Nossa Senhora do Pranto

APL 670

Pelas ravinas e quebradas que da serra da Vermelha, também conhecida por serra da Madeira, situada no limite de Cernache do Bonjardim, vão até ao rio Zêzere, ouviam-se e repetiam-se, de dia e de noite, ais magoados.
 O povo andava assustado.
 São Guilherme de Pavia, que passava muitas vezes por aqueles sítios e ali atravessava o rio, ouviu as queixas das populações.
 Regressando à Corte e tendo-lhe a Rainha Santa Isabel perguntado novidades dos terrenos dela, o santo respondeu-lhe:
 — Real Senhora, anda lá tudo atemorizado com uns gemidos que se ouvem na serra.
 — Não têm que se assustar — disse Santa Isabel — é minha prima que não quer ficar na Serra da Vermelha e deseja passar para as minhas terras.
 De facto, a imagem da Senhora do Pranto, com seu filho ao colo, aparecida no rio e recolhida em pequena ermida na serra, desaparecia para aparecer do outro lado do Zêzere.
 Os moradores de Cernache iam buscá-la mas, durante o trajecto, desaparecia para voltar para a outra margem do rio.
 A Rainha Santa continuou:
 — Vai lá. Os terrenos hão-de estar cobertos de grande orvalhada. No sítio onde não houver orvalho mandarás levantar uma igreja e nela recolherás a imagem. E verás como deixam de ouvir-se os ais, e o povo sossega.
 Assim foi.
 Edificada nova capela em Domes, em sítio pitoresco, em frente da serra da Vermelha, Nossa Senhora do Pranto lá ficou para sempre, e lá continua a ser venerada pelos fiéis de uma e outra margem do rio que, todos os anos, nos três dias do Espírito Santo, se juntam aos milhares para realizarem curiosos círios, cumprirem promessas e cantarem, entre outras, as seguintes quadras:

— Nossa Senhora do Pranto,
Dizei-me onde morais,
— Moro ao cimo de Domes,
Defronte dos Arraçais (1)

Nossa Senhora do Pranto,
Vosso caminho pedras tem;
Se não fossem os milagres,
Já cá não vinha ninguém.

Nossa Senhora do Pranto
Escreveu cartas à da Guia (2)
A mandar pra lá dizer
Os milagres que fazia.

Nossa Senhora do Pranto
Tem a porta de loureiro;
Bem pudera tê-la de ouro,
Que ela sempre tem dinheiro.

Nossa Senhora do Pranto
Tem o terreiro varrido;
Este ano está de relva,
Para o ano dará trigo.

Nossa Senhora do Pranto
Chora que se ouve nos Cabaços (3);
Tem o seu filho morto
Deitadinho nos braços.

Nossa Senhora do Pranto,
Tanto lhe tenho pedido
Que me livre o meu amor
Que está nas sortes metido.

Nossa Senhora do Pranto
É minha Mãe e Madrinha,
Tanto lhe tenho pedido
Que guarde a afilhadinha.

Nossa Senhora do Pranto
Já lá vai igreja acima;
Leva um cacho na mão,
Traz gente na vindima.

Nossa Senhora do Pranto,
À sua porta lho digo:
Não volto cá para o ano
Sem trazer amores comigo.

Foste à Senhora do Pranto,
Nem uma flor me trouxeste,
Pró ano, quando lá for,
Farei como tu fizeste.

Adeus, vila de Domes,
Adeus, rua d’Além,
Adeus, Senhora do Pranto,
Até pró ano que vem.

Nossa Senhora do Pranto.
Vou dar-lhe a despedida;
Ou será por pouco tempo
Ou será pra toda a vida.
 
(1) Ou Arreçários, corrupção de Ressaios.
(2) Venerada em Avelar, do concelho de Ansião.
(3) Povoação do concelho de Alvaiázere, a 9 quilómetros de Dornes.

Fonte Biblio DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira Coimbra, Alma Azul, 2002 , p.95-98

Place of collection Cernache Do Bonjardim, SERTÃ, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications