Lenda do Pastor e da Estrela

APL 2870

Sim, o que vamos contar é precisamente a história dum homem que ouviu, um dia, a sua estrela! Era um pobre pastor. Vivia numa aldeia triste e tinha como único amigo o seu cão. Mas o homem era novo e tinha esperanças. Às vezes, fitava os horizontes e perguntava a si próprio:
— Porque razão não poderei atravessar aquelas serras?... Ir ver o mundo que fica do outro lado? Ah! Hei-de ir um dia... hei-de ir! Isto aqui é pequeno para mim… e aquelas serras são tão grandes... tão altas!... Que haverá para além das montanhas?...
 
Ora aconteceu, segundo conta a lenda, que certa noite o pastor, enamorado do luar e da aragem fresca que corria de mansinho, nem sequer pensou em deitar-se. Ficou-se para ali, sentado, sonhando de olhos abertos... E, a determinada altura — fosse realidade ou sonho — teve a nítida impressão de que uma pequenina estrela descia até ele. Nessa estrela havia um rosto de criança. E a estrela falou-lhe, numa voz meiga e infantil:
— Pastor! É verdade que desejas ir conhecer o mundo? Não tens medo do desconhecido?
Surpreendido, o homem estremeceu.
— Meu Deus! Pois será possível que as estrelas tenham voz?
A vozinha meiga e infantil fez-se ouvir de novo:
— Sim, sou eu que te falo... Mas foi Deus que me enviou para te guiar! Quando quiseres, poderemos partir!
Uma alegria imensa tomou de assalto o jovem pastor.
— Partir?! Disseste que podemos partir?... Ah! Quem me dera, realmente, deixar tudo isto e correr aventuras, descobrir novas terras! Quem me dera!...
O pastor ficou-se extático, ouvindo o seu próprio desejo, mas a vozinha da estrela brilhante que descera do Alto interrompeu-lhe o êxtase, lembrando-lhe com vivacidade:
— Meu bom amigo! Já te disse que tudo depende apenas da tua vontade. Quando estiveres disposto a partir, basta que chames por mim. Eu ficarei à tua espera, lá em cima... junto das minhas irmãs. Adeus, pastor!
E correndo, ligeira, a estrelinha foi juntar-se às outras estrelas.
O pastor seguia-a com o olhar. Mal podia acreditar no que vira e ouvira. A verdade, porém, é que a estrelinha brilhante não mais o abandonou. O pastor todas as noites a via, mais luminosa do que as outras, parecendo até sorrir-lhe. E ele acabou por se resolver à grande aventura.

Uma noite em que o luar não tinha ainda chegado, o pastor olhou o céu e falou assim:
— Oh, minha pequenina estrela! Fosse loucura ou verdade, eu ouvi a tua voz. Pois estou decidido! Que se faça a vontade do Senhor!... Irei à aventura até alcançar aquela grande serra que vejo além, a maior de todas? Oh, minha boa estrela! Desce do céu e vem para me guiares!...
Então o pastor ouviu uma espécie de estranha melodia descendo sobre ele. E de novo o pastor escutou aquela vozita cheia de ternura que já ouvira uma vez:
— Aqui estou! Sabes que cheguei a pensar que não acreditavas em mim? Mas ainda bem que te resolveste!
— Então... a caminho!... Seguir-te-ei para onde tu quiseres!
E, assim dizendo, o pastor dispunha-se já a dar início à sua jornada, quando um obstáculo surgiu. O cão, fiel companheiro do pastor, sentiu decerto uma presença estranha junto dele. Era a estrela! E o cão ladrou na noite escura, pondo em sobressalto toda a aldeia!
Aflito com tamanha irreverência, o pastor apressou-se a impor-lhe silêncio:
— Quieto! Quieto... aqui! Para que ladras tu? A estrela é nossa amiga... Vai levar-nos àquela serra. Vês? Vamos, acalma-te! Ninguém te faz mal!...
Aos poucos, o cão acalmou, e seguiu mansamente o seu dono pelos caminhos do desconhecido.
Na aldeia, os velhos ficaram abanando as sábias cabeças. Era um louco que partia! Fora dali, só poderia encontrar a fome, a miséria e a morte!
De facto, eles quase tinham razão. Durante tempos e tempos o pastor andou como que ao acaso, sem alcançar o seu destino. Foi uma caminhada longa e dura. O alto da serra ficava sempre mais além, e o caminho, que julgara curto, parecia não ter fim. Eram voltas e voltas sem conto. Eram dias e meses passando como fantasmas, sem que o pastor alcançasse o almejado cimo da serra.
O cão, seu fiel companheiro, não conseguiu aguentar a jornada. Ficou no caminho, marcado por tosco sinal de pedra. O pastor, antes de o abandonar, olhou a terra fria, enquanto algumas quentes lágrimas tentavam aquecê-la e disse:
— Deixo-te aqui... Tu foste o meu fiel e único amigo! Onde me levarão os meus passos? Não sei! Conseguirei eu alcançar aquela serra? Só Deus o sabe! Adeus, meu amigo! O teu destino parou. O meu tem de continuar!...
E silenciosamente seguiu rumo ao alto da serra, o pastor que um dia sonhara abraçar de lá todo o horizonte.
 
Muitos anos passaram. O pastor envelheceu — e a própria estrela também, segundo nos conta a lenda...
Porém, um dia — esse dia havia de chegar! — o pastor pôs o pé no alto da serra! A alegria que sentiu foi quase de loucura. Olhava em redor o vasto e belo horizonte, e a cabeça parecia estalar-lhe. Chorava e ria ao mesmo tempo. Gritava por entre o vento o seu hino de louvor:
— Bendito seja Deus! Bendita sejas tu, minha boa estrela!... Chegámos!...
E o vento, rodeando as palavras do velho, resolveu subir com elas, cheio de cuidado, não fosse perder-se alguma, até lá onde os pés do homem não podem chegar...
Ouvindo-o, a estrela sorriu-lhe e disse:
— Meu bom pastor! Passaste, na verdade, muitos tormentos... Envelhecemos ambos... Mas Deus fez-te a vontade!
Então, dominando o espaço, a voz do pastor soou potente e convicta:
— Aqui ficarei para sempre na tua companhia! Para sempre!
E o pastor instalou-se ali, mergulhando, deliciado, o seu olhar na amplitude vasta do horizonte.

Então aconteceu que o rei daquelas redondezas ouviu falar num pastor que habitava no alto da serra e que possuía uma estrela única no mundo com quem falava todas as noites. Sem hesitar, mandou emissários para que o trouxessem à sua presença.
Quando o velho pastor, um tanto surpreendido, chegou ao palácio do rei, este elucidou-o sobre o seu intento:
— Ouve, pobre velho! Dar-te-ei todas as riquezas que quiseres... farei de ti um homem poderoso para o resto da vida! Em troca, quero apenas que me dês a tua estrela!
O velho pastor olhou o rei com desespero.
— Pedis o impossível, Senhor! A estrela não é minha, é do Céu!
Furioso, o rei gritou-lhe:
— Que importa? Eu sei que ela faz o que tu ordenas... Se tu quiseres, ela será minha!
Com uma dignidade que assombrou o monarca, o velho pastor replicou:
— Senhor, prefiro continuar pobre, desprezado, mas sempre com a minha estrela!
E no mesmo assomo de energia, o velho pastor voltou as costas ao rei poderoso, e abalou de novo a caminho da serra.
Quando lá chegou, a noite ia já alta. Ele atirou-se para cima da enxerga e mordiscou uma côdea de pão negro. Então, a tal estranha melodia já muito sua conhecida desceu do alto e veio sussurrar-lhe aos ouvidos:
— Ainda bem que as riquezas não te tentaram!... Ficaria tão triste! Deixei-te passar misérias para te expor ainda mais à tentação, mas confesso que receei muito! O rei ofereceu-te verdadeiros tesouros...
Erguendo-se da enxerga para onde o cansaço do corpo o tinha atirado, o velho respondeu com lágrimas na voz:
— Ouve, minha boa estrela! Já perdi a conta dos anos. Nem sei desde quando nos conhecemos... Mas quero que fiques sabendo que não poderei viver sem ti, sem a tua luz, sem o teu brilho, sem a tua presença!...
A estrela explicou-lhe, num sussurro, fazendo amainar o vento que corria célere:
— Pois quando morreres, meu bom pastor, podes morrer descansado! Eu aqui te prometo que jamais te abandonarei!
Num êxtase, o pastor encarou a sua estrela. O seu brilho intenso salpicava-lhe de luz os cabelos encanecidos. E o velho, numa voz de profeta, proclamou do alto das montanhas:
— Eu te agradeço o que fizeste por mim! De hoje em diante esta serra há-de chamar-se, e para sempre — a serra da Estrela!

E diz a lenda que no alto da serra desse nome pode ver-se todas as noites, entre as suas irmãs, uma estrela que brilha ainda hoje duma maneira estranha e diferente. O seu brilho derrama reflexos de saudade e de amor sobre a campa desconhecida daquele que foi e continuará a ser — o seu pastor!

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 117-120

Place of collection-, SEIA, GUARDA

Narrativa

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