Nossa Senhora dos Remédios de Tuizelo

APL 1202

Para falar acêrca da lenda de N. Sr.a dos Remédios sirvo-me, além do que colhi do povo, do que escreveu o Frei Agostinho de S.ta Maria, corrigindo algumas informações toponímicas que andam misturadas com as de outras localidades.
 Em dia de verão canicular andava uma rapariga, muda de nascença, a pastorear o gado no logar de Pereiros junto à ribeira de S.ta Maria, hoje de S. Cristo, quando viu baixar da encosta uma senhora que pela sua inexcedível beleza lhe pareceu mais do ceu que da terra; seu rosto resplandecente como um clarão boreal confundiu a menina de tal sorte que a fez cair por terra assustada; a senhora, porém, aproximando-se, disse-lhe: «não tenhas mêdo, eu sou a Virgem dos Remédios! Vem comigo que te hei-de dar água para matares a sêde.» Dali a alguns passos, a meio da encosta, uma fonte brotou do chão ressequido pelo verão ardente, e a Virgem, inclinando a fronte, colheu a água nas mãos, que deu à pastorinha, desaparecendo em seguida. À noite, no regresso com o rebanho ao redil, a menina ia pensando consigo como havia de contar ao mundo tão maravilhoso acontecimento; e, qual não foi o seu espanto, ao transpor o limiar da porta da cozinha, sentiu a língua desprender-se, correndo alegremente a dizer à família o que tinha visto, no meio da grande admiração dos circunstantes. A notícia correu veloz de terra em terra, o povo das cercanias afluía a admirar o milagre.
 No sítio da nascente, a que mais tarde chamaram a hortinha do Conde, existe uma fonte de granito, aonde, durante muitos anos, os fiéis iam beber a límpida água que dela mana levando-a em garrafas como antídoto de certas moléstias.
 Decorreram alguns dias sem nova manifestação; e num sábado, estava a pastorinha a passar a sesta no sítio do Pinheirez, à Ribeira, quando a Virgem lhe apareceu; a qual a tomou pelo braço e levou até junto de um fio de água que nesse instante fez brotar da terra, dando-lhe de beber com as próprias mãos em forma de concha. Agora, sim, agora já podia agradecer-lhe; e na sua linguagem simples e rude entoou um hino de louvores, preguntando-lhe porque lhe fazia tamanho favor. — «É porque, disse, é grande a indiferença do povo para comigo! Vai, e dize-lhe que não trabalhem ao domingo e não faltem à missa.» E, de repente, a visão desapareceu. A terceira aparição foi novamente na ribeira de S.ta Maria, junto do velho templo da Virgem dos Remédios, de que nada resta a não ser o chão relvoso, vendo o povo em uma cova ali existente o logar dos alicerces, cova que, dizem, nunca mais criou herva para memória eterna.
 Estava a menina a comer a merenda quando a Virgem lhe apareceu no meio de uma nuvem de côres polícromas como o arco iris; e ela, em transportes de júbilo, ajoelhou, oferecendo-lhe, num rasgo de inocência, da merenda; no final do repasto, a Mãe de Deus disse-lhe: «Diz ao povo que é meu desejo que o meu templo, aqui tão exposto às tormentas, seja mudado para o campo do cimo do povo, para o logar onde virem um circulo de neve, o qual também indicará o tamanho.» E foi-se, não sem deixar no regaço da pastorinha, atónita, algumas moedas de ouro para auxilio da construção do novo templo.
 A menina foi recolhida por um nobre fidalgo da terra de nome Gonçalo de Morais Sarmento, a cujo solar correspondem hoje as casas da família do nosso amigo P.e João Gonçalves, pároco de Ervões, Valpassos, a quem agradeço o documento que vai copiado abaixo.
 O templo foi construído a expensas de todos os povos da região.
 Quando foi mudada a imagem de N. Sr.a dos Remédios da Ribeira de S.ta Maria para a nova igreja, conta o povo, que ao chegar a procissão ao cotovelo do outeiro próximo que esconde a vista do campo em que assentava o velho templo, Nossa Senhora olhou para trás e disse: « adeus filho! não chores por mim, que fico perto! »
 Muitos milagres lhe são atribuidos pelo povo, vindo alguns já descritos no Santuário, de entre os quais apenas mencionaremos estes: Por ocasião do bicho que invadiu os castanheiros, fez-se, uma novena a N. Sr.a, a qual, sendo levada em procissão pelos soutos, fazia cair os malignos insectos no chão; acontecimento que durante muitos anos o povo comemorou, mandando cantar em Agôsto uma missa, e vindo de diferentes terras em procissão a Tuizelo. O Santuário diz: «isto jura em huma certidão Balthazar de Moraes Sarmento, cavalleiro do habito de Christo e fidalgo da casa de sua Magestade, descendente de Gonçalo de Moraes Sarmento de quem foi creada a pastorinha.»

Fonte Biblio MARTINS, Pe. Firmino Folklore do Concelho de Vinhais. Vol. 1 s/l, Câmara Municipal de Vinhais, 1987 [1928] , p.114-117

Place of collection Tuizelo, VINHAIS, BRAGANÇA

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications