Lenda do Guerreiro e da Virgem

APL 2786

Há velhas histórias que mergulham na penumbra dos séculos e que só por vezes conseguem aflorar à superfície da memória. Mercê de muita pesquisa. Mercê de muita devoção aos caminhos do passado. Mercê de muita sorte em encontrar vestígios quase inacreditáveis...
Foi o que sucedeu, por exemplo, com esta lenda velhinha e gloriosa, que ficou enraizada para sempre na própria origem remota da pitoresca aldeia de Paio Pires, ali, a três quilometros do Seixal, mesmo junto da estrada que vai de Cacilhas a Setúbal.
 
Pretendem os entendidos que o nome da terra tenha outras proveniências mais rigorosas. Mas na opinião do povo, do bom povo de Portugal, o nome de Paio Pires deriva de facto de uma aventura romântica e heróica do famoso D. Paio Peres Correia.
E de qualquer modo, tenha sido ou não essa origem, sabe-se hoje de certeza que tal território, nos princípios da Nacionalidade, pertencia à zona defendida pelo castelo de Almada. Foi assim que caiu em poder das forças portuguesas, quando D. Afonso Henriques conquistara aos Mouros Lisboa e todo esse território, num alarde de coragem e de valentia a que ninguém se conseguira opor…
 
Aproximadamente um século depois, ou seja, em princípios do século XIII, embora D Sancho I tivesse dado foral a Almada e dela fizesse doação aos cavaleiros de Sant’Iago, ainda vagueavam por ali mouros foragidos. Foragidos e desejosos de vingança, de desforra, guardando em si o sonho ambicioso de tentarem um dia a aventura da reconquista.
Entre eles, destacava-se o jovem Abu, de alma incendiada pelo ódio.
— Hei-de matar todos esses cães cristãos, como eles mataram meu pai e meu avô!... Tudo isto há-de ser meu, novamente!
Olhava os companheiros. E estendendo os braços, numa ânsia de posse, terminava sempre as suas palavras dizendo com ênfase:
— Sim, tudo isto há-de ser nosso! Aqui o juro, por Alá!
Porém, na verdade, poucos o escutavam. Sentiam-se irremediavelmente vencidos, desde que Almada — a velha Al-Maden, a mina — tornara também terra de cristãos. E aqueles que não fugiam para longe preferiam entregar-se ao novo senhor, o rei de Portugal, e servi-lo respeitosamente. Fielmente.
Mas Abu não lhes podia perdoar, de modo algum.
— Traidores nojentos! Que caia sobre eles a maldição de Alá! Malditos fiquem para sempre!
Num impulso de coragem, a sua voz crescia ainda de ódio e de ameaça.
— Por mim, nunca me entregarei! Ouviram bem? Nunca!
Os seus olhos fixavam os companheiros. Um por um. Ardendo na febre do rancor.
— Eu lutarei até à última gota do meu sangue!... E os que quiserem, sigam-me, porque eu sei onde poderemos tomar boas presas.
Momentos de pasmo. E Abu rindo selvaticamente. Cruelmente.
— A nossa vingança será terrível, companheiros!
 
Corria então o ano de 1238. Abu e o seu bando passaram a espalhar o terror pelos arredores de Almada, sentindo-se cada vez mais fortes, desde que os Sarracenos tinham entrado de novo na posse de vários castelos, como, por exemplo, o de Mértola, considerado por eles uma autêntica chave para a reconquista de Lisboa.
E de tal ousadia se encheram, que Abu resolveu assaltar uma grande quinta que ficava bem perto de Almada. Para isso conseguiu arranjar um grupo já mais volumoso, prometendo que os deixaria saquear e pilhar à vontade.
— Escutem! Iremos pela calada da noite… Eu sei que o dono da quinta é um velho capitão e vive apenas com sua filha e alguns criados. Portanto, nada temos a temer. O ataque será de surpresa!
Os seus olhos fuzilavam maldade, ao gritar:
— Que não fique um só vivo! Nem um só!
Divulgando entre todos o plano de ataque, esperavam a noite, preparando-se para o grande assalto.
À hora marcada, encobertos pelo escuro duma noite sem lua, os mouros caíram de súbito sobre a quinta como aves de rapina, esfaimados e sedentos de sangue. E aos seus ouvidos soava o brado implacável de Abu:
— A eles companheiros! A eles! Que não fique um só vivo!
Enganava-se, porém, o jovem, e rancoroso, e violento Abu, ao pensar que os da quinta não lhe ofereceriam resistência. Embora o pessoal fugisse em debandada, miseravelmente atemorizado, o velho capitão e sua filha não se intimidaram.
À vista do perigo que os cercava, o pai passou uma das suas melhores armas à jovem e gritou-lhe com todas as forças do seu desespero:
— Alda! Defende aí essa entrada!... Eu tomarei conta deste lado!
Num assomo de valentia, a rapariga ainda conseguiu sorrir.
— Sim, meu pai! Podeis confiar em mim! Veremos se sou boa discípula de tão grande mestre...
Depois, já mais trémula, ajuntou, como que num murmúrio:
— Por aqui, eles não poderão passar, enquanto eu tiver um sopro de vida...
E durante algum tempo os assaltantes não levaram a melhor e acusaram mesmo algumas baixas. Mas o número acabou por vencer, e Abu e os seus homens conseguiram forçar a entrada da quinta. Porém, quando quiseram reunir os prisioneiros, quedaram-se espantados, boquiabertos. Abu mais que todos eles...
— Pois é possível, senhora? Fostes vós, sozinha, assim tão frágil, tão jovem, que tamanho dano nos causastes?
Altivamente, Alda ergueu a cabeça e voltou-se para o velho capitão, que parecia abatido pelo desgosto da derrota e da capitulação forçosa.
—Sim... Fui eu... e o senhor meu pai!
Abu fitou lentamente tudo o que o rodeava — e que bem denotava a violência da luta. Um suspiro de incompreensão subiu-lhe aos lábios:
— Apenas vós dois... contra todos nós?
Mas já o velho capitão, desejando pôr termo à humilhante situação, inquiria, solene e decidido:
— E agora que nos vencestes.. que quereis de nós? Dizei! Matar-nos, não é assim?
Silêncio. Silêncio e expectativa. Nos dois prisioneiros cristãos e nos homens mouros. Lentamente, Abu passou a mão pela testa, limpando o suor que o alagava.
— Senhor, nem sei que responder-vos... Sinto-me confuso, confesso... Não esperava este resultado... Sempre pensei vencer um grupo igual ao meu, um grupo que me desse a felicidade da vingança... Mas assim... assim… só vós dois...
Calou-se, buscando palavras. Sentindo-se intranquilo. E apenas lhe acudiu ao pensamento um desejo muito íntimo, uma prece muito sincera:
— Que Alá me ilumine!... Alá é poderoso e Maomé o seu profeta.
Talvez ninguém o tenha compreendido, nesse instante. Os companheiros voltaram-se para ele. Intrigados. Perplexos. Então onde estava esse ardoroso Abu que clamava vingança em altos brados? Seria o mesmo que agora se quedava parado, apático, abstracto?...
E o velho capitão tão pouco o compreendeu. Pensou até que ele estivesse abusando da sua autoridade, para prolongar o martírio e a humilhação dos vencidos. Por isso mesmo, avançou alguns passos, arrastando sua filha consigo.
— Que esperais, então?
E olhando-o bem de frente, num desafio extremo, gritou-lhe em pleno rosto:
— Vamos, saciai a vossa vingança, enquanto é tempo!... Depois, acreditai, depois será tarde!
Foi a vez de Abu parecer despertar. Uma ruga funda cavou-se-lhe entre os olhos.
— Porque dizeis isso, senhor?
O velho capitão, sentindo ganhar terreno (terreno e tempo), cruzou soberbamente os braços, numa nova atitude de desafio.
— Porque bem conheço o vosso ódio, Abu, há muito tempo já! Digo-vos mais: já sabia que acabaríeis por assaltar a minha quinta!
Um ligeiro sorriso se esboçou no rosto do jovem chefe mouro. Desta vez, sim, sorriso de desdém, de tola zombaria.
— Então, se sabíeis tal, porque não fugistes a tempo, juntamente com os vossos criados?
Mas o sorriso zombeteiro sumiu-se-lhe dos lábios, ante a resposta imediata e vigorosa do antigo capitão:
— Um fidalgo português nunca foge, senhor! Morre no seu posto quando tem de morrer!
De novo, o silêncio caiu sobre eles. Abu não voltou a olhar os companheiros. Dirigia-se apenas aos seus dois prisioneiros:
— Tendes razão! Agora compreendo a diferença que existe entre vós e alguns dos meus irmãos de raça, esses traidores que preferiram entregar-se a defender-se!
Deu então um passo atrás, como que a preparar a retirada, e proclamou em tom superior, que não admitia réplica:
— Vou libertar-vos. A vós e a vossa filha. Nunca vi, em minha vida, tão grande beleza aliada a tão grande valentia!
Alda foi a unica que se atreveu a falar.
— Abu... Senhor... Que dizeis?
Abu sorriu, olhando-a meigamente. E em voz doce, como se ali não estivesse ninguém além deles dois, acentuou vagarosamente.
— Digo que estais livres… Não sei porque procedo assim… É talvez uma força superior à minha própria vontade!
E inclinando-se para ela, completamente alheado dos restantes, perguntou ainda, num sopro de voz:
— Acaso, senhora, tereis bruxedo no vosso olhar?
Mas a pergunta ficou em suspenso porque nesse mesmo instante se ouviu grande tropel de cavalos na estrada. Os companheiros de Abu logo se entreolharam amedrontados e procuraram suas armas. O velho capitão correu a abraçar a jovem Alda e a sua voz saiu salpicada de lágrimas.
— Deus seja louvado, minha querida filha!... É certamente D. Paio Peres Correia e os seus cavaleiros de Sant’Iago!
A jovem deixou escapar do peito um suspiro de emoção.
— Graças, meu Deus! Alguém avisou D. Paio que nós estávamos em perigo!
Mas a nova situação deu completa reviravolta no ânimo de Abu. Num momento, ele mudou. E voltou a ser o chefe do bando sequioso de sangue e de vingança.
— Silêncio! Se quereis poupar ainda a vossa vida, ficai quietos e calados!
E, voltando-se para os companheiros, ordenou-lhes com fúria:
— Tratai de mostrar a esses cães cristãos que nada podem contra nós! Vamos dar-lhes uma lição para toda a vida!
 
Podemos acreditar que deve ter sido violento, brutal, esse novo encontro entre mouros e portugueses. Essa luta de vida ou de morte entre os companheiros de Abu e os cavaleiros espatários do famoso D. Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Sant’Iago. Esse choque de honra e bravura, em que todos os combatentes queriam impor a sua superioridade.
Porém D. Paio Peres Correia, segundo contam a História e a Lenda, sempre foi homem de prodígios. Num salto acrobático, meteu ombros à porta principal, estilhaçando-a por completo e surgindo no meio dos surpresos inimigos.
Mas a primeira exclamação do célebre guerreiro foi de rendida admiração diante da jovem Alda.
— Meu Deus, que vejo eu! Quem sois vós, senhora!... A própria Virgem da Anunciação?...
Olhou-a melhor, sorriu, e curvou-se numa vénia respeitosa.
— Sim, sois a Virgem, certamente!
Mas logo, num rompante de audácia, voltou-se para os mouros que o olhavam, varados de espanto.
— E vós, cobardes, que estais aí encurralados, vinde a mim!
Antes que pudessem reagir, já D. Paio Peres Correia se lançara sobre eles, de espada em riste.
— Fracos que sois!... Assim não vos aguentais muito tempo, isso não!
De facto, em breves instantes ele estava absolutamente senhor do terreno. Os mouros, ou se encontravam moribundos, ou tinham fugido — para ir cair nas mãos dos guerreiros portugueses, que, sentindo-se vitoriosos, erguiam nos ares o seu brado triunfal:
— Por Sant’Iago! Por Sant’Iago!
Em frente de D. Paio Peres Correia — e ainda vivo e destemido, embora exausto — só restava o jovem Abu.
O mestre da Ordem de Sant’Iago fez dessa vez uma ligeira pausa antes de atacar.
— Sois então o chefe deste bando de franganotes?
Abu mordeu os lábios até fazer sangue. E respondeu altivamente sem perder de vista qualquer movimento do adversário:
— Sim... Sou um frango como eles. Mas não tenho medo dos galos como tu!...
Palavras não eram ditas, já D. Paio Peres Correia lhe atirava o primeiro golpe impetuoso.
— Pois defende-te... se és capaz!
E Abu foi capaz de defender-se, na verdade, durante alguns breves momentos. Mas depressa a força e a destreza de D. Paio Peres Correia ditaram a vitória. Numa hábil reviravolta, fez saltar a lança das mãos de Abu, atirando-o a terra.
— Pronto, herege! Bem podes rezar pela tua alma!
Todavia, quando ergueu a espada para dar o golpe final, sentiu o braço preso e escutou, mesmo junto de si, uma voz bonita que implorava:
— Senhor! Senhor! Piedade! Peço-vos!...
Ele suspendeu o gesto. Depois fitou melhor a jovem. Mais demoradamente. Mais profundamente.
— Ah, sois vós… a quem eu chamei há pouco a Virgem da Anunciação?... Dizei-me: que desejais, afinal?
Os olhos da jovem Alda inundaram-se de lágrimas. A sua voz tremeu, embora procurasse ser segura.
— Senhor D. Paio Peres Correia... Este homem que aqui vedes, apesar de mouro, é nobre e de grande coração... Poupou a minha vida e a vida do senhor meu pai... Por isso, vos peço: em troca, salvai também a vida dele! Suplico-vos, Senhor!
D. Paio Peres Correia ficou pensativo. A sua volta o tumulto terminara — sinal evidente do triunfo total. Depois, passeou lentamente o seu olhar arguto sobre as figuras do velho capitão, da jovem Alda, e do mouro Abu, ainda caído a seus pés. E só então falou. Falou como se pensasse em voz alta.
— Poupar a vida a este infeliz?... E tem bom pulso, o moço... Não fora eu, talvez não tivesse vencido... Não me parece ingrato... Sabe que me deve a vida!... Além disso começo a perceber... estes olhares, estas súplicas, este temor..
A sua voz ganhou um tom mais vivo, ao dirigir-se ao adversário vencido.
— Está bem. Levanta-te. Poupar-te-ei a vida. Com uma condição: tens de te converter!... Aceitas?
Já de pé, o jovem Abu não respondeu logo. Os seus olhos procuram primeiramente os olhos de Alda, que parecia agora mais bela do nunca. E só então respondeu.
— Sim, aceito!
O sorriso de D. Paio Peres Correia rompeu em risada.
— Serei eu o vosso padrinho de casamento!
Alda ruborizou-se. Abu baixou a cabeça. D. Paio Peres Correia voltou a rir. Alegre. Satisfeito. Triunfante.
E tal como se tem contado de geração em geração, ao sabor dos tempos, dá-se como certo que a jovem Alda e o impetuoso Abu, por amor convertido ao cristianismo, se casaram ali mesmo, na grande quinta perto de Almada. E o padrinho foi, como prometera, o valente D. Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Sant’Iago, que não deixou de recordar, bem a propósito:
— Na primeira vez que vos vi, Alda, chamei-vos Virgem da Anunciação... Lembrais-vos?
Acentuou com vigor:
— Neste momento, fostes sem dúvida a imagem da própria Virgem que me inspirou e protegeu... Por isso, vos digo: aqui deve ser erguida uma capela em honra de Nossa Senhora!
— Se Deus me ajudar, assim o farei, senhor meu padrinho!
Emocionado, o velho capitão avançou também para ele.
— A vida vos devemos, D. Paio Peres Correia... A vida e a paz!
Foi a vez da jovem Alda sorrir.
— E o amor, igualmente!
O nobre fidalgo lutador enlaçou carinhosamente os dois recém-casados.
— Dizeis bem, amigos... Graças a Deus e a Sant’Iago... e ainda à Virgem da Anunciação... Retomámos Mértola e pudemos socorrer-vos... E por sorte ganhei mais um grande companheiro de armas!
Abu ergueu altivamente a cabeça.
— Eu vos agradeço, senhor D. Paio Peres Correia... Já conhecia a vossa fama. Não se enganaram os que me disseram que éreis o maior cavaleiro do Reino... Convosco, irei para onde for necessário!
O mestre de Sant’Iago apontou para os terrenos à sua volta.
— Escuta. O que é preciso, agora, é fazerem desta quinta o princípio duma terra bonita e pacífica... uma terra de que se possa vir a orgulhar, no futuro, a Ordem de Sant’Iago!
— Oh, senhor!... Para nós, esta terra será sempre a terra de D. Paio Peres, pois a vós tudo devemos!
E logo o seu jovem marido confirmou em voz decidida.
— Isso mesmo! A terra de Paio Peres... O homem que me salvou a vida!

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume II, pp. 207-214

Place of collection Aldeia De Paio Pires, SEIXAL, SETÚBAL

Narrativa

When1238

CrençaUnsure / Uncommitted

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