Lenda dos Amores de D. Martim Gil de Vide

APL 3036

A região de Castelo de Vide foi povoada desde remotos tempos. A origem do seu nome conta-a uma lenda romântica que a tradição soube guardar. Uma lenda onde o amor triunfou, embora à custa de sofrimento.

Outono. Um Outono dos primeiros anos da Nacionalidade. Manhã ainda, Rui Nunes das Astúrias, depois de conferenciar largo tempo com sua esposa D. Elvira, mandou que sua filha Guiomar viesse à sua presença. Um tanto atemorizada, pois calculava o melindroso assunto que iriam tratar, a «Bela Viúva» — como já lhe chamavam — veio à presença de seu pai. A sua voz saiu sem cor.
— Desejais falar-me?
Rui das Astúrias não respondeu logo. Examinava o rosto pálido da filha. Por fim ordenou:
— Sentai-vos, Guiomar. O que tenho a dizer-vos é de extrema importância para mim e para vós.
Guiomar sentou-se. As suas mãos tremiam ligeiramente. Conseguiu, contudo, aparentar serenidade.
— Falai, senhor meu pai. Estou aqui para escutar-vos.
D. Rui não gostou do à-vontade, que julgou verdadeiro. A sua voz soou dura.
— Pois vou direito ao fim, sem mais rodeios. Sei de fonte segura que amais D. Martim Gil e se fala em novos esponsais de minha filha Guiomar!
Fazendo forças da própria fraqueza, D. Guiomar volveu:
— Senhor! Na verdade sou viúva, mas deveis concordar que ainda muito jovem...
— E depois?
— Depois... achais bem que me amortalhe num luto por toda a vida?
— Guiomar, vosso defunto esposo amava-vos! Nunca o deveis esquecer!
— Sempre o respeitei, senhor meu pai! Fui esposa exemplar, apesar de ter casado ainda criança! Mal tive tempo de conhecer o esposo que a vossa vontade me destinou. Mas não cheguei a dar-lhe o meu coração!
D. Rui tornou-se vermelho.
— Que dizeis, Guiomar? Já medistes na gravidade da vossa afirmação? Não amastes Pedro Fernandes Nino?
Guiomar estava bastante amedrontada. Mas era demasiado tarde para recuar.
— Se é necessário confessar-vos essa falta, dir-vos-ei que não consegui amar D. Pedro Fernandes.
— Estais louca?
D. Rui das Astúrias fechou os punhos num acesso de cólera. Gritou:
— Como compreender as mulheres? Como conhecer o que se passa dentro delas? Mentem em cada sorriso… em cada gesto... em cada palavra!
— Senhor, nunca menti em palavras! Quanto aos meus sorrisos, creio que traduziam bem o que se passava dentro de mim.
— Julguei-vos feliz!
— Pois nunca o fui, senhor meu pai!
— Mas casastes! Aceitaste-o por esposo!
— E alguma vez fui consultada, quando deliberaram casar, com um homem já feito, a criança que eu era?
D. Rui olhou pela janela a paisagem, que não o interessava. Guiomar voltou a falar:
— Senhor meu pai! O meu primeiro casamento fi-lo por obediência. Mas, agora que encontrei o amor, permiti que olhe a vida de frente e abrace a felicidade que julguei perdida!
D. Rui não alteou a voz. Pensava, talvez, numa conciliação.
— Guiomar! Na verdade imaginei que não tomásseis a casar. No entanto... se essa é a vossa vontade… podeis fazê-lo, mas com outro homem que não seja D. Martim Gil!
Guiomar perdeu a calma aparente.
— Porque não poderei casar com Martim Gil?
— Porque somos adversários! Verdadeiros inimigos. Se o não sabeis, ele não o ignora! Já vedes que todos poderão servir-vos, menos esse homem a quem odeio!
D. Rui levantara-se. Passeava no salão, como fera enjaulada. Rematou, gritando quase:
— Compreendeis agora, Guiomar? Compreendeis? Todos, menos esse!
Guiomar sentiu uma doida vontade de chorar. Mas aguentou os olhos enxutos. 
— Senhor, deveis concordar quão adversa é a minha sorte! Precisamente esta tarde, encontrar-me-ei com Martim Gil para fixarmos a data do nosso casamento.
D. Rui interrompeu o passeio e gritou:
— Nunca! Nunca, compreendeis?
Guiomar sentiu forças para resistir.
— Senhor... Já não sou a donzela de há poucos anos...
— Pretendeis desobedecer-me?
— Não é intenção minha ofender-vos. Mas devo lembrar-vos que tenho direito ao meu quinhão de felicidade, quando ela própria, generosamente, mo oferece!
A cólera de D. Rui subiu ao auge. Aproximou-se da filha como um louco.
— Ficai sabendo, Guiomar, que casardes com esse homem será o mesmo que matardes vosso pai!
Ela afligiu-se. A sua voz traiu-a.
— Senhor!
Ele ganhou novo ânimo.
— Tenho o meu nome comprometido. Já vedes que não poderei ter ligações de qualquer espécie com esse homem!
Ela lamentou-se:
— Tudo isso, afinal, vale para vós mais do que eu!
— O nome que uso é vosso também!
Guiomar voltou a animar-se.
— O de Martim Gil não é inferior, meu pai! O rei respeita-o e acarinha-o!
D. Rui encolheu os ombros. Tentava levar a melhor, sem irritar demasiado a filha. Conseguiu dizer, numa voz menos agreste:
— Guiomar! Sabeis bem quanto avalio a minha vontade e o meu nome. Deixemo-nos, pois, de discussões inúteis. Jurai que não ireis com ele! Que não vos verei sair desta casa pelo braço desse homem!
Guiomar levantou-se. Levou as mãos ao rosto.
— Senhor! Pedis-me mais do que a morte da minha alegria!
— Ora! Sois tão jovem ainda! Tão bonita! Quantos fidalgos virão pedir a vossa mão?!
Ela meneou a cabeça, desesperada.
— Senhor, eu amo agora! Amo Martim Gil! E o amor é uno e indestrutível!
— Pois o ódio também. E eu odeio Martim Gil!
Foram duras, secas, estas últimas palavras. Guiomar sentiu a verdade nelas e atemorizou-se. Se teimasse, D. Rui morreria de congestão ou mataria D. Gil. Sentiu-se desfalecer e voltou a sentar-se. Implorou apenas:
— Senhor! Tende piedade...
Chorava, a pobre viúva. Mas D. Rui, vendo-a ceder, voltou a encher-se de força. Gritou:
— Se não jurardes o que vos pedi, amaldiçoar-vos-ei!
Ela gritou também, estarrecida:
—Não!... Isso não!
— Pois jurai que ireis despedir-vos esta tarde desse homem!
Guiomar soluçava baixinho. D. Rui voltou a impor a sua voz sonora:
— Jurai, Guiomar!
Absolutamente dominada, a jovem cedeu.
— Juro, meu pai! Juro que despedirei D. Martim Gil, matando assim todas as minhas ilusões de felicidade!
Quando Guiomar abandonou o salão onde acabara de despedaçar toda a felicidade que sonhara, as lágrimas inundavam-lhe ainda o seu lindo rosto.
Sofria como jamais imaginara sofrer. Martim Gil viria nessa tarde cheio de esperanças, pois sabia do interesse que despertara na jovem viúva. Sabia ela também quanto ele a amava, desprezando toda a intriga política que o ligava a D. Rui Nunes. E afinal, Guiomar, que o amava, seria forçada a dar-lhe um não, em virtude da jura que fizera!
Horas seguidas levou a jovem com o rosto encostado às grades da janela alta da torre norte. O seu bem-amado viria por ali, feliz, certo de uma vitória de amor. Embora com os olhos embaciados de lágrimas, distinguiu o garboso cavaleiro ao longe. Desceu apressada, o coração batendo, as fontes latejando, sentindo na boca o amargo da agonia.
Em baixo, no terreiro, ele parou surpreendido por vê-la tão a descoberto. Saltou do cavalo para a cumprimentar, mas logo notou a sua expressão de angústia. Perguntou com ansiedade, enquanto lhe beijava os dedos delicados:
— Senhora, que tendes? Estais doente?
Ela murmurou, com os olhos rasos de lágrimas:
— Tudo morreu para nós, agora! Sofro, neste momento, a minha verdadeira viuvez!
D. Martim Gil apertou as mãos febris da sua amada.
— Delirais, Guiomar? Porque me falais em viuvez, se venho buscar-vos para nos casarmos?
— Tudo acabou, afirmo-vos! Tudo quanto dissemos e desejámos terá de morrer!
Ele perscrutou-lhe o rosto empalidecido, os olhos magoados, a expressão dolorida. Perguntou:
— Que vos aconteceu? Pareceis-me doente e dizeis-me coisas sem nexo...
Ela mordeu os lábios antes de responder:
— Não vos poderei acompanhar, D. Martim Gil! É forçoso que me esqueçais!
Ele voltou a segurar-lhe as mãos com força.
— Guiomar, pedis-me o impossível! E porque hei-de esquecer-vos? Amo-vos e sei que também me quereis. Sou livre e livre sois agora! Porque não me acompanhais?
As lágrimas retidas durante tanto tempo começaram a correr pelo rosto da jovem. Murmurou:
— Não poderei ir convosco!
— Porquê? Sem vós, juro que não partirei!
Ela suplicou:
— Não jureis, que jurais falso!
— Tal desonra jamais me tocará! Jurei que vos levaria e levar-vos-ei!
— Também fui obrigada a jurar a meu pai...
— Que jurastes?
— Não consentir em acompanhar-vos e pedir que me esqueçais!
Martim Gil sorriu, aliviado.
— Pois firmai vossa jura, que eu firmarei a minha!
As lágrimas deixaram de molhar o rosto bonito de Guiomar. Perguntou, perplexa, vendo-o agarrá-la pela cintura:
— Que fazeis, D. Martim?
— Levo-vos comigo e à força!
Ela assustou-se.
— Martim!
Ele acariciou-a.
— É um rapto que nos livrará de um perjúrio! E sereis minha!
E montando a cavalo, com Guiomar à garupa, D. Gil deu de esporas e sumiu-se na distância.

Quando Rui Nunes foi informado do rapto da filha, já esta galopava junto àquele que era o seu maior rival. A sua exaltação foi tal que esteve três dias doente. Mas acabou por compreender que nada pode o homem quando manda o amor.
Quanto a Guiomar, no seu novo palácio, abraçada a D. Gil, olhava extasiada a paisagem em redor. Ele observou:
— Querida, em que pensais?
Ela envolveu-o num olhar de ternura.
— Como tudo isto é lindo!
Ele beijou-a.
— E é nosso! Esta terra que começamos a povoar deu-ma el-rei D. Afonso II.
— E como se chama esta terra?
— Sabei que hesitei durante algum tempo em dar-lhe um nome. Todos me pareciam indignos da sua beleza. Mas, um dia, um dos meus súbditos deu-me a ideia.
Enlaçou-a, e acrescentou:
— Reparai em toda esta verdura… nestas vides...
— Vejo. Esta que trepa junto da fortaleza é tão grande... São enormes os cachos...
— Pois um servo que trabalha na vinha chamou a isto Terra de Vide. Achei bem, e assim começámos a chamar-lhe. E esta fortaleza há-de ser castelo, e Portugal inteiro há-de conhecê-lo.
Guiomar sorriu, enleada.
— Por enquanto, é a morada de um valente que foi forçado a raptar a mulher que ama para com ela casar e a conservar junto de si! Seremos dois cachos pendentes da mesma vide!
O Sol, no ocaso, tornou quase rubros os cabelos castanho-dourados da jovem senhora. E D. Martim Gil, vendo-os tão belos, pousou os lábios nesses cabelos sedosos, e ficou olhando as pinceladas fortes desse fim de tarde de um Outono ainda quente.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 283-288

Place of collection-, CASTELO DE VIDE, PORTALEGRE

Narrativa

When XII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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