Madeira para Santo Cristo

APL 1239

No século dezasseis, no tempo em que Madre Teresa realizava o sonho de construir uma capela nova para Santo Cristo, faltavam constantemente dinheiro e materiais, embora as pessoas fizessem muitas esmolas.
 Um dia, Madre Teresa estava do lado de fora do convento, vendo o andamento das obras, quando viu um homem à frente de um carro de bois carregado de madeira. Madre Teresa, com o seu jeito humilde, mas decidido, dirigiu-lhe a palavra:
 — Ah, o senhor se deixasse aqui essa madeira, fazia uma grande esmola. Não temos madeira nem dinheiro para a comprar...
 O homem ficou estupefacto com o pedido e, mesmo com todo o respeito que tinha por Madre Teresa, respondeu:
 — Ó madre, deixar esta madeira?!... Isto é uma madeira que tem um valor medonho e já tem dono. Como é agora deixar esta madeira aqui?!
 Tocou os bois com a aguilhada e foi-se embora, enquanto a santa freira, sem lhe dar resposta, ouvia dentro de si uma voz que lhe dizia:
 — Cala-te, que ele vai vir trazer a madeira.
 Na altura as ruas da cidade eram térreas e, no Inverno, com as chuvas e as beiras das casas a pingar, eram quase um pântano lodoso, escorregadio e perigoso. O homem ia por essas ruas fora e, a certa altura, os bois, embora espicaçados pelo homem, não conseguiam avançar porque tinham os pés entalados até ao joelho e o pesado carro tinha as rodas metidas no lodo até meio. O homem resolveu e foi chamar gente para o ajudar, mas, por mais força que fizessem, não conseguiam tirar nem o carro nem os bois dali. O homem já estava desesperado porque, se os animais quebrassem as pernas, lá se ia o seu ganha-pão. Virou-se então para o céu e pediu:
 — Ó Senhor Santo Cristo da minha alma, tirai-me estes boizinhos daqui para fora a salvamento que eu prometo que Vos vou levar esta madeira toda para a Vossa capela.
 Mal tinha acabado de dizer estas palavras, os bois começaram a andar. O homem ficou cheio de alegria e assim que pôde virou o carro para trás e foi levar a madeira toda a Madre Teresa.
 A freirinha muito agradeceu, mas não estava muito admirada porque tinha fé na voz que tinha ouvido e estava certa que aquilo ia acontecer.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.63

Place of collection-, PONTA DELGADA, ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)

Narrativa

When XVI Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications