Lenda do Homem sem Medo

APL 2771

Mais do que simples amigos e companheiros, consideravam-se dois irmãos. Dois verdadeiros irmãos. Dois grandes irmãos!
Aliás, entre os fidalgos que rodeavam o Mestre de Avis, eram apontados como exemplo de fraternidade profunda e singular. Um chamava-se João de Sousa. O outro, Martim Lopes.
Conheciam-se desde garotos. Tinham brincado juntos e juntos tinham crescido. Ao mesmo tempo se tornaram cavaleiros e nesse dia eles próprios proclamaram a indestrutibilidade da sua afeição.
— Eu te digo, Martim Lopes, que nunca haverá no mundo amizade mais forte do que a nossa!
— Assim o julgo também, João de Sousa. E agora que já somos homens e cavaleiros, melhor ainda podemos compreender esta maravilhosa afeição que nos une.
— Tens razão. Conheço irmãos que não se ligam assim com tanta lealdade, com tanto interesse um pelo outro!
E João de Sousa, respirando fundo, como que a afastar qualquer negro pressentimento, rematou:
— Queira Deus que nada surja nas nossas vidas que nos obrigue a separar-nos!
Martim Lopes riu. Gargalhada sadia e espontânea.
— Ora, amigo, queira Deus... e queiramos nós também... A camaradagem que nos une é feita de muitos anos de convívio, de sonhos mútuos, de coisas que já nem sei se a ti te pertencem ou se me pertencem a mim...
Vagarosamente, João de Sousa retirou do bolso um pequeno livro, amarelecido e gasto pelo tempo. Pelo tempo e pelo uso.
Olhou o livro. Depois, olhou o companheiro. E só então exteriorizou o seu pensamento.
— Sabes que mais, Martim Lopes? Acho que devemos fazer um juramento sobre esta Bíblia velhinha!
E ele próprio, persignando-se e erguendo os olhos ao céu, exclamou em tom dramático:
— Amaldiçoado seja para sempre aquele de nós dois que ousar quebrar esta amizade!
E Martim Lopes limitou-se a repetir, como num eco.
— Amaldiçoado seja!
Mal podiam eles adivinhar, nesse momento, que pouco tempo corrido sobre tal conversa um acontecimento imprevisto viria modificar por completo as suas vidas!
Foi o caso que João de Sousa apareceu trémulo e agitado junto do amigo.
— Ai, Martim Lopes, meu companheiro, meu irmão!... Aconteceu uma coisa terrível: estou apaixonado!
O outro voltou-se para ele. Meio desconfiado. Meio irónico.
— Homem, acho que é melhor guardares esse segredo!
Mas João de Sousa não o quis ouvir.
— Não posso, percebes? Tenho de confessar a alguém o que me vai na alma... Tenho de desabafar com alguém... E esse alguém só podes ser tu!
Então foi a vez de Martim Lopes se mostrar ligeiramente enervado.
— Que mal escolheste, amigo!... Hoje, sou eu precisamente a pessoa menos indicada para escutar teu segredo de amor... E sabes porquê? Porque também estou apaixonado!
Duas gargalhadas soaram ao mesmo tempo. Gargalhadas amigas e irmãs.
João de Sousa deu o braço ao companheiro, como que a querer arrastá-lo para o seu caminho.
— Acredita, Martim Lopes! Seja como for, nunca poderás estar tão apaixonado como eu estou...
E baixando a voz, segredou.
— Pensa numa jovem de olhos azuis como o céu… e de cabelo loiro como o trigo…
O outro parou de repente.
— E um sorriso rubro como o nascer do Sol, não é verdade?
Os olhos de João de Sousa encheram-se de curiosidade.
— O quê? Tu conhece-la?
O outro sorriu, brejeiro:
— Não, amigo, não a conheço… Estou apenas a falar da mulher por quem me apaixonei... Loira, de olhos azuis, de sorriso feiticeiro, de mãos brancas… um porte de rainha… perfumando tudo por onde passa, com a sua beleza e a sua juventude!
— Tal e qual a mulher de quem eu gosto!
Entre duas gargalhadas, Martim Lopes acentuou:
— Até nisto somos irmãos!
Mas, depois, voltou-se num ar de indiscrição para o seu amigo.
— Já agora... posso saber como se chama a tua deusa?
João de Sousa, como quem revela o mais íntimo dos segredos, inclinou-se lentamente para ele.
Maria Lúcia é o seu nome...
De súbito, o outro endireitou-se. Um relâmpago estranho fuzilou no seu olhar. A boca tremeu-lhe, antes de conseguir falar. E as palavras que disse pareciam pedradas atiradas ao rosto de João de Sousa.
— Esse é o nome da mulher que eu amo!
E, numa reviravolta brusca, partiu dali correndo, sem mais olhar para o outro...
 
Assim caiu a verdade sobre os dois grandes amigos. Mais do que amigos: irmãos. E caiu brutalmente. Impiedosamente!
Resolvera o fatalismo do Destino, com seus caprichos, que ambos se tivessem apaixonado pela mesma mulher!
Durante algum tempo, fugiram um do outro. Mas, aos poucos, compreenderam que essa não seria nunca uma solução condigna. E o caso tinha de ser resolvido...
Voltaram pois a encontrar-se. Taciturnos. Abatidos. Indecisos.
Foi João de Sousa o primeiro a falar.
— Que dizes disto tudo?... Por mim, acho que o melhor é deixarmos que ela escolha à vontade... Concordas comigo?
O outro abanou a cabeça, num ar de desânimo. Encolheu os ombros.
— Desculpa... não sei nada... Tenho o cérebro vazio de pensamento... Faz o que quiseres... Eu farei depois o que a consciência me ordenar.
João de Sousa ergueu a cabeça. Num desafio ao próprio Destino.
— Seja assim... Maria Lúcia escolherá por si mesma qual de nós dois prefere...
Martim Lopes nada disse. Baixou a cabeça. E ficou ainda mais taciturno.
 
João de Sousa foi o primeiro a tentar a sua sorte. Procurou a bem-amada e expôs-lhe claramente a situação.
— Maria Lúcia, escuta-me... Sabes como te adoro, não é verdade?
Ela sorriu. Um sorriso de amor.
— Assim mo tens dito. E eu creio em ti!
Ele segurou-lhe as mãos. Com força. Com ternura.
— Mas agora, peço-te... Olha bem para mim... De frente… olhos nos olhos…
— Pronto!... Que se passa, afinal?
Arrancada ao fundo do peito, a confissão veio à superfície.
— Passa-se que o meu amigo Martim Lopes, a quem eu quero como a um irmão, também está apaixonado por ti...
Débil, temerosa, a voz dela corroborou:
— Sim... bem sei...
Então João de Sousa falou, de novo, em voz vibrante e clara:
— Pois tens de decidir... entre mim e ele...
Foi a vez da bonita Maria Lúcia se erguer. Digna. Altiva.
— Não percebo, João! Tenho de decidir o quê?... Mas tu não sabes que já estou decidida há muito tempo… É de ti que eu gosto, bem sabes!
 
Mais tarde, chegou Martim Lopes.
— Senhora... perdoai-me a ousadia...
Maria Lúcia baixou a cabeça delicadamente.
— Dizei, D. Martim Lopes… Estou pronta a escutar-vos.
Por momentos, ele hesitou. Parecia que procurava as palavras, que tinha dificuldade em exprimir-se. Mas acabou por dizer.
— O meu amigo D. João de Sousa afirmou-me que falara convosco... e que...
Ela tentou abreviar a conversa e interrompeu-o.
— Falou comigo, sim... E falou até acerca de um estranho assunto... Queria que eu escolhesse para marido um de vós dois...
Num impulso de coragem íntima, Martim Lopes, desta vez, não hesitou mais.
— Dizeis bem, senhora! Sabeis decerto quão grande e forte é o meu amor por vós... Posso jurar-vos uma fidelidade eterna. Tereis de mim o mais leal dos vossos servidores. E todas as minhas riquezas serão vossas… todo o meu poderio...
Ela voltou a interromper.
— Mas, senhor D. Martim Lopes, para quê tanta coisa? Para quê, tanta palavra?...
E, perante o ar perplexo e desorientado do fidalgo, a bela Maria Lúcia perguntou, com soberbo desdém:
— Pois não sabeis ainda que é com D. João de Sousa que eu vou casar?
O homem curvou a cabeça. Vencido. Humilhado. Dolorosamente vencido e humilhado. E respondeu numa voz surda, dolorosamente surda:
— Sei, senhora, sei… Ele próprio mo disse… Mas eu não acreditava…
 
E conforme se conta de narrativa em narrativa, a raiva do desespero e do ciúme ficou roendo o coração de D. Martim Lopes. Roendo e dilacerando. Roendo e envenenando. E de tal modo essa raiva o roeu e dilacerou e envenenou que ele, tresloucado, empeçonhado de ódio, resolveu cometer um desvario no próprio dia das bodas.  
Quando a cerimónia nupcial se realizava com toda a pompa, D. Martim Lopes entrou no templo, seguido pelos seus homens de armas, e arremeteu sobre o altar, ferindo à traição D. João de Sousa e raptando Maria Lúcia, que em vão tentou defender-se. No meio da confusão enorme que se gerou, D. Martim Lopes, bem defendido e amparado pelos companheiros, conseguiu arrastar consigo aquela que o trocara pelo seu melhor amigo de outros tempos. Mais do que amigo, irmão!
 
Os anos foram correndo. Sucedendo-se. Amontoando-se. Transformando-se em vida e em história.
Com a morte de el-rei D. Fernando, surgiram dois grandes partidos políticos: o que defendia o rei de Castela, marido de D. Beatriz, e o que seguia o jovem e ardoroso D. João, Mestre de Avis.
Ora aconteceu precisamente que D. João de Sousa enfileirou ao lado dos adeptos do Mestre de Avis, enquanto D. Martim Lopes lutava pela causa de Castela.
A batalha travou-se desde logo, entre os dois partidos. Derrotado, D. Martim Lopes ainda quis voltar ao velho solar onde conservava prisioneira a bela e revoltada Maria Lúcia. Mas um bando de cavaleiros perseguiu-o tenazmente até à fronteira e, para se salvar, D. Marfim Lopes teve de usar de todos os seus recursos. Principalmente, um cavaleiro de negro, com o rosto encoberto, não lhe dava um minuto de descanso, tentando matá-lo de qualquer modo. Mas D. Martim Lopes não conhecia o medo. E assim, lutando palmo a palmo, conseguiu chegar são e salvo ao outro lado da fronteira, onde o aguardavam já, para o defenderem, os seus amigos e companheiros de Castela.
Quanto à bela e estranha Maria Lúcia, que envelhecia, isolada, fechada no seu solar, recebeu um dia, de surpresa, a visita de alguém que já não via há muitos anos. Era D. João de Sousa, aquele que estivera prestes a ser seu esposo.
— Pois és tu... sois vós, D. João de Sousa?
Igualmente envelhecido, de rosto atormentado pelo sofrimento, o homem respondeu com voz trémula:
— Sou eu, sim... Ou melhor: é o meu espectro! Vedes como estou velho, não é verdade?
E calaram-se. Pensando. Sofrendo mais. Depois, ele cortou o fio das evocações.
— Venho despedir-me, Maria Lúcia!
Ela nada perguntou. Olhou-o apenas. Com aqueles mesmos olhos onde existira tanto amor e onde havia agora somente restos de saudade.
— A vida já perdeu para mim todos os encantos, todos os prazeres, todas as esperanças, Maria Lúcia... Vou recolher-me a um convento!
Ela fez que sim com a cabeça.
— Compreendo, D. João de Sousa... Há muito que eu pensava fazer o mesmo... Não hesitarei mais, também! Tendes razão... Daqui em diante, irei servir o Céu, já que a Terra para nada me serve…

Mesmo longe, exilado em Castela, D. Martim Lopes soube da resolução de Maria Lúcia e do seu destino... Então, o remorso começou a persegui-lo, dia a dia, noite após noite. Até que, ouvindo falar num extraordinário ermitão que conseguia o perdão de Deus para todas as faltas, D. Martim Lopes resolveu ir visitá-lo...
Mas o ermitão vivia longe, numa velha cabana debruçada sobre o abismo de Sagres, e D. Martim Lopes mais uma vez teve de se arriscar para chegar até lá...
— Senhor, venho de grande distância... Arrostei muitos perigos... Mas aqui estou para escutar os vossos sábios conselhos.
Na penumbra em que se encontrava, o ermitão de longas barbas brancas ergueu as mãos ao céu, num gesto de humildade.
— Sou um pobre servo de Deus... Nada mais... Em que posso servir-vos?
D. Martim Lopes arrojou-se aos pés do ermitão.
— Ai, irmão, arrancai-me os remorsos que trago na alma, que não me deixam viver!... Fui mau e fui ingrato, irmão... Destruí a maior amizade da minha vida… Que devo fazer?
A voz do ermitão fez-se ouvir, mas sumida, muito sumida, como se viesse também de longe:
— Oferecei a Deus a vossa vida, pela salvação das almas que tentastes destruir… Ide, lutai contra a moirama, que é uma maneira de servir o Senhor, nosso Deus... Lutai até poderdes... Será o melhor modo de expiar as vossas culpas!
— Obrigado, irmão… Assim farei!
 
E, desde esse momento, segundo se conta, D. Martim Lopes não mais teve descanso na sua luta contra a moirama. Em terras de Marrocos, era sempre o primeiro nas surtidas e nos ataques. A sua fama depressa se espalhou, entre os próprios inimigos, que passaram a conhecê-lo como o «Homem Sem Medo»...
Mas um dia, a sorte foi contra ele. Caiu numa terrível emboscada e ficou agonizante, num chão juncado de cadáveres.
Então, como que num sopro de pesadelo, escutou o tropel doido de um cavalo que veio correndo até junto dele. E do cavalo saltou um homem. E o homem era o próprio ermitão de Sagres!
— Agora que estás prestes a morrer, quero revelar-te um segredo... Sabes quem sou?
Mal podendo falar, arquejando, D. Martim Lopes titubeou:
— Sois... o... velho ermitão...
O rosto do outro inclinou-se sobre ele, para que o visse bem.
— Antes, chamei-me D. João de Sousa... Lembras-te deste nome? Não tremas... Já não vale a pena... Já nada te pode valer!... Mas quero dizer-te, para que saibas, que te tenho perseguido com o meu ódio por toda a parte... Fui eu quem te obrigou a fugir para Castela e te quis matar na fronteira... Fui eu que convenci Maria Lúcia a entrar para um convento... Fui eu que te incitei a procurar a morte, lutando contra os moiros...
Num último reflexo de vontade, o moribundo perguntou:
— E... agora... que queres ainda mais de mim?
A resposta teve um sabor de sangue:
— Quero matar-te pelas minhas mãos! É a minha vingança!
… E diz-se que, ali mesmo, o velho ermitão, pedindo perdão a Deus, cravou um punhal no coração do moribundo — que fora o seu maior amigo. Mais do que amigo, irmão!

Encontrado já morto pelos companheiros, D. Martim Lopes foi depois enterrado com toda a solenidade. E sobre o seu túmulo gravaram uma inscrição que ainda hoje se pode ler:

NO CORAÇÃO DESTE HOMEM
NUNCA ENTROU O PAVOR!

Mas conta-se também que todas as pessoas que encostarem atentamente o ouvido ao túmulo, acabarão por escutar, em surdina, o tropel de um cavalo fantasma — maldição que ficou ali para sempre, a fim de ensinar aos vindouros que o amor nunca deve destruir a amizade.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume II, pp. 45-51

Narrativa

When XV Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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