Lenda do Grande Amor de Atacés

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Esta lenda nasceu numa povoação muito antiga chamada Manhouce. Foi esta região habitada pelos Romanos. Porém, quando da invasão dos bárbaros, as províncias foram jogadas à sorte e a Lusitânia coube aos Alanos. O seu rei chamava-se Resplendiano; mas foi morto e logo foi jurado seu sucessor o jovem Atacés
Os Suevos tinham como rei Hermerico, o qual governava a Galiza. Hermerico tinha uma filha muito bela chamada Cindazunda. Para que estejam apresentadas as principais personagens desta lenda, só falta indicar a aia de Cindazunda e o lugar-tenente do rei dos Vândalos. E agora vamos à lenda.
 
Quando Atacés, rei dos Alanos, subiu ao trono, grandes festas se fizeram, apesar da guerra em que estavam empenhados. Vieram princesas e príncipes, gente de várias cortes. Entre os convidados estavam a princesa Cindazunda, ainda muito jovem, e a sua aia Ormezinda. Em dado momento, Ormezinda segredou à sua ama:
— Repara, Senhora, como o rei Atacés te olha!
Cindazunda corou.
— Assim é. Já o tinha notado.
— Vamo-nos para outro local onde ele não te possa olhar tanto.
— E porquê, Ormezinda? Não é ele um rei e eu filha de outro rei?
— Mas bem sabes o que se diz no nosso reino. Atacés é muito poderoso e ambiciona unir o reino dele ao teu.
— Pois que os reúna!
— Que dizes? Queres mais sangue a correr?
— Porque haveria sangue?
— Porque ele mira-te, mas não casará contigo. Só ambiciona conquistas! Cedo o seu exército entrará pelas terras que teu pai conquistou. Atacés é um inimigo. Não te iludas!
Cindazunda sorriu. Parecia não ouvir a dama de companhia. Olhava em frente, numa expectativa. Ormezinda seguiu o seu olhar. E viu então que o jovem rei se dirigia na direcção da princesa. Chegando junto dela sorriu-lhe e perguntou:
— Como te chamas?
Sem qualquer retraimento, a jovem retorquiu:
— Meu pai disse-te o meu nome quando me apresentou. É assim tão fraca a tua memória?
Ele voltou a sorrir, agora mais abertamente.
— És pouco prudente mostrando-te tão orgulhosa com o rei dos Alanos, que o é mais ainda. Mas sempre te digo que não cheguei a ouvir o teu nome.
— Porquê?
— Porque no momento em que surgiste na minha frente, tudo o mais deixou de existir. E como não falaste… contemplei-te apenas.
A princesa olhou-o com gaiatice.
— Sou para ti a jovem mais bela desta festa?
— Sem dúvida!
— Pois tu és o homem mais atraente que tenho visto e voltarei a ver!
E sem dar tempo ao rei dos Alanos para impedir a sua retirada, correu para junto do pai. Perto dele estava Karim, o lugar-tenente do rei dos Vândalos. Dir-se-ia extático, tão embevecido era o seu olhar. Contemplava Cindazunda. Mas esta teve um arrepio de medo ao notar tão grande interesse da parte de Karim.

