Lobisomens

APL 1951

(...) não te lembras do Ti coiso, que trabalhava no Carrascal, como é que ele se chamava? Que é das Alvogas. Ele era lobisome.
 (...) Não me lembra o nome do home... Esse era lobisome! Sabiam que ele era lobisome (...). Quando chegava àquela hora, àquela altura, iam prá praia das maçãs comer cabeças de sardinha.
 Iam em traje de burro ou de macho ou outra coisa qualquer (...) transformavam-se em traje de burro ou de macho.
 Uma vez havia um patrão. Isto contava o meu pai que Deus tem, já foi há tanto ano! Havia um patrão que tinha moços (naquele tempo era moço agora é empregados, não é) mas tinha aqueles moços, contratados, para estarem ali ao mês, pediam e dava aquele ordenadozito (eles lá ganhavam pouco) e então um era lobisome, e os colegas diziam que áquela hora saía. Àquela hora saía e depois demorava-se e depois aparecia. Eles um dia combinaram, (o patrão tinha um cavalo, e era numa quinta) e eles combinaram: “Deixa estar que ele agora em saindo..” [Eles naquela encruzilhada largavam o fato e transformavam-se ali em animais e fugiam]. E eles combinaram, a cavalo num cavalo com uma agulhada (...) virou-lhe o fato e veio direito a casa e quando chegou ao portão estavam os outros dentro do portão, assim que ele entrou fecharam logo o portão e ele bateu logo ao portão e disse “Ah, ladrão, se eu te apanhasse, matava-te!” Nunca mais foi lobisome! (...) tinham era pena deles, que era aquela sina. Aquela sina... (...) Não, às pessoas eles não faziam mal. Diz-se que eles iam para lá comer cabeças de sardinha, lá para a praia das Maçãs, ou o que era.. Mas ele assim que ele virou o fato ele lá lhe deu o faro daquilo veio logo quanto podia, os outros a fechar o portão e ele lá com aquelas patas de animal, não sei de quê, no portão a dizer. “Ah, ladrão, se eu te apanhasse, matava-te!” E pois ficou todo contente, agradeceu muito aos outros. Ficou livre, nunca mais foi lobisome.»

Fonte Biblio SILVA, Margarida Moreira da É por aí voz constante... e o povo sabe quando diz... Loures, Museu Municipal de Loures, 2007 , p.63-64

Place of collection-, LOURES, LISBOA

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications