçar. Serviram-no na sua tenda. Vestiu-se e conversou. De súbito, a tenda foi abalada violentamente, como se um gigante a quisesse amachucar nas suas mãos. Correram, el-rei e os três fidalgos que lhe faziam companhia, para ver de que se tratava. E depararam com um estranho espectáculo! À beira deles estava um cavaleiro todo vestido de negro. Montava um cavalo branco. Desbocado, o animal embaraçara-se nas cordas que sustentavam a tenda, e de tal modo, que caíra para logo se levantar, tornando depois a cair, até conseguir finalmente libertar-se. Quanto ao cavaleiro de negro, dir-se-ia enroscado na sela! Mal o seu cavalo se libertou, desapareceu na direcção de Alcácer, sob as nuvens de pó que as patas da sua montada levantavam do chão...
D. Luís de Távora, irmão do valido D. Cristóvão, olhou perplexo o rei e perguntou:
— Senhor! Este cavaleiro será dos nossos ou do inimigo? Nem veste como nós, nem como eles!
Sorriu o rei e olhou D. Cristóvão. Este mostrou-se subitamente abatido. D. Sebastião irritou-se.
— Então? Que pensamentos estarão passando pelo vosso cérebro?
Suspirou D. Cristóvão:
— Senhor! Estou a recordar uma conversa que Vossa Majestade teve a bondade de ter comigo em Lisboa, numa certa manhã.
— Que conversa?
— A que tivemos sobre a estranha visita de um certo cavaleiro vestido de negro.
— E depois?
— Depois... ele vos disse que voltaria a aparecer-vos para vos trazer um presságio...
— Calai-vos!
A voz irada do rei fez suspender a frase ao seu valido. Inclinou-se este, mais por submissão do que por vontade, e ficou-se a olhar a vastidão imensa dos campos ressequidos pelo sol da véspera. E D. Cristóvão sabia que nesse nervosismo com que o rei o mandara calar ficara suspenso um tanto da ansiedade que ele lutava por recalcar.
A voz imperiosa do rei voltou a ouvir-se:
— Vamos! É tempo de agir! Quanto mais cedo começar a luta, mais breve virá a vitória!
Saíram da tenda, aonde haviam voltado. Lá fora, porém, estavam perfilados alguns fidalgos portugueses. Vinham pedir ao rei que modificasse o plano de batalha e a adiasse, para que o exército fosse reabastecido. Mas o rei indignou-se. A cólera voltou a pôr-lhe cores no rosto, normalmente pálido.
— Que vos aconteceu, senhores? Porventura não sois os mesmos que me facilitáveis esta empresa, a mesma que estais agora a dificultar?
Não responderam os fidalgos. El-rei voltou a altear a voz.
— Então? Não tendes que dizer-me?
Um dos mais velhos adiantou-se.
— Senhor, não somos cobardes, bem o sabeis! Mas quando pensámos na luta, jamais havíamos presumido que as coisas tomassem rumo tão incerto!
— E que desejais? Retirar?
— Não, meu Senhor! Mas esperar que o Sol não vos apanhe em seu pleno vigor e descoberto!
— Esperar! Esperar! Há quantos anos espero este momento! Senhores, sou rei e nada temo! Que me sigam aqueles que acharem por bem seguir-me!
 
E o exército português recebeu ordem de formar para a batalha.
Seguiram o rei os cavaleiros portugueses. D. Cristóvão não mais largou de vista aquele de cuja mão tantas dádivas recebera e a cujo coração tantas provas de amizade ficara a dever. A batalha feriu-se com fúria. Aos poucos, a nossa melhor cavalaria lá ia ficando no anonimato dos cadáveres do caminho. O sangue tingia as espadas e as adagas. Infantaria e cavalaria começaram a confundir-se na desordem de uma vitória incerta. Mas D. Sebastião dir-se-ia o génio da luta, sempre altivo e animoso.
No meio da refrega, encontrou el-rei a D. Jorge de Albuquerque, ferido com quatro cutiladas no peito. Vendo D. Sebastião, teve forças para gritar-lhe:
— Senhor! O vosso cavalo está incapaz de ser montado e eu estou incapaz de montar! Tomai o meu e salvai-vos!
O rei não queria aceitar. Mas outros fidalgos instaram para que soberano português mudasse de montada. E por fim D. Sebastião acedeu, dizendo a D. Jorge:
— Quanto me pesa ver-vos dessa maneira!
Ele respondeu:
— Morro contente, Senhor, em serviço de Deus e vosso!
A luta continuou, num mar de tempestade e de infortúnio para nobreza de Portugal. Vendo el-rei perseguido por todos os lados, D. Cristóvão, com lágrimas na voz, pediu:
— Senhor! Rendei-vos! Nada mais há a fazer!
De expressão dura, D. Sebastião tomou:
— Há, sim! Há ainda o morrer... mas devagar!
Entretanto novas arremetidas surgiram, que o ímpeto de D. Sebastião soube sustentar. Mas, de súbito, o rei parou. D. Cristóvão olhou o ponto que D. Sebastião fitava, alheio quase à luta nesse pequeno segundo. E viu então um cavaleiro vestido de negro, que breve se embrenhou entre os infiéis. O rei, alucinado, seguiu o cavaleiro. E nessa corrida arrebatada perdeu-se para sempre dos olhares dos seus amigos e companheiros de luta!
Também Portugal não mais viu o seu rei, poeticamente esperando seu regresso.
Mas o rei não voltou.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume II, pp. 325-332

Place of collection-, LISBOA, LISBOA

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