Alguns meses passaram. A luta continuava. Hermerico, o rei dos Suevos e pai de Cindazunda, tomou Lisboa e quase toda à costa até ao Algarve. Porém Atacés, que era nessa época o rei mais poderoso, rompeu guerra com Hermerico, receoso que este se engrandecesse demasiado e lhe fizesse sombra. E porque o seu entusiasmo e força eram superiores, conquistou aos Suevos muitas cidades.
Estavam as coisas neste ponto, quando Ormezinda e Cindazunda, nos seus aposentos favoritos, conversavam. Dizia a princesa:
— Os homens são uns insensatos. Desperdiçam o melhor dos seus anos a matarem-se e roubarem-se mutuamente!
A aia admirou-se.
— Que dizes, princesa?
— A verdade! Que têm feito meu pai e Atacés durante os seus anos de reinado?
— Oh, cala-te, por favor! Teu pai tem alargado o seu reino que era pequeno. É decidido e forte!
— Não te iludas para me iludires! Acaso um rei só é poderoso quando rouba aos seus vizinhos pela força?
— Oh, cala-te! Estás a dizer coisas incríveis!
— Digo a verdade! Basta que penses um pouco sobre tudo isto.
— Como querias, então, que um rei procedesse?
— Espalhando a paz e o amor pelos seus súbditos!
— Para haver paz, teríamos de voltar costas à guerra.
— Pois voltaríamos. Não me importava de ter como pai um rei menos poderoso, mas que desse mais felicidade ao seu povo.
— E os outros? Os outros respeitariam essa paz? Lembra-te de Atacés. Nem esse escapou. São todos os mesmos! Agora, só o rei dos Vândalos nos poderá ajudar.
— Porquê o rei dos Vândalos?
— Porque teu pai, segundo consta, vai pedir-lhe auxílio contra Atacés.
— E que pedirá o rei, em troca?
— Talvez a tua mão para o seu sobrinho Karim.
Cindazunda gritou:
— Nunca!
— E porquê?
— Não sabes que o detesto?
— Porque amas a quem não devias amar!
— Detesto-o porque o acho repelente!
Nesse mesmo instante a aia tapou-lhe a boca com a mão. Parecia seriamente assustada. A princesa perguntou:
— Que tens?
A resposta deu-a uma terceira pessoa que estava escondida atrás de uma coluna.
— Ormezinda assustou-se... porque sabia que eu estava aqui!
A princesa olhou indignada a sua aia.
— Como pudeste esconder dentro da nossa casa Karim, o homem que eu detesto?
A aia não respondeu. Mas Karim adiantou-se:
— Venho buscar-te.
— Com que direito?
— Com o que me dá a razão. Amo-te e podes ser minha. Por que hei-de deixar-te para o outro?
— Porque não te quero. Matar-me-ei se me tocares!
— Atacés é inimigo de teu pai. Acabará por destruir o teu império se o meu tio não te ajudar. E só te ajudará se eu quiser.
Nesse momento ouviu-se grande alarido. Gritavam nas ruas:
— Vem aí Hermerico!... Vai acabar a guerra!...
A jovem correu para fora do aposento e misturou-se com a multidão. Karim, que lhe fora no encalço, conseguiu alcançá-la. Tomou-a nos braços, no intuito de a raptar. Ela gritou. Rodearam-na. Voltaram para o palácio. Karim procurou desculpar-se perante o rei dos Suevos:
— Quis apenas proteger a tua filha que perdeu a cabeça e se misturou com o povo.
O rei indagou, sereno:
— Por que estás entre os meus?
— Porque vim trazer-te auxílio do rei dos Vândalos contra o rei dos Alanos.
— E que pede o teu rei em troca?
— A Turdetânia para ele e a tua filha para mim.
Sorriu Hermerico.
— Chegaste tarde. Diz ao teu rei que estou negociando a paz com Atacés.
— Tu... a negociares a paz... depois do que ele te fez?
— Sim, eu! Essa é a vontade de minha filha e vou tentar realizá-la.
— E Atacés aceita?
— Sim!
— E quais as condições?
— Apenas...
O rei calou-se. Olhou a princesa. Depois tocou-lhe com uma das mãos no rosto:
— Filha, podes escolher entre Karim e Atacés. Ambos pedem a tua mão como medida de paz.
Sem hesitar, Cindazunda perguntou:
— Quem fez a proposta? Foste tu ou o rei dos Alanos?
— Foi ele. Mas podes rejeitar, se o entenderes.
Ela sorriu.
— Pois diz ao rei dos Alanos que não é preciso esconder-se sob disfarce para ouvir da minha boca o que penso dele. Se é tão valoroso como penso, que se descubra e escute.
Com grande pasmo da assistência, um guerreiro que estava perto do rei Hermerico tirou uma cabeleira esbranquiçada e apresentou-se ante a princesa.
— Aqui estou, Cindazunda, para ouvir a tua sentença.
— Não a adivinhas?
— Quero-a confirmada pela tua boca.
— Pois serei a mulher mais feliz do meu e do teu reino se for tua esposa!
Nesse mesmo momento o rei Hermerico deu um grito.
— Prendam Karim! 
Houve alarido. Karim preparava-se para matar Atacés à traição. Mas os homens do rei dos Alanos manietaram Karim e levaram-no. Então o rei mandou que a corte se retirasse. Ficaram apenas dois homens de confiança de Hermerico, dois de Atacés, os dois reis e a jovem princesa.
Frente a frente, os enamorados fitaram-se. Não se podendo conter, Atacés abraçou a jovem.
— Querida! Como pude viver sem ti todos estes meses! Imaginei esta guerra para te possuir, caso quisesses fugir-me! Perdoa-me não ter confiado em ti, não ter adivinhado que me querias também, tal como adivinhaste que viria buscar-te!
Ela agarrou-lhe um dos braços tão habituados à luta.
— Duvidaste… porquê?
— Não sei... Pela primeira vez tive medo!
— Se tivesses escutado com atenção as palpitações do teu peito, terias ouvido a minha voz a chamar-te. Sempre te chamei! Bradava o teu nome na solidão do meu pensamento. Bradava com ânsia, no desejo de me atenderes!
— E aqui estou para todo o sempre! Hei-de amar-te como nenhum rei amou a sua esposa!
— E o nosso reino viverá dias de paz e amor!
Calaram-se os dois. Lá fora, a tarde escondia-se languidamente, embalada ainda pelas apaixonadas promessas de dois jovens belos, de ânimo forte, poderosos e constantes.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 213-217

Place of collection Manhouce, SÃO PEDRO DO SUL, VISEU

Narrativa

When V Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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