Lenda do Falso Juramento

APL 2842

O Algarve é um alfobre de lendas de mouras e mouros encantados. E dá gosto ouvir os algarvios contarem essas lendas, com muito carinho e muita discrição — não vão as mouras ficar aborrecidas nos seus palácios subterrâneos com tanta tagarelice a seu respeito...

A lenda que vou contar situa-se nos arredores de Faro. Nesse tempo, a cidade não tinha a importância que hoje tem, sobrepujando-a Silves e Tavira. Todavia, no sítio de Farão — como era então conhecida — havia uma fortaleza mourisca. A nascente erguia-se um outeiro, e em baixo corria um rio hoje chamado rio Seco, pela circunstância da maré já não penetrar nele, como antigamente. É nas margens desse rio que decorre a nossa história...

Corria Joana da sua casinha sobranceira ao rio. Corria pressurosa. O tempo urgia para ela. Teria de lavar nessa manhã as peças de roupa que a mãe lhe entregara e estar de volta a casa antes de o Sol estar a pino. A roupa não lhe pertencia. Era de um jovem casal que morava na vila e que pagava bem pelo amanho dessa roupa fina.
A manhã estava clara, serena. Não fazia calor nem frio. Mas a terra, muito seca, resvalava debaixo dos pés. Joana chegou ao rio. A água corria muito limpa, embora não muito abundante. Mas era o suficiente. Água que ajudava as lavadeiras. Água que apetecia até banhar-se nela.
Joana começou a lavar. Estava só. Apenas os passaritos cantavam alegres. Joana pensou: «Como estão contentes! E não precisam de trabalhar!». Sorriu, mas a água transparente não lhe transmitiu esse sorriso. Deu-lhe outra imagem, de um homem novo, bem vestido. Esse, sim, é que lhe sorria. Joana assustou-se. Endireitou o busto. Pôs-se de pé. Mas o homem, afinal, estava a seu lado. E falou-lhe:
— Bom dia, Joana! Tão cedo e já a trabalhar? 
Ela admirou-se:
— Que me quer?
— Falar-te.
— O senhor não é destes sítios, pois não?
— Sou, sim. Vejo-te muitas vezes. E oiço-te cantar. Tens uma linda voz.
— Nunca o vi...
— Mas tens chamado por mim!
— Eu?
Joana abriu os olhos num espanto. O desconhecido continuava a sorrir.
— Tu,sim!
— Não posso acreditar... Não sei quem o senhor é...
— Não importa. Conversemos um pouco.
— Tenho de acabar de lavar esta roupa.
— Se quiseres, não precisarás mais de lavar. Pagarás a outrem para tratar do que é teu, como a jovem que te encomendou essa tarefa.
— Sou pobre, senhor!
— Eu sei, Joana. Mas ficarás rica, se quiseres.
— Se eu quiser?...
— Sim. Basta que me ames.
— A vós, senhor?
— E que tem isso?
— Sois rico… nobre, talvez… e eu não devo olhar para tão alto!
— És bela e jovem. Isso vale uma fortuna!
Joana pegou na roupa para continuar a lavar. Suavemente, o jovem desconhecido tirou-lha das mãos.
— Deixa estar isso aí.
Ela tentou reagir.
— Senhor, devo levar isto pronto à minha mãe. E só tenho metade da roupa lavada...
— Lavas o resto amanhã.
— Amanhã não virei ao rio.
— Virás, sim. Preciso que venhas.
— Para quê?
— Para casares comigo.
— Já?
— Pelo menos... para tratarmos do casamento.
— E... o senhor tem a certeza... que me quer para casar?
— Tenho.
— Gosta de mim?
— Gosto.
— Tem a certeza?
Ele riu.
— Joana! Já te disse que te vejo sempre que vens aqui ao rio. E se não te falei antes... foi porque não podia. O que é preciso, porém, é que me aceites para marido.
— Vou pensar.
— Mas olha que não deves contar hoje nada disto à tua mãe! Ela quererá acompanhar-te amanhã e eu preciso de falar contigo sem mais testemunhas, compreendes? Quero que sejas só tu a decidir.
Joana estava atónita, confusa. Nunca imaginara que tal pudesse acontecer-lhe. Ele pegou-lhe numa das mãos. A sua voz era cariciosa.
— Joana, promete que não virás com a tua mãe! Por enquanto, o segredo será só nosso!
Ela decidiu-se:
— Prometo!
— Então vai. Amanhã estarás aqui à mesma hora.
— Farei o possível.
E Joana voltou para casa mais depressa ainda do que tinha vindo, apesar de o caminho ser agora a subir...

Joana entrou em casa. Vendo apenas metade da roupa lavada, a mãe admoestou-a.
— Que andaste a fazer?
Ela mentiu.
— Senti-me mal... Tive tonturas… e receei estar sozinha… à beira do rio... Mas volto lá amanhã.
Zangou-se a mãe.
— Amanhã? Julgas que vou deixar-te andar todos os dias na giraldina? 
Joana amuou. Julgando-a realmente doente, a mãe mudou de atitude.
— Mas que tens? Apanhaste muito sol? Ou comeste fruta verde?
— Não sei. Creio que isto vai passar... Já me sinto melhor.
A mulher olhou a filha. Estava, na verdade, um pouco excitada.
— Olha, o melhor, então, é deitares-te.
— Isto vai passar. Vou ajudá-la na ceia.
Mas Joana já não era a mesma. À hora da sesta a mãe voltou a interrogá-la...
— Como te sentes?
Sem entusiasmo, ela respondeu apenas:
— Bem.
— Ná, não acredito. Quando estás bem, cantas!
— Já não são horas para cantorias.
— Mas já tens cantado. E não falhas nunca a tua canção predilecta. Principalmente quando vais ao rio.
Joana voltou-se para a mãe, num repente. Os seus olhos brilhavam intensamente. Voltara-lhe o ar inquieto.
— Mãe… eu canto muitas vezes a canção do rio?
— Cantas, sim.
Joana trauteou então, olhando fixamente um ponto no espaço:

Cuidando do meu cuidado
Fui ao rio para lavar;
Mas logo um mouro encantado
Apareceu a meu lado
Para comigo casar.
Mas porque é mouro encantado
Cristã não pode levar!...

Calou-se a jovem. Olhos muito abertos, como quem contempla uma visão. Inquietou-se mais a mãe de Joana.
— Filha, que tens tu?
Como se a não ouvisse, Joana falou para si mesma:
— É isso... ouviu-me cantar… e talvez tenha sido a canção do rio!.. Diz que chamei por ele...
A mãe alarmou-se.
— Que estás tu para aí a dizer, rapariga?
Joana pareceu voltar a si. Desculpou-se, confusa:
— Nada.
O rosto da mãe tomou uma expressão mais dura.
— Nada, não! Eu bem te ouvi... Encontraste alguém no caminho?
Joana calou-se.
— Vamos, responde! Para as mães nunca deve haver segredos!
Joana hesitou.
— Bem… encontrei um senhor no rio...
— E que te disse ele?...
— Não posso dizer-lhe hoje.
— Porquê?
— Ele pediu-me que não lhe contasse nada por enquanto.
Um calor assaltou o rosto da mãe de Joana. Começava a compreender o mistério. Indignou-se.
— Olha, rapariga! Quando os homens não andam de boas intenções a primeira coisa que fazem é pedir às cachopas que pretendem desgraçar que não contem nada às mães. E sabes porquê? Porque elas, abaixo de Deus, são quem as guarda melhor! Ora conta-me o que se passou e deixa-te de mistérios!
Joana ficou por momentos silenciosa. Não queria faltar à promessa feita ao senhor que encontrara no rio, mas compreendia que a mãe tinha razão. Travou-se luta dentro do seu espírito. Perguntava, intimamente, que devia fazer. Mas a mãe insistia:
— Conta-me tudo, Joana! As mães só querem a felicidade dos filhos!
E Joana resolveu-se. Contou tudo quanto sabia. Fez-se, então, novo silêncio entre as duas. Mais aliviada, Joana voltou ao seu ar saltitante.
— Ele é tão bonito… tão amável… tem um ar tão distinto...
A mãe de Joana suspirou.
— Acalma-te, rapariga! Um homem assim vai procurar outra, que não tu! És pobre... Os teus pais são gente do povo...
— Mas ele diz que sou nova e bonita... Ele tem-me visto… e ouvido...
— Ouvido?
— Sim… quando canto no rio.
A mãe de Joana franziu as sobrancelhas. Pareceu ficar ansiosa.
— Diz-me: tens cantado a tua canção predilecta?
— Tenho.
A mãe meneou a cabeça. Mordeu os lábios. Voltou a suspirar.
— Acautela-te, cachopa! Esse homem pode ser um dos mouros encantados no palácio que há por debaixo do rio!
Joana quase não respirava.
— É isso! Ele deve ser mouro! Mas fala como nós! Quero dizer... como os senhores fidalgos cristãos que vivem aqui perto...
O rosto da mãe de Joana tomou nova expressão. Parecia mais tranquila.
— Tive uma ideia! Amanhã vais ao rio sozinha. Mas levas esta cruz. Quando ele pedir para casares com ele, obriga-o a jurar sobre a cruz. Se jurar, acredita nele. Se não jurar... é porque é mouro encantado!
Joana sorriu. A ideia da mãe pareceu-lhe excelente. Abraçou-a.
— Vou fazer assim como diz! E Deus queira que ele jure!... É tão bonito… tão distinto!...

A manhã nasceu serena como a da véspera. Joana chegou ao rio mais cedo ainda, tal a sua impaciência. Começou a lavar. Mas o «senhor distinto» não aparecia. Quando a roupa já estava toda pronta, a rapariga sentou-se numa pedra. Esperaria um pouco mais. Nisto, ouviu o galope dum cavalo. E o jovem da véspera surgiu montado num fogoso corcel, que dificilmente conseguiu dominar. Apeou-se. Cumprimentou a jovem. Joana sorriu-lhe também. Ele perguntou:
— Já pensaste bem no que te disse ontem?
— Já.
— E que resolveste?
— Aceitar a vossa generosa oferta, se jurar que vem para bons fins.
— A que chamas tu bons fins?
— Ao casamento.
O homem hesitou. Ela notou essa hesitação. E atalhou:
— Não vale a pena molestar-se. Não julgue que sou soberba. Mas, lá por ser pobre... não devo entregar-me a qualquer que me aparece...
— Qualquer? Não sou um qualquer, acredita...
— Por isso mesmo… não casará comigo.
— Gosto de ti, Joana!
— Então jure sobre esta cruz!
E Joana apresentou-lhe o crucifixo:
O homem retuou um passo. Ela avançou.
— Jure!
Então, sorrindo, o homem jurou:
— Juro por essa cruz casar contigo!
Nesse mesmo instante um enorme trovão atroou os ares. O cavalo empinou-se e rompeu a correr, sozinho, ao longo do rio. E o homem desapareceu também, entre as ramadas floridas da margem. Ninguém mais o viu. Ninguém mais ouviu falar dele. Mas todos os meses, nesse dia e a essa mesma hora — diz a crença popular — quem estiver junto ao rio Seco pode ainda ouvir um cavalo correndo desordenadamente ao longe da margem...
Em casa, Joana contou, desolada, o que se havia passado e concluiu:
— Que pena! Era tão bonito... tão distinto!...
E a mãe acrescentou:
— Mas era um mouro! E fez um juramento falso. Queria perder-te mas perdeu-se... Teve o castigo que merecia.
No entanto, Joana, quando estava sozinha cantava para se ouvir a sua canção predilecta:

Cuidando do meu cuidado
Fui ao rio para lavar;
Mas logo um mouro encantado
Apareceu ao meu lado
Para comigo casar.
Mas porque é mouro encantado
Cristã não pode levar!...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 281-286

Place of collection Faro (Sé), FARO, FARO

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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