Lenda do Sem Pavor

APL 2777

Liberitas Julia era o nome pela qual os Romanos conheciam uma bela cidade encastoada no nosso Alentejo. Sertório a escolhou para sua morada, e enfeitou-a como menina bonita. Dos Romanos passou às mãos dos Godos. Mais tarde, os Sarracenos vieram à Península e logo a cobiçaram. E depois de grande luta apossaram-se dela, e na posso deles ficou por mais de um século. D. Afonso Henriques, o ardoroso e combativo primeiro rei de Portugal, logo a desejou também, enfileirando-a nos projectos de alargamento do território português. Mas nem tudo pode fazer-se quando queremos e apenas porque o desejamos. É necessário mais. E assim Évora, a famosa Yeborath, ia continuando na posse dos Mouros, com grande desespero do rei de Portugal. E só no ano de 1166 um homem posto à margem da lei e chefe de um bando de proscritos conseguiu resgatar-se, tomando para si a chefia da conquista dessa cidade até então fechada aos cristãos. Chamava-se Geraldo Geraldes.

Na serra de Montemuro, não longe da cidade Moura de Yeborath, existia nesse ano de 1166 um rude castelo, meio escondido entre o arvoredo e a rocha. Aí se aquartelava o bando do famoso Geraldes; e essa vizinhança era o bastante para afugentar mouros e cristãos. Esses homens habituados à luta e ao perigo, rudes por natureza, votavam contudo um respeito total ao seu denotado chefe. O domínio que Geraldo Geraldes exercia sobre esses homens era, na verdade, impressionante.

Era uma noite morna, quase quente. No céu as estrelas luziam aos milhares. Não havia luar. A escuridão e o silêncio pareciam subir pela montanha e apoderar-se do coração dos homens que ali viviam, como se desejasse mandar calar as suas próprias pulsações.
Pedro Cogominho, o mais atalatagado de todos, puxou com força as calças mal apertadas pelo desmazelo em que viviam e saiu a tomar ar. Lá fora, encontrou Justino, um companheiro de poucas falas, que viera para ali sem contar por que viera. Notando a presença de alguém, Justino voltou-se. Pedro Cogominho interrogou-o.
— Que fazias aí, olhando o céu?
Justino, homem de trinta anos incompletos, respondeu, sereno:
— Contava as estrelas.
Uma gargalhada irritante cortou o silêncio da noite calma. E Pedro falou alto, em ar de mofa.
— Bonito! Era o que nos faltava agora!
Imitando a voz de Justino, repetiu:
— Contava as estrelas…
Olhou o outro com desprezo.
— Como eu riria mais, se o chefe te ouvisse!
Dum salto, Justino, que estava sentado num rochedo, pôs-se de pé. E exclamou com voz rouca:
— Não posso mais! Endoideço!
Pedro deixou de rir.
— Porque te enervas?
— Porque não me juntei ao vosso bando para apodrecer neste castelo abandonado! Preciso de acção. De acção, compreendes?...
A reviravolta do jovem Justino humanizou Pedro Cogominho. Bateu no ombro do seu companheiro, a recomendar-lhe calma, e murmurou como se falasse consigo próprio:
— Por onde andará Geraldo?
Justino olhou de frente o lugar-tenente.
— E será forçoso esperar? Quem sabe se…
O outro atalhou:
— O quê?
— Bem… ele é fidalgo e nós não…
Com rudeza, Pedro ordenou:
— Cala-te! O chefe é incapaz de uma traição! Como todos nós, ele almeja a liberdade com o perdão do rei… mas não a procurará sozinho. Tem confiança, homem sem fé!
Foi a vez de Justino sorrir.
— Fé! E és tu quem falas em fé!...
— Pelo menos, sabe esperar!
— É quanto sabes dizer! Esperar, esperar!... Mas esperar o quê? O perdão dos nossos crimes? Não acredito nesse perdão!
Pedro voltou a bater no ombro de Justino.
— Rapaz! Lembra-te que formamos um grupo forte e temido. Mouros e cristãos são nossos tributários. Temos comida e não nos faltam mulheres, granjeadas à força da nossa astúcia. Este castelo ninguém o descobre, apertado como está neste labirinto de rochedos e matas silvestres!
Foi a vez de Justino tocar no braço do companheiro, mas desta vez a impor-lhe silêncio:
— Cala-te! Sinto passos...
Pedro endireitou-se. Também ele ouvia passos. Gritou então:
— Por quem vens?
O silêncio foi a resposta da noite. Justino falou baixo para o companheiro:
— Não respondem!
Mas já Pedro ordenava para dentro do castelo:
— Acendam archotes! Montem a cavalo! E sejam cristãos ou mouros... vamos a eles, companheiros! Há já muitos dias que os nossos corvos não se banqueteiam!
Os homens responderam numa algazarra de vozes. Os cavalos, que estavam a dormir, acordaram, relinchando. Em poucos segundos um grupo dispunha-se já a descer a montanha, quando uma voz possante, uma voz já conhecida dessas redondezas, soou como trovão;
— Para trás! Aonde vão?
Estupefacto, Pedro gritou:
— É Geraldo Geraldes!
O chefe veio ao seu encontro.
— Pois quem poderá ser senão eu? Alguém mais ousaria chegar aqui?
Ainda não refeito da surpresa, Pedro exclamou:
— Saíste armado e a cavalo... E agora... chegas a pé e vestido dessa maneira?...
Geraldo sorriu.
— Esta tiorba de trovador é um disfarce. Sob a capa trago as minhas armas.
E dirigindo-se aos seus homens, que o observavam em silêncio, gritou em voz de comando:
— Apeiem-se todos e oiçam, companheiros! Despeçam-se esta noite da montanha e das tristezas do descanso! Amanhã quero que estejam a postos para me seguirem!

Não longe dos muros de Yeborath, avistava-se uma torre alta, redonda, de grossa cantaria, sem porta nem qualquer entrada pelo lado de fora. Ficava a torre a noroeste da cidade, único ponto pelo qual a cidade moura poderia temer uma invasão. A vigilância dessa torre estava confiada a um valente mouro, que ali vivia encerrado com sua única filha, uma jovem muito formosa. Certa noite, o velho mouro mostrava-se inquieto.
— Filha, agora mais do que nunca cumpre velar!
A jovem olhou o pai com firmeza.
— Que temeis hoje mais do que ontem?
— Não me sai da ideia aquele cavaleiro que ontem vimos passar para a cidade! Olhou demasiadamente para esta torre... E ele é cristão e desprezado pelos seus!
— Foi a informação que vos foi dada?
— Sim.
— Então, que veio ele fazer à nossa cidade?
— Falar com o alcaide.
— Falar? Para quê? Ele recebeu-o?
— Sim.
— Talvez fosse demasiado longe...
— Também creio. Mas ouve: quando nos enviaram os último mantimentos, encontrei juntamente uma carta do alcaide.
— Uma carta? E que vos dizia ela?
— Recomendava-nos prudência e redobrada vigilância, como mãe que vigie o seu pequeno filho. Disse que o nazareno se chamava Geraldo Ben Geraldes e tinha por apelido o Sem Pavor. Disse mais: que o homem em questão era capitão de ladrões acastelados na montanha e que duvida da sua má fé para com os cristãos, pois era nobre, embora proscrito!
— Mas... ele não jurou paz connosco?
— Sim. No entanto o alcaide recorda-nos o nosso juramento de vigilância.
— Ficai descansado, meu pai. Esta noite pertence-me ficar de atalaia. Podeis ir descansar. Saberei guardar sozinha os destinos da nossa cidade.
O velho mouro olhou a jovem com orgulho.
— Como és diferente das outras mulheres! És tão forte como um homem e mais bela que todas as mulheres das terras de Mafoma!
A moura encolheu os ombros e tolheu o elogio.
— Ide deitar-vos, meu pai. Ficarei de pé junto desta janela. Amanhã será a vossa vez.
 
Olhando a escuridão, escutando o silêncio dos campos, a formosa moura sentia o aroma das flores campestres e recordava o estranho peregrino que passara na véspera junto à torre. Antes de se afastar, ele descansara junto de um pinheiro e cantara ao som de uma tiorba um romance de amor que recordava ainda. E de tanto o repetir para si própria, vencida pelo cansaço e pelo silêncio dessa noite sem fim, a jovem moura encostou-se à janela e sentiu que os seus olhos se fechavam de sono. De súbito porém, sobressaltou-se. Ouvira um leve ruído. Endireitou-se. E sufocou um grito.
— O trovador! Como vieste até aqui?
Num tom de voz profundo e baixo, o homem disse apenas:
— Voando!
Ela mostrou-se forte.
— Sei quem és. Chamas-te Geraldo Ben Geraldes e és cristão!
— Sim... sou Geraldo e vou saltar aí para dentro!
Resoluta, ela afirmou:
— Não entrarás!
Ele olhou-a bem nos olhos, suspenso quase diabolicamente apenas com um pé firme numa estaca que poderia quebrar-se a todo o momento.
— Não me obrigues a cometer uma injúria... És bonita demais para morreres!
Corajosa, ela lembrou-lhe:
— Estás seguro apenas ao parapeito... Posso precipitar-te desta torre!
— Haverá luta! Mas previno-te que em luta não conheço contemplações. Apertar-te-ei as goelas, se falas alto ou se tentas derrubar-me!
Sem responder, a jovem pegou num pau e tentou bater com força nas mãos de Geraldo. A luta foi feroz. Apoiado na estaca que enfiara entre as juntas da cantaria da torre, Geraldo não esquecia que lá em baixo ficava o abismo. A peleja enervava-o. Sabia que era de vida ou de morte. Se o velho acordasse e alertasse a cidade, tudo estaria perdido. Se perdesse o equilíbrio e cedesse na luta, também para ele seria o fim. Tentava ganhar terreno, e para isso passou o braço pelo pescoço da rapariga e apertou-o como se fosse uma tenaz. Não tardou em senti-la afrouxar… cedendo... escorregando... Para não se desequilibrar, soltou-a e amparou-se fortemente ao beiral da janela. No fundo do precipício caiu o corpo da moura. Então, Geraldo Geraldes galgou o parapeito e saltou para dentro da torre. Fácil foi para ele encontrar o velho que ainda dormia. E a dormir ficou logo para sempre! Depois, Geraldo desceu a torre com as precauções devidas e voltou ao acampamento. A noite parecia intranquila, enervada. A noite guardava um segredo que não sabia como proclamar...
 
No acampamento, a espera continuava agitando os homens de Geraldo Geraldes. Pedro tentava acalmar esses homens inquietos.
— Tranquilizem-se! Geraldo Geraldes nunca faltou ao prometido. A empresa desta noite, seja ela qual for, será de grande monta.
De fora, a voz de Geraldo fez-se ouvir.
— Tens razão, Pedro Cogominho!
Pedro voltou-se, contente.
— Não te esperava tão cedo.
— Chego sempre quando me apraz.
E voltando-se para os seus homens:
— Companheiros! Minha é já a torre de atalaia da cidade que é preciso tomar. Tenho segura a chave da porta grande da cidade, a qual juro abrir para nela poderem entrar. Vossa será portanto Évora, e ainda esta noite! Amanhã, quando o sol romper, teremos um presente de rei para oferecer a D. Afonso Henriques, em troca da restituição, como espero, do nosso nome honrado e da nossa pátria. É o derradeiro empenho que vos meto. Havei-vos nele como nos demais. Tudo preparei sozinho. Disfarcei-me de peregrino e atraí às janelas os guardas da torre. Estudei o meu plano. E agora, vamos a eles!
Uma uníssona aclamação coroou as palavras de Geraldo Geraldes. Mais uma vez os seus homens estavam dispostos a segui-lo.
 
A noite foi cúmplice desse assalto repentino e destemido. Só quando a sentinela de guarda na torre interna viu arvorar-se, inesperadamente, um facho na torre redonda, é que deu o sinal de alarme. Ouviu-se então o frémito dos cavalos... A cidade dormia descansada, alheia ao drama da torre redonda. Geraldo gritou aos seus homens:
— Já a sentinela conhece os nossos desígnios. Avante, pois a sorte de Évora está lançada e para sempre desfeito o nosso infortúnio!
Ouviu-se de súbito, na calada da noite, a voz agoirenta da trombeta de guerra. Vultos estremunhados surgiram às portas e janelas. Nem queriam acreditar no que o som da trombeta dos atalaias lhes dizia! Luzes apareciam, aqui e além. A escuridão sempre impressionou quem tem medo. Ouviam-se tambores chamando a combate homens e mulheres. Os mais ousados saíam para a rua, prontos a venderem cara a vida. Os medrosos encolhiam-se, trementes, mal crendo no que os ouvidos lhes gritavam. E os homens de Geraldo Geraldes, em certeiros golpes, logo acharam passagem e começaram correndo pelas ruas gritando:
— Vitória! Portugal e S. Tiago!
Como loucos, uns combatiam, outros se escondiam. E o plano de Geraldo continuou a cumprir-se. Munira de estacas grossas os seus homens, com que eles agora escoravam as portas, a fim de aferrolhar os que ainda se encontravam dentro das casas.
O ruído produzido pelas armas entrechocando-se, as imprecações dos homens, os gritos das mulheres, os choros convulsivos das crianças, tornaram a cidade de Évora num verdadeiro inferno. Mas, quando a manhã chegou, encontrou em silêncio o que minutos antes era furor e caos. A cidade rendia-se, conquistada.
 
Mal acreditava ainda no que ouvia, el-rei D. Afonso Henriques, da boca da embaixada que lhe viera trazer mais essa boa nova. Tão alegre ficou, que devolveu as chaves da cidade de Évora a Geraldo Geraldes, a espada que ganhara, e cartas perdoando-lhe o seu passado, bem como o dos seus homens, e ainda fazendo-o seu vassalo e alcaide perpétuo da sua cidade de Évora!
Assim se tornou cristã a tão amada de Sertório enquanto lusitana — a bela Liberalitas Julia da Roma de Júlio César — a cidade de tão grandes tradições, a qual, deixando para trás tantos séculos de história, pareceu querer gritar ao mundo apenas a sua reconquista cristã, ostentando nas suas armas um cavaleiro — Geraldo Geraldes, o Sem pavor — e duas cabeças decepadas.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume II, pp. 107-113

Place of collection-, ÉVORA, ÉVORA

Narrativa

When1166

CrençaUnsure / Uncommitted

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