O Casamiento de Nossa Sinhora

APL 1875

Stiebe no coliéjo at’ òs quinz’ anos. Òs quinz’ anos, foi o gobierno e fiez cumo fiez o noss’ aqui, cando rebentau a República: obrigau a sair tudo dos cumbientos e habei os casamientos. D’ obrigárim a sair dos cumbientos e d’ habei os casamientos, iela beio e deligiu-s’ a um padre daquiele tiempo qu’ [à] ra home dua prima. Iela, de família, diz que tinha unicamient’ aquiela prima, nõu tinha maia ninguém. E deligiu-s’ àquiele padre — os padres naquiele tiempo [à] rum casados, pois stá bisto — e dixe-l’ assi:
 — Ieu, debido a sei obrigad’ à me casai, qu’ria um rapaz que me respeitass’ um boto qu’ ieu fiz.
 E o padre respondeu-le:
 — Ó Maria, tu num incuontras ninguém que to respeite; só se foi um b[a]lho. Um carpenteiro qu’ aí há, mas iel’ ié b[a]lho!
 E iela, bendita seija iela, cunfirmau a se casai co b[a] lho. O que queria [à] ra qui a respeitasse.
 Tchigau-s’ ó dia d’ stárim intimados a írim ò tribunale fazê lo casamiento — Nossa Sinhuora casau cibilmiente, casamientos d’Igrieja num habia — e o scribõu intimau tudo pra cumparcei ò tribunale naquiele dia. E foi Z [à] de Dabide e respundeu:  — Or’ àdeus, adeus, ó tribunale! Ieu já lá num sau tchamado.
 O scribõu foi-s’ imora. Mas no tribunale dix’ o gobernadoi pra iela:
 — O Maria, tamém aqui stás, tu scolhes o teu manciebo.
 E iela respundeu:
 — Nõu, qui o mieu num stá aqui.
 Tele birau-se pró scribõu:
 — Tu num intimast’ os manciebos tuodos pr’ àqui cumparciêrim?
 — Ieu intimei-os tuodos; só o Z [á] de Dabide ié que me dixe que só lá ia cand’ a riégura de fazê las medições das obras deitasse fuolhas bierdes e fluores.
 O scribõu tornau-s’ ir imora. Iela tornau dezei o mismo, qu’ iele tinha qu’ ir.
Naquiela biage do scribõu ir ò tribunal’ e tomai bultai, a riégura rebentau as fuolhas do lírio bierdes e flores. E depois do scribõu bultai adond’ a iele, botau os olhos à riégura e biu as fuolhas bierdes rebentadas e as fluores da purieza. E, antõu, diz que foi e dixe:
 — Tá bem, agora sei que tienho d’ir.
 E pegau e lebau a riégura pra tribunale co ramo. Tchigau detrás diela e foi e dix’ assi:
 — Ai, Maria, qu’ ieu fiz boto.
 Isso [à]ra o qu’ iela qu’ria. Tela foi e respundeu:
 — Mas ieu tamém no fiz.
 Casarum-se. Mas depois de se casárim, o Sprito Santo beio no Bierbo Debino à seio de Maria Santíssema e Sãi Jos[a] des- cunfiab’ autra coisa. (Os padres num quierim dezei isso, nõu, más os libros antigos ié qui o dízim). Descunfiab’ autra coisa, deixau-a, foi-s’ imora.
 Foi, antõu, cando iela fiez os triês mieses, qu’ielas dízim qu’iela foi im socuorro da prima, mas iela foi, porque se topau sozinha. Foi triês mieses, antõu, pr’ and’ à prima do tais padre qu’ [à]ra casado. E tchigau lá e diz que foi a prima que foi assi pra dond’ a iela:
 — Ó prima Maria, tu que trazes dientro do teu bientre? O qu’ieu tienho dientro do mieu s’ajoelhau im respeito.
 Iela foi a mãe de Sãe Joõu. Ieles só liebum seis mieses dum à autro, o Sinhoi de Sãe Joõu.
 E Nossa Sinhuora dixe-l’ assi:
 — Ieu trago no mieu bientr’ um menino que concebi por graça do Sprito Santo. Iele há-de sei rei de tuodos os reis, goberná lo mundo tuodo.
 E a autra respundeu:
 — Pois, mnha prima Maria, bendita iés tu, bendito ié o tieu fruto e o tieu bientre, entre tuodas as mulhieres. Mais num sei, num dia, que me bem na graça qu’ a mãe do mieu Deus me bejita.
 E lá stiebe triês mieses. E despois, Sãi Jos[a], um ainjo ié qui o abisau o que se passaba, e iel’ aspois foi pr’ ond’ a iela.

Fonte Biblio SOROMENHO, Alda e Paulo Contos Populares Portugueses (Inéditos) II Volume Lisboa, Centro de Estudos Geográficos / INIC, 1986 , p.511-513

Ano1970

Place of collection-, ARCOS DE VALDEVEZ, VIANA DO CASTELO

ColectorMaria Fernanda Alves Pereira (F)

InformanteRosa Enes (F), - (ARCOS DE VALDEVEZ) VIANA DO CASTELO,

Narrativa

When Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications