[O cristão, o mouro e a Senhora de Guadalupe]

APL 3748

A capela da Senhora de Guadalupe, em Vila Real, tem no seu exterior uma quantidade de imagens provocatórias que sempre foram motivo de espanto e desassossego para o povo. Podem ver-se figuras de pessoas com orelhas de animais, outras com a língua de fora e a fazer caretas, figuras exibindo partes sexuais, e por aí adiante. É por isso uma capela diferente das que se conhecem na região.
    O povo encontra explicação para tal numa tradição muito antiga, segundo a qual a capela foi construída por um mouro. A lenda é a seguinte:
    Conta-se que os mouros, ao serem expulsos desta região, levaram um cristão cativo, no intuito de mais tarde pedirem um resgate por ele. Contudo, ao perceberem que o cristão era pobre e que pouco valeria, resolveram fechá-lo numa caixa para o engordarem e depois comerem-no. Davam-lhe então de comer por uma frincha da caixa.
    O cristão depressa percebeu a intenção dos mouros e, por isso, na primeira ocasião, agarrou um rato que lhe entrou dentro da caixa e matou-o, guardando-lhe os dedos. E assim, quando os mouros lhe perguntavam:
    — Então, estás gordinho?
    O cristão mostrava-lhes, pela frincha, os dedos do rato, e os mouros diziam:
    — Ah, desgraçado, que estás cada vez mais seco! Assim não nos vais servir de nada!
    Por isso resolveram matá-lo. E ficou um mouro de guarda deitado sobre a caixa até ao momento da execução. O cristão, ao perceber o que o esperava, pôs-se a rezar a Nossa Senhora, pedindo que lhe valesse. E tanto rezou, tanto rezou, que, de um momento para o outro, a caixa onde ele estava voou e foi poisar na aldeia de Ponte. E em cima dela lá continuava o mouro a dormir.
    Ao fazer-se manhã, o Mouro acorda com o cantar dos galos e pergunta:
    — Ó cristão, na tua terra há galos?
    — Há — diz o cristão.
    — Então grande milagre conseguiste, pois estás na tua terra!
    Abriu-lhe a caixa e o cristão saiu. O mouro passou então a ser escravo do cristão, e este, em castigo do que teve de passar na mourama, obrigou-o a construir uma capela dedicada a Nossa Senhora no sítio exacto onde a caixa pousou. A capela lá está.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.364-365

Ano2002

Place of collection-, VILA REAL, VILA REAL

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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