Milagres de Santo Antonio

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Quando Santo Antonio era ainda menino já então fazia milagres que causavam a admiração de toda a gente que os presenceava.
 Entre muitos outros contam-se os seguintes:
 Em certo dia a mãe do Santo acabando-se-lhe a lenha no canto da lareira, mandou-o á outra banda do Tejo buscar um feixe de lenha.
 Antonio atravessou o Tejo em um bote e pediu ao barqueiro que o esperasse á volta para o passar para o lado de cá a fim de regressar a casa.
 Logo que chegou ao outro lado do rio apanhou e enfeitou uma porção de lenha, e, levando o feixe, ás costas, dirigiu-se á borda do rio para se meter no bote e passar para Lisboa. Porém o barqueiro já ali não estava.
 Por influencia do Maligno abandonara o bote para que a pobre criança se perdesse entre os mataques e fosse devorada pelas féras.
 Era já quasi sol ido, aproximando-se a noite a passos largos, por isso o pequenino Antonio, em grande aflição, lembrou-se de invocar o auxilio do Menino Jesus, com quem tinha especial devoção, o qual logo ali lhe apareceu, dizendo ao Santo, depois deste o tomar nos braços:
 — Não te aflijas por não teres bote para atravessar o rio; deita á agua o feixe de lenha e assenta-te sobre ele, que eu servirei de barqueiro e conduzirei o feixe ao outro lado.
 Assim sucedeu: deitando o feixe á agua, assentou-se em cima dele Santo Antonio, levando ao colo o Menino Jesus, começando logo o feixe a cortar a corrente de aguas, até que aportou á margem do Tejo do lado de Lisboa.
 O Menino de Jesus desapareceu, emquanto o Santo dava graças a Deus e se dirigiu com o feixe para casa dos pais.
 Em outro dia havia nos arredores de Lisboa uma festa, a qual os pais de Santo Antonio tencionavam assistir para cumprirem uma promessa que haviam feito. Era no mês de Maio, e o pequeno Antonio ocupava-se nesse tempo em guardar a ceara de trigo dos pais, espantando a passarada que a ela ia comer e destruir os bagos das loiras espigas.
 Como desejasse acompanhar os pais pediu-lhes para o levarem consigo á festa, mas eles, com o pretexto de o trigal não poder ficar sem guarda, não consentiram que ele fôsse, e lá marcharam para cumprirem a promessa, indo o Santo para o campo guardar a ceára. Uma vez ali pôs-se a pensar, e depois de reflectir disse:
 Como a recusa dos meus pais foi motivada sómente por causa dos passaros, posso ir ter com eles se fechar na casa desta propriedade todos os passaros que existem nestas redondezas.
 Depois de fazer oração começou então a dizer em voz alta:
 Vinde a mim todos os passarinhos que existem nestes campos e vales mais proximos.
 Começaram então a chegar ali grandes bandos de passaros, que o Santo á maneira como eles iam chegando, ia mandando para dentro de casa; e, uma vez todos entrados, fechou a porta da casa, levando a chave no bolso, e foi á festa encontrar-se com os pais. Estes, ao vê-lo, censuraram o seu procedimento por ter deixado os passaros á vontade na ceára; mas ele socegou-os dizendo-lhes que estivessem descançados quanto a isso, porque os passaros estavam todos fechados na casa da ceára, de que trazia a chave na algibeira.
 A’ volta, os pais, para se certificarem do que o filho afirmara vieram com este pela ceára. Ao chegarem ali, foi S. Antonio abrir a porta da casa, donde sairam bandos de passarinhos que voaram em todas as direções pelo espaço, chilreando, e tantos eram eles que cobriram a vista ao sol! Os pais vendo que só por milagre se poderia fazer um acto daqueles, louvaram o filho e agradeceram a Deus.
 Nas suas brincadeiras infantis com duas primas que tinha, dava a preferencia em tudo á mais pequenina delas, que tinha o cabelinho louro e anelado, dando-lhe o aspecto de um anjinho do ceo.
 A prima mais crescida invejava aquela preferencia e amuava-se frequentemente quando ouvia o primo dizer que gostava muito da mais nova por ter o cabelo como o dos anjinhos, até que em um dia, num acesso de zanga e de inveja, lançou mão de uma tesoura e cortou as tranças do louro cabelo da pequenina!
 Esta, vendo-se privada das suas lindas tranças, desatou a chorar num berreiro de ensurdecer, mas pouco durou esse pranto, porque Santo Antonio, apanhando do chão as tranças pegou-as novamente ao cabelo donde haviam sido cortadas, com o que todas ficaram muito alegres, incluindo a invejosa, que, arrependida da má ação que praticara, pedira, perdão a Deus e aos primos desse mau, acto, ficando todos amigos.

 

Fonte Biblio SERRANO, Francisco Elementos Históricos e Etnográficos de Mação Mação, Câmara Municipal de Mação, 1998 [s/d] , p.158-160

Place of collection-, MAÇÃO, SANTARÉM

Narrativa

When XX Century, 30s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications