Lenda dos diabretes

APL 1322

Era a noite de vinte oito de Outubro, dia em que a igreja lembra os santos Simão e Judas e em que o povo acredita ser a noite da saída dos diabretes do mar para a terra. A maioria dos terceirenses tinha-se recolhido mais cedo, depois de ter comido alho e traçado, com um dente partido, uma cruz na porta. Nessa noite não iam para o mar. Sabiam que os diabretes, seres infernais que colaboram nas tempestades, agitando os mares e enfurecendo os ventos, se tornavam especialmente violentos na noite de vinte oito de Outubro e na de dois de Fevereiro.
 Mas um homem, por necessidade ou teimosia, decidiu ir pescar e foi sozinho porque não encontrou quem fosse com ele. Preveniu-se, comendo alho e pondo uma réstia ao pescoço, e pôs-se a caminho para o porto. Lançou o barco à água e lá foi pelo mar fora, em direcção à ponta de S. Jorge.
 A noite foi passando e não havia modos do homem tomar peixe. Já estava aborrecido e maldizia a sua vida por ter caminhado de casa. A noite era de breu e só se ouvia o barulho do mar a bater no barco quando, de repente, o homem ouviu claramente uma voz perguntar por trás dele:
 — Então, não o deitas ao mar?
 — Não, porque este homem comeu alho com bugalho e tem uma réstia deles ao pescoço — respondeu uma outra voz.
 O pescador percebeu claramente que eram dois diabretes que falavam e ficou amedrontado.
 Rumou para terra o mais depressa que pôde e jurou para si mesmo que em noites daquelas nunca mais iria ao mar, dando razão ao provérbio que diz: “Em dia de S. Simão vara o barco prò portão”.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.151-152

Place of collection Angra (Sé), ANGRA DO HEROÍSMO, ILHA TERCEIRA (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications