Nossa Senhora das Entráguas

APL 3483

A Ermida de Nossa Senhora das Entráguas, da freguesia de Válega, Ovar, é dedicada à Nossa Senhora da Purificação ou das Candeias, mas tomou o nome do lugar, situado entre dois ribeiros: o rio Negro e o rio de Conde.
    Há várias lendas do seu aparecimento. Uma delas dá os seguintes pormenores:
«Entre estas duas ribeiras, aparecera a santa imagem; e porque apareceu entre elas, lhe puseram o título de Nossa Senhora de Entre as Aguas. Dizem mais, que aparecera dentro de uma barca formada de pedra, da qual ainda hoje se conservam vestígios, e por esta causa os romeiros, que vão buscar esta milagrosa Senhora, tiram pós da pedra, que bebem em suas enfermidades, em que experimentam as maravilhas daquela poderosa Senhora.
    Foi achada junto a uma fonte, onde, ainda hoje, por memória, se conserva uma cruz de pedra, no sítio onde chamam o Portinho, a um quarto de légua distante do lugar onde a igreja está fundada, que é junto ao mesmo rio de Aveiro.
    Está com grande veneração esta santa imagem, recolhida num ninho de vidraças, no meio do altar-mor. Tem três palmos de altura, é de pedra, no braço esquerdo tem ao amoroso filho, Jesus, menino muito lindo, e assim o menino como mãe têm ricas coroas de prata em suas cabeças.»
    Esta versão tem o seu símbolo material na pedra branca de calcário, com cerca de meio metro de altura, que se guarda na ermida.
    A tradição de hoje diz, porém, que a imagem de Nossa Senhora apareceu sobre essa pedra, em frente da capela actual, e não no lugar do Portinho. Quando lá a encontraram, levaram-na para a igreja paroquial, mas ao outro dia ela tinha desaparecido e estava de novo em cima da pedra; Repetindo-se isto algumas vezes, julgaram ser vontade de Nossa Senhora que ali lhe erigissem a sua casa. Assim, iniciaram os trabalhos, e, enquanto as obras duraram, levaram a Senhora para a igreja paroquial, onde a imagem consentiu ficar na sua capela.
    As actuais imagem e capela não são as primitivas.
    Perdido num denso pinhal onde corre a ribeira de Seixa (a qual lança as suas águas no cais do puxadouro, em Válega) encontra-se o «Cruzeiro da Virgem» e uma pequena ermida. Próximo deste pequeno adro, certa ocasião, uma pastorinha muda apascentava o seu rebanho junto das margens da ribeira. Subitamente foi surpreendida no seu labor por uns caçadores furtivos, que, animados pelo isolamento do lugar e pela mudez da pastora, tentaram violá-la.
    A desventurada pastora, de nome Isabel, tomada de pânico, sem possibilidades de auxílio e de gritar o seu desespero, invocou do fundo do coração a protecção divina de Nossa Senhora de Entráguas para que a defendesse. Naquele momento angustiante, Isabel viu-se repentinamente dotada de fala e gritou com todas as suas forças, pedindo socorro. E os caçadores fugiram, surpreendidos e temerosos com a inesperada reacção da pastora.
    Os familiares de Isabel, embora pobres, sabedores do acontecido e espantados com a milagrosa recuperação da fala da pastora, logo envidaram esforços no sentido de ser erigido um cruzeiro no local, como agradecimento à Virgem. Deste modo se levantou um pequeno monumento, onde se colocou a seguinte inscrição:
«1678. Nossa Senhora de Entráguas aqui deu fala a uma moça».

Fonte Biblio FRAZÃO, Fernanda Passinhos de Nossa Senhora - Lendário Mariano Lisboa, Apenas Livros, 2006 , p.23-24

Place of collection Válega, OVAR, AVEIRO

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications