Louza (3)

APL 3271

Ainda que a lenda contada por Miguel Leitão de Andrade tenha seu tanto ou quanto de maravilhoso e inverosimil, julgo não dever privar d’ella os meus leitores. Eil-a:
Pelos annos 3925 do mundo (79 antes de Jesus Christo) e no tempo do grande Sertorio, estando muito descançado e desappercebido, na sua cidade de Conimbriga (Condeixa-a-Velha) que era então porto de mar, o opulento rei Arunce, a princeza Peralta, sua filha e a côrte; surgiu alli, em uma poderosa armada, guarnecida de grande numero de guerreiros, um poderoso conde estrangeiro (não se sabe d’onde.)
Vinha com proposito de saquear o rei e a cidade, pela fama das grandes riquezas que aqui havia. Desembarcou com a sua gente, e atacando a cidade descuidada, espalhou n’ella o terror e a desolação, roubando tudo o que era de valor.
(Diz M. L. de Andrade, que desde então é que Conimbriga se ficou chamando Condeixa, nome derivado do tal conde pirata! – Segundo o mesmo escriptor, esta Conimbriga primittiva era ao O. da segunda, que depois se fundou no logar da actual Condeixa Velha.)
Tal foi o estrago que o conde e os seus fizeram n’aquella insigne e populosa cidade (metropole do reino do mesmo nome) não perdoando a gente nem a edificios (alguns dos quaes eram sumptuosissimos) que não ficou pedra sobre pedra, não se tornando a reconstruir.
Foi tal o terror dos habitantes que poderam escapar a esta devastação, que nunca mais quizeram habitar aquella cidade, nem mesmo n’ella tornar a entrar.
O rei Arouce fugiu com sua filha pela terra dentro (que então era quasi despovoada) e se veio esconder em um castello que edificou, quasi nas entranhas e coração de umas serras, entre vastissimos e serrados arvoredos; e lançando fama de que se hia para a Africa a pedir socorros, afim de recuperar o perdido reino, metteu no castello a princeza, com varias pessoas de sua casa e a parte do que podéra salvar dos seus thesouros, pois julgava que a tinha aqui segura dos ataques dos seus inimigos; tanto pelo castello ser forte e mettido no mais escondido da serra, como por estar quasi feito ilha, cercado de uma ribeira muito fresca, a qual tambem, como o castello, tomaram o nome d’este rei.
Para maior segurança dos seus receios e temores, deixara sim alli sua filha e thesouros, e com elles o coração, mas fez encantar o dito castello, com todas as riquezas que n’elle deixou; e que algum dia será encontrado por quem tiver a ventura de poder desencantar a princeza e tudo o mais.
(É por isto que o povo rude d’estes sitios, em busca de thesouros que estão encantados no castello, o teem em grande parte destruido, com as suas repetidas escavações.)
M. L. d’Andrade narra em seguida, pelo decurso de 20 paginas, as tristezas, amores e suspiros da princeza encantada, e o mais que foi succedendo às pessoas que com ella estavam reclusas no castello.
Falla das grandes esperanças que Sertorio alimentou de vir um dia a haver as grandes riquezas do rei Arunce, casando com a princeza.
Revela a traça que Sertorio emprehendera, para poder ser correspondido; enviando d’Evora, para esse fim, o triumviro Estella, o qual, chegando á serra (da Louzan) que dominava o castello, ahi estabelecera o altar para as festas e sacrificios aos seus deuses, e d’este modo conseguira chamar a attenção de Peralta, communicando-lhe depois os seus intentos e esperanças.
Parece que esta ára ou altar, era no sitio ainda chamado Altar de Trivim (corrupção de Altar do Triumviro) ponto culminante da serra, a um kilometro acima do nivel do mar.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo IV, pp. 473-474

Place of collection Condeixa-A-Velha, CONDEIXA-A-NOVA, COIMBRA

Narrativa

When Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications