Lisboa (5) SENHOR DOS PASSOS, DA GRAÇA

APL 3261

Descreverei resumidamente a lenda maravilhosa d’esta devotissima imagem, famosa pelos grandes e numerosissimos milagres que lhe attribuem, e pela geral e indelevel devoção que lhe consagra todo o reino em especial os habitantes de Lisboa.
É a seguinte:
Pelos annos de 1585, vivia em Lisboa um pintor de pouco merito na sua arte, chamado Luiz Alvares de Andrade (talvez filho ou neto de Fernão Alvares de Andrade. )
Principiou Luis Alvares a fazer-se conhecido pela sua devoção em collocar retabulos das almas do purgatorio, já pintados em madeira, já em azulejos, pelas ruas da cidade, para sollicitar as orações dos fieis em beneficio dos que soffriam as penas do purgatorio.
Sabendo que na Hespanha se faziam procissoes na quaresma, representando os passos da paixão de Jesus Christo, pediu ás auctoridades ecclesiasticas que entre os portuguezes fosse tambem instituida aquella piedosa e commovente devoção.
Havia no claustro do mosteiro de S. Roque, uma capella da invocação da Santissima Cruz, e n’ella se juntavam alguns mancebos devotos, na maior parte artistas, que frequentavam muito os sacramentos da confissão e communhão.
Entre elles se distinguia pelo seu fervor, o nosso Luiz Alvares de Andrade, que persuadiu os mais a formarem uma confraria da Santissima Cruz; mas os frades (aos quaes se deu parte d’esta resolução) responderam que na egreja não havia altar disponivel, nem casa para as reuniões dos confrades; pelo que era melhor erigirem a confraria em outra egreja.
Foram os mancebos ter com os religiosos gracianos, que de boa vontade lhes deram a capella do cruseiro, do lado da Epistola, e alli se estabeleceu a confraria, que ainda existe e progride, com o mesmo fervor dos seus fundadores.
Foi talvez a circumstancia da negativa dos padres jesuitas de S. Roque, e a facil acquisciencia dos gracianos, n’esta materia, que deu origem á lenda que diz que:
Á casa professa de S. Roque chegou um peregrino (outros dizem um frade) a pedir agasalho, que não recebeu dos padres, por ser a horas em que a regra da ordem não permittia a entrada a pessoas alheias á communidade. Expulso assim, pelos jesuitas, a peregrino se foi em busca de outro convento mais hospitaleiro; e chegando ao da Graça, alli foi recebido e agasalhado com deferencia e caridade.
Esteve aqui o peregrino cinco dias recolhido, e, no fim d’elles, desappareceu, sem que os frades podessem saber como, achando em seu logar uma imagem de Jesus Christo, representando o passo doloroso, da sua hida para o Calvario.
Segundo a mesma lenda, d’aqui nasceu a devoção do Senhor dos Passos da Graça; recebendo os religiosos um grande premio da sua caridade para com o peregrino, não só na grande fama e concorrencia que o Senhor dos Passos attrahiu á sua egreja, como do grande valor das continuas e avultadas esmolas que offereciam á egreja.
Até aqui a lenda: a historia porém é a seguinte
Viera por esse tempo a Lisboa, offereeer os productos da sua arte, um esculptor italiano, cujo nome se ignora.
Luiz Alvares de Andrade lhe comprou uma cabeça de Jesus Christo, por tres crusados, e a foi offerecer aos padres de S. Roque, para com ella formarem a confraria dos Passos, o que elles regeitaram. Alvares foi fazer a mesma proposta aos gracianos, que promptamente a acceitaram. Organisaram (de roca) e vestiram a imagem, collocando-a no altar que lhe destinaram e onde hoje a vemos, erigindo-lhe irmandade, na qual se inscreveu a familia real e a mais alta nobreza d’este reino.
Vendo os jesuitas a grande devoção creada por a imagem do Senhor dos Passos da Graça, e, sobre tudo, as grandes esmolas e offertas que a egreja recebia, moveram demanda aos gracianos, fundando-se em um pretendido direito de prioridade á imagem por lhes ter sido offerecida em primeiro logar.
Debatida a. questão nos tribunaes, foi resolvido que ficassem os graciano na posse da imagem, sob a condição de – na vigilia da segunda sexta-feira de quaresma, viesse a S. Roque, ficando a pertencer-lhe se pernoitasse n’este templo além de sexta-feira.
Desde 1578 se tem feito esta devotissima procissão até aos nossos dias, quaesquer que sejam as circumstancias em que se ache a cidade de Lisboa, e sempre com o cuidado de não deixarem a imagem em S. Roque, além do termo da prescripção.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo IV, pp. 241-242

Place of collection Graça, LISBOA, LISBOA

Narrativa

When1585

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications