Lenda dos Três Milagres

APL 2901

Ora, bem. Em tempos que já lá vão, na penumbra do passado, certo rei espanhol, desesperado por não ter descendentes, resolveu confiar os seus desejos ao próprio Céu. E como chegassem até ele notícias de que em Portugal — no sítio de Aldeia Rica, no concelho de Celorico da Beira — existia uma imagem de Nossa Senhora que operava milagres sem fim — o rei e a rainha pediram a Nossa Senhora que lhes fizesse o milagre de terem um filho... E o filho nasceu!

Porém, quis a fatalidade que a pobre criança se aleijasse, tornando-se num menino inválido, o que lançou novas amarguras no coração de seus pais.
A rainha lamentava-se tristemente:
— Meu pobre filho! Meu querido filho! Custa-me tanto vê-lo sofrer assim!
O rei abria os braços, molemente, num gesto de desânimo.
— Que mais podemos nós fazer?... Já chamámos todos os sábios... Já tentámos tudo... tudo!
Foi a vez de a rainha ter um breve assomo de energia:
— Tudo, não! Escutais bem o que eu digo? Tudo, ainda não!... Resta-nos ir pedir à Virgem, que no-lo deu... que o salve também!
E tamanha era a fé da sua expressão, tão vivo o fogo do seu olhar, que o rei se quedou, surpreendido e dominado, diante dela.
— Pois é possível?... Vós ainda acreditais noutro milagre?...
Ela ergueu o olhar para o alto e disse, como se falasse para o próprio Céu:
— E porque não? Só a Fé nos pode salvar, meu Rei e Senhor!
Ele voltou ao seu passeio agitado.
— Talvez… talvez a razão esteja convosco... Mas é muito perigoso expor assim a criança por esses caminhos... A tal Aldeia Rica de que nos falaram fica tão longe daqui!...
De novo estacou. Desalentado. Acabrunhado.
— Não considerais uma temeridade? Que terrível será, se sofrermos essa última desilusão!
A rainha, porém, insistiu:
— Por mim, farei a viagem toda, sem medo de sentir qualquer cansaço...
O seu olhar iluminou-se ao dizer:
— Essa Virgem é a mais milagrosa de todas de que tenho ouvido falar...
Com um gesto, indicou ao rei que se sentasse junto dela.
— Sabeis como apareceu?
E como o rei aquiescesse ao convite, ela continuou, num crescendo de entusiasmo:
— Eu vos conto... Um pastor passava por ali, um dia, com seu rebanho de vacas, quando uma das vacas caiu à água... Tresloucado, o homem correu atrás do animal e ficou em perigo de vida... Foi então que pediu a Nossa Senhora que lhe valesse... E assim aconteceu, na verdade... Por milagre divino, salvaram-se o pastor e a vaca... E a notícia do prodígio espalhou-se por muitas léguas em redor, de tal modo que o povo ergueu nesse mesmo local uma capelinha a Nossa Senhora...
O rei escutava-a em silêncio. Ainda trémula, ainda emocionada, a rainha ajuntou, como quem reza uma prece:
— Ah, se Ela quiser... se Nossa Senhora quiser... o nosso filhinho também se há-de salvar!
O rei tornou a erguer-se, pensativo.
— O que me dizeis, senhora, é realmente extraordinário... E há uma força íntima nas vossas palavras… um ardor no vosso olhar... que me fazem crer em tudo o que dizeis!
Depois de hesitar um momento, voltou a ser o monarca das grandes decisões.
— Pronto, Senhora. Faça-se a vossa vontade. Iremos em romagem, com o nosso filhinho, a Nossa Senhora dos Milagres!
Imediatamente el-rei deu ordens para a partida. Iriam apenas ele, a rainha, o pequeno príncipe e um grupo de cavaleiros fiéis e corajosos.
Porém, apesar de todo o segredo, o povo soube do caso e veio para a rua, silencioso e triste, desejar igualmente boa sorte ao principezinho e a seus pais, que assim partiram, entre lágrimas e bênçãos, a caminho da terra portuguesa...
 
Todavia, a fatalidade parecia persegui-los passo a passo. Quando já faltavam poucas léguas para chegarem à Aldeia Rica, o alarme soou imprevisto e fatal, espalhando a dor e o pânico.
Transtornado e violento, o rei fez sinal de que todos estacassem.
— Parem! Parem! Meu filho já não dá acordo de si... Está morto! Está morto, o meu filho!
Soluçando, perdida, a pobre mãe mais parecia mísera mulher do que poderosa rainha.
— Meu filho, meu querido menino!... Agora que faltava tão pouco... que estávamos quase a chegar!...
Batendo forte no peito, el-rei clamava, num desespero:
— Fui eu que tive a culpa... toda a culpa!... Sim… para que acedi eu aos vossos desejos?... Bem devia ter calculado que esta viagem podia matá-lo!
Sempre chorando, a rainha implorava:
— Oh, minha Nossa Senhora, porque consentistes nisto? Porquê, Senhora?... E eu que vos pedi com tanta fé, com tanta...
Mais não disse, pois as lágrimas lhe embargaram a voz. O rei resolveu então terminar de vez com tão triste provação.
— De nada vos servem as lágrimas, Senhora. Resta-nos enterrá-lo aqui mesmo.
Inesperadamente, essa frase deu novo impulso de coragem à pobre mãe amargurada.
— Não, isso nunca! Não consinto! Não posso consentir!
A sua excitação era tal que o monarca quedou perplexo.
— Que dizeis, Senhora?
Chamando a si todos os débeis laivos de coragem que lhe restavam, a rainha conseguiu dizer lentamente:
— Perdoai-me... mas na verdade não posso, não quero consentir que o nosso filho seja enterrado aqui, neste ermo...
Juntou as mãos em súplica, e acrescentou, novamente trémula e desfeita em lágrimas:
— Permiti, Senhor meu rei e meu esposo, que, apesar de tudo, eu leve o nosso filho aos pés da Virgem Santa... De qualquer modo, cumpriremos a nossa promessa!
Por instantes, de espantado que ficou, o monarca deu ares de recusar terminantemente tal pedido. Mas, por fim, como quem se abandona aos caprichos do destino, aquiesceu.
— Farei o que entenderdes, Senhora!... Já nada mais quero resolver. Depois de tudo isto, a fé morreu em mim... morreu com ele!... Prossigamos viagem, como desejais... E quanto mais depressa acabarmos, melhor!
Voltando-se para o resto da caravana comandou num berro.
— Vamos! A caminho!

Ao cabo de uma jornada angustiante, chegaram finalmente à pequena capela erguida pela fé do povo.
Logo a rainha desceu, levando nos braços o filhinho morto. E avançando devagar, quanto as forças lho permitiam, para a capela, clamava em voz mal segura e entrecortada pelo choro:
— Virgem dos Milagres... Aqui vos trago o meu filho, já sem vida, cuja esperança de salvação eu depositara em Vós, Senhora! Tinha tanta esperança que o salvásseis... e ele morreu pelo caminho… não aguentou a viagem... E eu aqui Vos deixo, Senhora, o meu querido menino... Fazei dele o que quiserdes... Dele e de nós, que somos Vossos escravos!
Depositou o corpo do jovem príncipe junto do altar da Virgem e ajoelhou, entregando-se ao lenitivo da oração...

Entretanto, o rei e os seus cavaleiros tinham-se afastado. Agora o rei, como dissera, não queria acreditar mais em milagres. Preferia dedicar-se à caça, para passar o tempo. A certa altura vieram dizer-lhe que um dos caçadores, transgredindo a lei, se atrevera a soltar um açor.
O rei imediatamente aproveitou o pretexto para fazer explodir todo o rancor armazenado em si.
— Pois esse miserável não sabe que os açores são aves sagradas para mim?... As mais belas aves do mundo!... Ele pagará o seu crime, e sem demora!
Cruzou os braços e ordenou com voz dura:
— Trazei-o à minha presença, e ele ficará a saber de uma vez para sempre que as minhas ordens não podem ser contrariadas!
Daí a pouco, o prevaricador estava diante do seu rei.
— Ah, foste tu... foste tu que tiveste o atrevimento de soltar um açor?
O homem suportou estoicamente o olhar raivoso do monarca, fez um gesto inútil para se libertar dos que o prendiam e disse devagar, em voz forte e calma:
— Sim, fui eu. E só tenho pena de não ter conseguido soltar também os outros açores!
Isso ainda mais enfureceu o rei.
— Estais a ouvi-lo, não é verdade?... Confessa tudo... e confessa até que o seu crime poderia ser maior, se o tivessem deixado!...
Deu um passo em frente, fitando o prisioneiro, sem piedade.
— E porquê?... Porque fizeste tudo isso, miserável?
O outro pareceu não se amedrontar com o tom da pergunta. Pelo contrário, limitou-se a sorrir. A sorrir e a afirmar, como quem presta um esclarecimento:
— Os açores fizeram-se para voar nos céus e não para estar presos!
Uma gargalhada ruim saiu do coração do rei.
— Imbecil! Mil vezes imbecil!... As filosofias não te salvam... Vais pagar com a vida o teu atrevimento!
O prisioneiro voltou a sorrir. Um sorriso sereno, tranquilo, sem espalhafato.
— Como quiseres, rei absoluto e tirano. Mas aquele açor que eu libertei e que vedes agora voando livremente no céu, esse, graças a Deus, não mais o apanharás!
O monarca não podia aguentar aquela imperturbável presença de espírito. Fez um gesto violento e deu a ordem final:
— Levem-no! E comecem já por lhe cortar a mão que deu a liberdade ao açor...
Tudo se preparou rapidamente para cumprir a ordem real. O caçador foi amarrado e somente lhe deixaram livre a mão que iam cortar.
Sem mostrar medo algum, o prisioneiro ergueu os olhos ao Céu.
— Minha Nossa Senhora, que se faça a Vossa Vontade... A vida para nada me serve... E, ao menos, consegui dar liberdade a uma das minhas aves... E quero também pedir-vos, Senhora...
Mas a voz exaltada do rei interrompeu-o, obrigando-o a calar-se.
— Que esperais, idiotas, para cumprir as minhas ordens? Não quero que a rainha assista a esta execução e ela está prestes a terminar as suas orações... Vamos, despachai-vos!... Cortai-lhe a mão!
Nesse mesmo instante, quando o machado já se erguia no espaço, o bonito açor, que voava no alto majestosamente, de súbito renunciou à liberdade e, com grande espanto de todos os presentes, veio pousar suavemente na mão livre do caçador.
Este deu largas à sua alegria enorme.
— Milagre! Milagre! Foi Nossa Senhora que me fez este milagre!
Nesse mesmo momento, a rainha surgiu. Emocionada. Correndo.
— Milagre, Senhor meu rei, grande milagre! Vede com os vossos próprios olhos... Nosso filho está vivo!... Vivo e completamente curado!
E apontando, a tremer, o jovem que se aproximava, balbuciou num fervor de risos e de lágrimas:
— Vede como ele anda!... Vede como ele sorri!...
Num êxtase de fé, a rainha caiu de joelhos, erguendo as mãos e os olhos para o alto.
— Foi um milagre de Nossa Senhora!
Ainda aturdido, o rei limitou-se a baixar a cabeça, como que vergado ao peso de um fardo oculto, e a confessar em voz baixa:
— Tendes razão, Senhora, tendes razão... Milagre maior ainda não vi... Insensato que eu fui em não acreditar!
Caiu também de joelhos ao lado da rainha, clamando para todos os outros:
— Ajoelhai, todos... fazei como eu!... De joelhos, no chão, junto da Rainha, para darmos graças a Nossa Senhora... mil graças por tamanho milagre!
Todos se ajoelharam e se mantiveram em oração muda e sentida. Depois o rei ergueu-se e ordenou, indicando ao caçador prisioneiro:
— Libertem esse homem imediatamente! E dai liberdade também a todos os açores... Os açores fizeram-se para voar nos céus, como ele disse, e muito bem... E fiquem todos a saber que hei-de construir aqui, em vez desta capelinha, como preito de homenagem e gratidão, a igreja de Santa Maria dos Açores!
 
Segundo tudo parece demonstrar, el-rei cumpriu a sua promessa. E ainda hoje lá está, na antiga Aldeia Rica, aí a uns oito quilómetros de Celorico da Beira, a igreja de Nossa Senhora dos Açores.
E a perpetuar a história dos três milagres, lá estão igualmente três bonitos painéis que representam «O Aparecimento da Virgem ao Rústico da Vaca», «O Açor Pousado na Mão do Caçador» e «O Filho do Rei, Já Ressuscitado».


Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 377-382

Place of collection Açores, CELORICO DA BEIRA, GUARDA

Narrativa

When XVIII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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