Lenda dos Raminhos de S. João

APL 2888

S. João é um dos santos populares. Com ele brinca e alegra-se o povo no seu dia, com o à-vontade de quem festeja um amigo. Ora acontece que onde há tradição há lenda. E assim são inúmeras as que surgem por esse Portugal fora sobre o santo mais festejado pelo nosso povo. Eis o que se conta dos tradicionais raminhos de S. João, em Cambas, freguesia do concelho de Oleiros.

Na aldeia havia grande efervescência. Chegara-se à véspera do dia de S. João. Embora a manhã viesse alta, já novos e velhos estavam levantados. Havia muito que fazer: preparar as brincadeiras, o baile, a fogueira para a noite.
Luzia, cachopa bonita, estava prometida a José, o moço mais brioso daqueles sítios. Mas uma tristeza mesclada de raiva tirava o ânimo ao jovem lavrador para ajudar os seus companheiros. Sofria. Sofria amargamente, porque Luzia andava com o olhar distante, o pensamento arredio. E ele sabia porquê. Um mês atrás surgira não se sabe donde outro jovem de bela aparência. Aparecia todas as tardes, ao sol-pôr, montado num soberbo cavalo negro. Procurava a casa de Luzia e falava com ela. A conversa não era a de um enamorado. Mas sentia-se a pretensão de a conquistar. Daí o ciúme e a revolta de José. Porque razão Luzia vinha sempre à porta falar ao desconhecido? A aldeia já murmurava. Era necessário tomar uma atitude.
Fechando os punhos num gesto de desespero, José respirou fundo a tentar dominar-se. Pensava para si próprio: «Hoje tem de ser! Ela terá de decidir-se.»
E encaminhava-se, quase sem dar por isso, para casa de Luzia.
Pisando com força o chão, fazia fugir o pó em bailados estranhos. Mas o pó voltava a anichar-se nas botas e nas calças do rapaz. Nunca a distância da sua casa à da sua prometida lhe parecera tão curta. Tinha a sensação de ter voado. Latejavam-lhe as fontes. Batia-lhe forte o coração.
Luzia estava junto da janela aberta, contemplando o novo dia. Sorriu-lhe quando o viu. Mas ele não. Dirigiu-se-lhe com certa dureza:
— Luzia, quero falar contigo!
Ela fingiu-se admirada:
— Que aconteceu?
Com a mesma rudeza na voz, ele retorquiu:
— Algo se está passando. E eu preciso esclarecer-me.
— Pois fala.
— Quero ver-te bem. Vem à porta. Preciso ter a certeza de que me não mentes.
Luzia deixou de sorrir. Abriu a porta da rua e deixou que o sol a beijasse.
— Aqui estou pronta a responder-te.
— Jura que vais ser sincera!
— Juro!
Ele olhou-a demoradamente. Olhos nos olhos, sem deixar que ela se afastasse. E só depois perguntou:
— Quem é esse homem que vem falar-te todas as tardes?
Ela perturbou-se, embora já estivesse certa do que seria a pergunta. Mas respondeu convicta:
— Não sei!
— E que pretende esse cavalheiro?
— Também não sei!
— Nunca te falou de amor?
— Vagamente.
— E ele sabe que vamos casar?
— Sabe. Já lho disse.
— E que respondeu?
— Que o destino de cada um pode ser alterado, se houver força para o conseguir.
— Qual foi a tua atitude?
— Não respondi.
— Portanto… ele tomou isso como uma aceitação.
— Não creio!
— Pois creio eu! E julgas que vou continuar a ser alvo do escárnio dos outros?
Ela afligiu-se:
— José, peço-te! Ajuda-me!
— Ajudar-te em quê?
— A desembaraçar-me desse homem!
— Pois é fácil: manda-o embora! Diz-lhe que não queres falar mais com ele!
Ela confessou, aterrada:
— Não posso!
José olhou-a de novo, olhos nos olhos.
— Não podes? Ora essa! E porquê?
— Não sei! Há no seu olhar uma força estranha que me deixa atordoada.
José ia falar, mas Luzia tomou-lhe uma das mãos, num arrebatamento.
— Não é o que tu pensas! Juro que não o amo, pois só a ti desejo para meu marido!
O rapaz não se deixou convencer.
— Luzia! Estás a querer tomar-me por parvo?
Ela abanou a cabeça, num aceno negativo. Havia aflição no seu olhar, na sua voz.
— Acredita em mim, peço-te! Não amo esse homem. Tão-pouco o admiro. Causa-me medo, podes crer. Um medo horrível, e também não sei porquê. Mas não consigo furtar-me à sua presença. Mal o oiço, fico inquieta e tenho de lhe abrir a porta!
José, de sobrancelhas franzidas, escutava Luzia com assombro. Desta vez não duvidava de que ela falasse com sinceridade. Mas a que atribuir esse domínio de um desconhecido sobre a vontade da rapariga?
José olhava a noiva, silencioso, pois não atinava com o que verdadeiramente desejaria dizer Luzia, lágrimas nos olhos, coração batendo, voltou a falar:
— José! Acredita em mim!
O rapaz olhou a aldeia que se estendia à sua frente. E completou alto o seu pensamento:
— De que servirá eu acreditar? Os outros não compreenderão que não tenhas coragem de o mandar embora. Por isso...
Não completou a frase. Ela, assustada, obrigou-o a concluir o pensamento:
— Por isso… o quê?
— Deixarei de vir falar-te… até que esse homem não volte mais aqui!
Luzia baixou a cabeça. As lágrimas correram-lhe pelo rosto. Mas quedou-se silenciosa. E foi em silêncio, também, que José se afastou.
 
O fumo subia no ar. As fogueiras acesas nas ruas davam à aldeia um aspecto estranho. Rapazes e raparigas cantavam alegres:
 
Ó meu S. João Baptista,
Ó meu Baptista das flores,
Na noite do vosso dia
Hei-de tomar-me de amores!
 
Luzia, arredada das outras raparigas, não quisera entrar na marcha. Era quase meia-noite. Ela sabia que assim que o arraial terminasse todas as suas companheiras correriam à fonte para molharem o rosto e beber água — segundo a tradição. Mas Luzia já tinha o rosto molhado pelas suas próprias lágrimas. Não vira, sequer, o José. Ele, que era sempre dos mais divertidos e o que melhor cantava. Já não assistira à cavalhada. E todos sabiam porquê. Todos apontavam Luzia sem se apiedarem dela. Atormentada, viu e ouviu o rancho que passava à sua beira, a cantar:

Na fonte lavei a face
Na manhã de S. João,
Assim a água me lavasse
As mágoas do coração.

Luzia não pôde conter-se mais. Correu para a igrejinha e prostrou-se de joelhos. A porta estava fechada. Encostou o rosto à madeira. Soluçou. Do seu peito saiu um queixume:
— Ó meu S. João! Bem sabeis que quero livrar-me daquele desconhecido. Mas não sei como! Ajuda-me! Ajuda-me, por caridade!
Então, a seu lado uma voz soou:
— De madrugada, quando o arraial terminar, faz uma cruz de flores campestres e coloca-a à tua porta!
Luzia voltou-se admirada. Havia luar, mas estava ali sozinha. Amedrontou-se. Deixou de chorar e correu para junto das outras raparigas. Elas, porém, folgavam e riam sem lhe ligarem importância. Luzia começou a recuperar a calma. Foi buscar rosmaninho, cravos e malmequeres e fez com eles uma cruz. E silenciosamente dirigiu-se para casa, colocando a cruz à sua porta.
 
O dia de S. João nasceu claro, luminoso, quente. No coração da jovem Luzia começava a raiar também a esperança. Algo lhe dizia no íntimo do seu ser que daí em diante as coisas mudariam. Começou a ganhar confiança em si própria. Secou-se-lhe o pranto. Quase tinha vontade de cantar. Vestiu o seu vestido domingueiro. Pensou em descer ao largo e ir rezar à capela. De súbito, ouviu chamar pelo seu nome. Estremeceu. Era a voz do outro, do desconhecido. Estava lá fora e pedia-lhe que chegasse à janela. A voz insistia:
— Vem à janela, Luzia! Preciso falar-te.
Luzia aproximou-se. Com o coração a bater, mas animosa.
— Que me deseja?
O outro olhou-a. Um olhar faiscante.
— Abre a porta e leva estas flores daqui!
Luzia achou forças para perguntar.
— E porque hei-de levar as flores?
— Não as quero aí!
— Quero eu! A casa é minha!
— Mas tu hás-de pertencer-me!
Luzia surpreendeu-se a ripostar enérgica:
— Engana-se! Não o quero! Tenho o meu José! Pode retirar-se!
Ele gritou:
— Abre a porta!
— Não!
— Tira isso daí!
— A cruz de flores? Também não. Coloquei-a na porta para me proteger e proteger a minha casa.
Então, numa praga tremenda, o desconhecido montou no cavalo negro, que esperava impaciente, e desapareceu como levado pelo vento.
Atónita, Luzia não podia acreditar no que via. Mas teve, de súbito, a noção do que se passava. O desconhecido era o Demónio disfarçado de jovem bonito e elegante, que vinha tentá-la. E Deus havia-lhe dado o ensejo de o vencer!
Correu para a rua. Desceu a vereda que levava à igreja. Entrou nela ofegante. Caiu de joelhos. Orou cheia de unção. Da sua alma subia um cântico de louvor e graças a Deus e a S. João Baptista. A seu lado as mulheres olhavam-na estupefactas. E quando ela saiu vieram todas ao adro fazer-lhe perguntas. Na sua sinceridade ela contou, alegremente, o que lhe havia acontecido. E a nova espalhou-se de boca em boca.
À tarde, Luzia cantava, enquanto juntava rosmaninho e alfazema para as fogueiras:

Eu hei-de ir ao rosmaninho
Àquela terra de além
para acender as fogueiras
Ao S. João que lá vem.

Na noite de S. João
Fui falar ao meu derriço.
Pôs-se a Lua e o Sol nasceu,
Nenhum de nós deu por isso.

Sorrindo, José, que a espiava, oculto, respondeu na sua voz máscula, bonita:

Alfazema e rosmaninho
Numa cruz teu mal levou.
Foi S. João, com carinho,
Que de novo nos juntou!

Luzia voltou-se. Uma alegria imensa iluminou-lhe o rosto. O seu José estava ali, como dantes, ou mais amorável ainda. Deixou-se abraçar. Sentiu-se bem dentro dessas grades humanas. Que importava que os vissem assim? Iam casar. Casar brevemente. Antes mesmo que o ano findasse. Vencera o mal com a ajuda da Cruz. Agora, tinha a certeza de que seria feliz.
E conta a lenda que, desde então, ficou por hábito naquelas redondezas todas as raparigas casadoiras fazerem ramos de rosmaninho e flores campestres para oferecer a S. João no dia da sua festa, pedindo-lhe que as livre de todo o mal.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 275-280

Place of collection Cambas, OLEIROS, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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