Nossa Senhora da Lagoa ou das Neves

APL 172

Contra o costume, pois nem sequer pelas companheiras esperara nesse dia, uma pastorinha de Santa Maria de Aboim foi mais cedo para o monte da Lagoa apascentar o rebanho que ordinariamente estava entregue aos seus cuidados.
 De repente e com manifesta surpresa da rapariga, cai sobre a serra uma forte nevada que originou a pequenita perder de vista as ovelhinhas. Procurando por aqui e por, ali, foi encontrar os animaizinhos aconchegados ao redor de um escalheiro, em cujos ramos se abrigava uma imagem da Virgem.
 Maravilhada com tão imprevisto achado, carinhosamente o oculta sob as abas do mantéu, não fossem, às vezes, as companheiras, que já próximo se encontravam, à guisa de curiosidade, interromper-lhe os propósitos que a animavam de, em recolhido ambiente, agradecer a Nossa Senhora a surpresa que lhe proporcionara. E pedindo às amigas que lhe vigiassem o rebanho, pois não tardaria de volta, para o povoado se encaminhou.
 Chegando a casa, colocou a imagem no cesto das fusadas; e perante ela rezou Avé-Marias sem conta, até adormecer. E sonhou que a Virgem lhe dizia não querer ficar ali, mas sim em capelinha erguida no lugar onde a descobrira.
 De repente, a pequenita desperta; e quando se propunha continuar a reza, até aí interrompida pelo sono, fica muito pesarosa, porque a imagem havia desaparecido.
 Toda lacrimosa, volta para o monte não só em busca das ovelhas, não se tivessem tresmalhado por descuido das companheiras, como na esperança de que encontraria Nossa Senhora.
 De facto, junto ao escalheiro, de novo lhe apareceu a Senhora, agora a consolá-la com animadora promessa: — Não chores — dizia-lhe — porque cedo me verás todos os dias.
 Queria a Virgem que o povo se convencesse da realidade da aparição e por isso garantiu à pastorinha que enquanto ali lhe não construíssem uma ermida a neve não desapareceria do lugar.
 Erguida a capela, imediatamente se sucederam as graças que originaram muitas esmolas, à custa das quais se levantou um grandioso santuário, extraordinariamente concorrido, como a quadra popular o afirma.

Ó Senhora da Lagoa
Viradinha p’ro nascente!
Os milagres que fazeis
Trazem aqui toda a gente.

 

Fonte Biblio COIMBRA, Artur Ferreira Fafe, a Terra e a Memória Fafe, Câmara Municipal de Fafe, 1997 , p.324-325

Place of collection Aboim, FAFE, BRAGA

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications