Lenda dos Estremoços

APL 2698

O sol, um sol quente, abrasador, caía implacável sobre o carro onde viajava  um homem, uma mulher e uma criança. Este grupo vinha de longe, dos contrafortes da serra. Ódios políticos tinham atirado esta família para a estrada sem fim. O calor apertava. A sede torturava-os. O pó punha-lhes a boca gretada e a língua áspera. Precisavam descansar, fugir ao sol dessa planície imensa que ficava para além do rio Tejo.
De súbito apareceu uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto. O homem refreou o andamento dos cavalos que puxavam a carruagem. Gritou contente para a mulher:
— Olha que árvore! Que bela! Que majestosa!
A mulher concordou:
— É das mais belas que tenho visto!
Curiosa, a pequenita filha do casal perguntou logo:
— Mãezinha, como se chama esta árvore?
Foi o pai quem respondeu:
— Creio que é um tremoceiro! Não tem, aparentemente, grande importância… Mas a verdade é que oferece uma sombra bem acolhedora!
A criança olhou os pais. E arriscou:
— E se ficássemos aqui? Já estou tão cansada… e com tanto calor…
O homem sorriu:
— Tens razão, minha filha! Vamos ficar por aqui… Pelo menos estaremos ànossa vontade, livres de inimigos e de más vizinhanças… Vamos! É necessário levantarmos a nossa tenda de campanha, antes que anoiteça.
A pequenita pulou imediatamente para o solo. Na sua imaginação aquela sombra era o Paraíso…
— Eu também quero ajudar! Vai ser tão bom… Não teremos que voltar a andar de carro por estes caminhos com tanto sol e tanta poeira!...
O homem desceu também, acariciou a cabeça da filha e olhou em redor. Lentamente. Atentamente.
— Isto é grande! Mas não vejo ninguém... Tanto melhor!
E, na manhã seguinte, quando o Sol veio dar os bons dias ao tremoceiro, encontrou erguida uma barraca de campanha, como que a proclamar a independência dos foragidos naquela terra de liberdade...
Porém, uma visita inesperada surgiu também, aos primeiros clarões do Sol. Era um velho forte e autoritário, arrimado a um grosso bordão. Havia cólera na sua voz ao interpelar os recém-chegados:
— Com que direito entrastes nos meus domínios?
O outro homem sentiu-se ofendido com aquele tom e indagou com altivez:
— E quem sois vós para me fazerdes semelhante pergunta?
O velho bateu com o bordão na terra:
— Sou o dono de tudo isto... de todo este plaino... Do tremoceiro, que plantei por minhas mãos... das árvores que há em redor...
— E nós somos viandantes... ou para melhor dizer: perseguidos injustamente por delitos que não cometemos...
O velho resmungou, num ar de suspeita:
— Talvez assassinos… ou ladrões...
Desta vez, com grande espanto do próprio velho, foi a criança quem o interrompeu, numa vozita indignada:
— Senhor! Estais a insultar meus pais e eu não poderei admitir-vos...
O senhor daquela terra sorriu, irónico, mas a sua voz perdeu o tom colérico:
— O quê? A formiga já tem catarro? Era o que faltava… uma fedelha a atravessar-se no meu caminho!
O viandante curvou-se:
— É uma criança que fala pela voz da verdade! Não tendes o direito de insultar-nos!
Então, a cólera voltou a apossar-se do velho. A sua expressão tornou-se dura:
— Fora daqui! Ouvis bem? Fora daqui! Não vos quero ver mais nos meus domínios!... Saireis a bem... ou à força!
Altivo, o homem que viera de longe retorquiu:
— Pois já que nos ameaçais... dir-vos-ei que só à força sairemos... se tiverdes poder para isso!
O grosso bordão do velho bateu com mais vigor ainda na terra.
— Já que assim o quereis... assim o tereis! Os meus homens não tardarão a expulsar-vos!
E, ditas estas palavras, ele voltou costas, meteu-se na velha carroça que o esperava — e abalou...

Mas, pouco tempo depois, voltou com muitos homens armados. A família que viera de longe e acampara ali para encontrar paz e descanso recolheu apressadamente à sua carruagem. A vida estava em perigo e era necessário, mais uma vez, defendê-la.
Com voz cansada e triste, a pobre mãe murmurou numa queixa:
— Meu Deus! Porque somos tão perseguidos? Não fizemos mal algum e todos nos odeiam! Porquê, meu Deus?... Porquê?
Mas já o marido lhe recomendava, enérgico:
— Defende tu aí essa entrada... Eu ficarei aqui a aguentá-los! Não se dirá que um fidalgo como eu se rendeu pela força...
Um grito abafado veio cortar-lhe o pensamento. Ele olhou a mulher que mostrava uma expressão apavorada.
— A nossa filha?.. A nossa filha onde está, que não a vejo?
Ele inquietou-se:
— Mas... vi-a há pouco, junto de ti!
— Sim… enquanto estávamos descansando... Mas agora... Agora não sei dela!...
O homem rangeu os dentes:
— Ah, miseráveis! Se derramam uma gota de sangue que seja da minha filha, hão-de pagar-mo bem caro!
 
Entretanto, indiferente ao perigo, a criança tinha atravessado por entre os homens armados e avançara, devagar, como um pequeno gato, ao encontro do velho chefe. Quando este a viu perguntou, espantado:
— Tu? Aqui? Como ousaste?
A pequenina sorriu com candura:
— Com a ajuda de Deus, meu senhor... Preciso falar-vos!
— Falar comigo?
Havia desconfiança na voz do velho.
— Ah! Não será uma armadilha?
A rapariguinha abriu os olhos num espanto. Num espanto e num sorriso.
— Armadilha? Oh... Não! Não poderia fazer-vos mal... Sou tão pequena ainda...
O velho pareceu cair em si. Franziu as espessas sobrancelhas esbranquiçadas e a sua voz soou melhor aos ouvidos da menina:
— Perdoa-me! Tens razão! Portei-me agora com insensatez. Diz lá o que pretendes...
Ela mostrou-se alegre.
— Sabei, senhor… que estive a pensar numa coisa!...
— Tu... a pensar? E que foi?
— Ora... Pensei que em volta duma árvore tão bonita como aquele tremoceiro podia construir-se uma povoação também bonita e grande... capaz de causar inveja às outras povoações...
Foi a vez do velho sorrir à criança.
— Não é mal pensado! Mas como havemos de a construir?
— Com boa amizade e paz.
O velho repetiu as mesmas palavras. Pensativo. Como num eco do seu próprio pensamento.
— Com boa amizade e paz…
Então a pequenita prosseguiu com entusiasmo, vendo que a luta se mantinha suspensa, esperando ordem de ataque.
— Sabei que o meu pai é um grande construtor. A minha mãe ajuda-o em tudo… Se o senhor quisesse… eles poderiam construir aqui uma cidade, dirigindo e aproveitando o trabalho dos seus homens…
O velho olhava-a espantado. Meneava a cabeça como que duvidoso do que ouvia.
— Ora esta! Uma catraia como tu... com uma ideia tão grande! Donde te veio semelhante pensamento?
Ela sorriu, ingénua.
— Foi Deus Nosso Senhor quem mo deu!
Houve um momento de silêncio, em que o olhar do velho ficou a perder-se no vasto horizonte. Depois, tomado de súbita energia, gritou para os seus homens:
— Basta! Pensei melhor e não atacaremos… Podem retirar-se. Daqui em diante, todos seremos bons amigos e companheiros!
E nesse mesmo dia, com grande jubilo do casal foragido — que voltara a ter junto de si a filhinha adorada mas ignorava ainda tudo quanto se havia passado — o velho chefe procurou o marido e a mulher. Porém desta vez chegou sorrindo:
— Venho em missão de paz e amizade!
A mulher respondeu-lhe, já com voz serena:
— Sede bem-vindo, senhor!
Afável também, o homem que viera de longe quis demonstrar o seu desejo de confraternização.
— Tomai um pouco de sombra do tremoceiro!
O velho acrescentou intencionalmente
— Do «nosso» tremoceiro — quereis dizer!
— Como?
— De hoje em diante, o tremoceiro pertencerá a todos nós... Sei que sois um grande construtor e vós, senhora, extraordinária ajudante...
O homem interrompeu-o, perplexo:
— O quê?... Decerto estais enganado, senhor! Fui, sou e serei unicamente um fidalgo... E esta é a minha esposa, à face de Deus e dos homens!
— Mas... a vossa filha disse-me...
Houve um leve sorriso nas expressões do casal.
— Compreendo agora, senhor! A nossa filha tem uma imaginação prodigiosa e vós… acreditastes...
O velho olhou a criança. Ela encolheu-se um pouco, entre envergonhada e receosa...
— Uma fedelha destas a enganar um velho como eu! Mal posso acreditar...
Mas a sua voz tinha um tom bonacheirão. Cheirava a simpatia. E a pequena ladina pareceu ficar logo mais à vontade. Segurou carinhosamente nas mãos do velho e falou devagar, espiando as reacções dele:
— Oh, meu Senhor... eu não vos enganei... Reparai no que vos disse: Com o auxilio de todos, poderemos construir uma grande povoação à volta do tremoceiro... Pois não é verdade?
O velho voltou a sorrir.
— Tens razão... O que é preciso é haver boa amizade e paz!
E sublinhou, puxando-a para si com ternura:
— Hoje mesmo começaremos todos a construir a nossa terra!
 
Dentro em breve, o sonho da rapariguita começou a transformar-se em realidade. Com a ajuda de todos, trabalhando esforçadamente de sol a sol, a povoação ia criando as suas primeiras casas e a sua primeira rua.
Agora, sim, graças à esperteza e à iniciativa da filhinha, o casal foragido sentiu que conquistara de novo a felicidade.
E a estimular ainda mais os infatigáveis obreiros da nova povoação, o velho chefe voltou alvoroçado duma das suas viagens habituais.
— Escutai, amigos! Escutai! Boa nova para todos nós! El-rei D. Afonso III acedeu a dar foral à nossa terra!
Foi uma alegria. Houve abraços e beijos. Vivas e palmas. Dançou-se e cantou-se, como se todos fossem irmãos.
Depois, o velho chefe reuniu-os de novo e falou solenemente:
— Temos de dar um nome à nossa terra... Um nome bonito, sonante, que fique para a posteridade... Qual deve ser esse nome?
As opiniões começaram logo a dividir-se. Cada um dava a sua ideia. E a ideia de cada um era sempre melhor do que as ideias dos outros... Depressa se estabeleceu a barafunda, até que o velho chefe, com a sua autoridade incontestada, resolveu intervir:
— Calai-vos! Assim nada conseguiremos. A mim, parece-me que só há aqui uma pessoa capaz de nos indicar um nome bonito... Sabeis a quem me refiro, com certeza. A ela devemos a ideia feliz da fundação da nossa terra. Pois que nos dê também um nome para ela.
Todos se voltaram para a rapariguita. De acordo. Esperando. Um pouco intimidada por tão grave responsabilidade, mas sempre sorrindo, como fazia nas ocasiões de perigo, a menina avançou por entre os homens e as mulheres que a olhavam ansiosamente e falou. Falou sem tremer a voz. Falou como se estivesse a repetir uma lição já decorada:
— Bem... Se desejam que seja eu a dar o nome à nossa terra... parece-me que o melhor é pôr-lhe um nome que lembre aquela árvore a que devemos tão boa sombra... Foi a única que sempre aqui nos acompanhou, tal como o Sol e como a Lua... Eu acho portanto que a nossa terra se deve chamar Estremoços!
Houve um momento de pasmo. E de silêncio. A rapariguita falara tão bem, tão bem, que estavam todos maravilhados.
E foi afinal o velho chefe quem tomou a palavra em nome de todos:
— Muito bem!... A garota falou como uma pequena sábia... Na verdade, devemos dar à nossa terra o nome do fruto abençoado que tanto nos ajudou. Os estremoços foram o pão nosso de cada dia... Pois também nós seremos sempre leais aos bons estremoços!
E a terra ficou a chamar-se Estremoços — ou, melhor ainda, a Terra dos Estremoços, como então se designavam em linguagem popular os tremoços de hoje... E o seu brasão inicial compôs-se precisamente de um tremoceiro, tendo por cima o escudete das quinas e em redor o Sol e a Lua... a perpetuar assim pelos séculos fora as palavras daquela garota de imaginação prodigiosa que falara, de facto, como uma menina sábia...
Depois, com o correr dos tempos, tudo se foi alterando... O nome dos estremoços passou a ser apenas tremoços... E a Terra dos Estremoços (ou de Estremoços, como a designaram mais tarde), acabou por se transformar na cidade de Estremoz, que se ergue hoje, altaneira, em pleno distrito de Évora, como uma sentinela do Alentejo.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 43-48

Place of collection-, ESTREMOZ, ÉVORA

Narrativa

When XIII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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