O Barroco do Francês

APL 644

Se a história da Beira Baixa é fértil em factos ou acontecimentos que bem atestam o grande amor que sempre os nossos antepassados tiveram pela independência, muitos há ainda ignorados e apenas perpetuados pela reprodução ou repetição oral do povo.
 A tradição que vai seguir-se é um exemplo.
 
 O castigo das invasões francesas caiu logo de entrada na zona fronteiriça da nossa Província.
 Os concelhos de Idanha-a-Nova, Castelo Branco e Penamacor, especialmente as freguesias de Rosmaninhal, Segura, Salvaterra do Extremo, Castelo Branco, Alpedrinha e Sarzedas, sofreram as maiores inclemências e afrontas.
 Esfomeados, rotos, verdadeiramente andrajosos, os soldados franceses praticaram ali toda a casta de atropelos, vilanias e ultrajes.
 E os povos — os seus moradores — cheios de terror e sem recursos, os dirigentes a aconselharem moderação, o próprio Rei e a corte voluntariamente exilados, limitaram a sua acção a esconder os seus haveres e a procurarem, quanto possível, fugir com as esposas e as filhas aos horrores da nova barbárie.
 À freguesia de Benquerença chegou, mal ela se deu, notícia da primeira invasão.
 Mulheres e raparigas, conhecedoras de toda a casta de infâmias já praticadas em outros lugares, embrenharam-se nos densos matagais, que ao tempo quase circundavam a povoação, e, por isso, quando os primeiros invasores ali chegaram pouco mais encontraram do que a parte da população que nada possuía e que nada receava.
 Mas alguns franceses conheciam algumas palavras portuguesas e alguns até formavam frases completas. Valendo-se desses conhecimentos, subiam aos lugares mais elevados dos arredores da povoação e gritavam:
 — Ó Maria! Anda, que já abalaram os franceses!
 Ao que um dos da companhia acrescentava:
 — Abalados fossem eles para as profundas dos infernos!
 Isto dito, escondiam-se à espera da presa.
 À povoação chegou um dia a noticia de que fora iniciada a resistência, e que a Nação ia levantar-se.
 Dos esconderijos começaram a sair os mais animosos.
Nos postos elevados dos arredores já se não ouvia a grita dos facínoras a armar o laço aos incautos, mas a boa voz dos portugueses a pedir o regresso aos lares, para a luta contra o inimigo.
 Em certa altura, na Benquerença, apareceu novo grupo de franceses. A população, refeita do terror em que estivera envolvida, sedenta de vingança pelo canibalismo dos novos hunos, resolveu tirar vingança.
 A luta travou-se dura, e, no campo, penhor certo de quem não sofre em silêncio uma afronta, ficou um francês.
 E como do cimo de um barroco, no sítio do Calvário, face voltada à ribeira, mais de uma vez os moradores haviam sido enganados pelas falsas chamadas dos invasores, o povo resolveu cavar-lhe ali mesmo a sepultura.
 E, por isso, através das gerações e pelos séculos dos séculos, hoje como no futuro, o Barroco do Francês vai ensinando, e ensinará, que não se afronta impunemente a dignidade dos beirões.

Fonte Biblio DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira Coimbra, Alma Azul, 2002 , p.23-25

Place of collection Benquerença, PENAMACOR, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications