O Encantamento do Algôs

APL 1587

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 A três quilómetros da povoação há um sítio conhecido pela denominação Azinhaga das Quintas. É um sítio escuro e sombrio, que fica no caminho para o sítio da Cabeça d’Águia. De remotas épocas vem a lenda que dá como encantado na Azinhaga das Quintas um mouro na figura de um carneiro.
 Toda a gente fala no carneiro, poucas pessoas, porém, até há uns trinta e cinco anos, o tinham visto.
 Em certo dia de manhã, correu pela povoação uma notícia que pôs toda a gente de sobressalto. Era o caso que, na antecedente noite, pelas 12 horas, passando pelo sítio da Azinhaga das Quintas um sujeito, do sítio das Ferrarias, chamado Manuel Botão, vulgarmente conhecido por Manuel Botanito, tivera precisão de sair da estrada a satisfazer uma necessidade corpórea. No momento de se baixar sentira uma formidável pancada nas costas, que o homem afirmara ser uma grande marrada do carneiro encantado.
 Esta notícia correu com insistência e foi no mesmo dia confirmada pelo próprio Manuel Botão, que tinha chegado da sua casa, montado em um jumento, no intuito de mostrar ao médico Viana as suas costas maltratadas.
 Toda a gente quis ouvir do queixoso como se passara o fado, e ele singelamente o narrava como fica dito.
 Ora entre muitos que ouviram a narração houve um que formulou as suas dúvidas.
 — Talvez você tivesse saido do povo um pouco enxofrado e desse alguma queda.
 Aludia ao fado do Botanito, sempre que vinha à povoação, beber a mais uns decilitros… de vinho.
 O Botanito não gostou da observação e respondeu nidemente que não costumava cair com bebedeiras e muito menos de costas.
 — Mas...viste o carneiro? Perguntou-lhe o velho João Henriques, do Monte do Sobrado.
 — Não o vi, mas senti e sinto ainda a marrada. Quando de corrida me afastava do lugar ouvi perfeitamente os berros do carneiro.
 Esta declaração causou susto aos crentes em sortilégios. Manuel Botão bebia a sua pinga, mas nunca mentia.
 — Sempre ouvi dizer aos meus avós, dizia uma velha, que por ali andava um mouro encantado.
 — É verdade, é verdade, confirmaram muitos que estavam presentes.
 Passados alguns meses gabou-se certo maioral de gado lanígero, de que estando de guarda ao seu rebanho, que pastava em uma relva alheia, sentiu passos na estrada. Ocultou-se por detrás de uma árvore, pronto a dar sinal de fuga ao gado, caso o sujeito fosse o dono da relva. Então vira o Botanito que, saltando fora da estrada, se foi baixar mesmo ao seu lado, sem que fosse visto. No momento mais crítico dera-lhe uma formidável pancada nas costas, que o pôs a correr em aberta carreira.
 Em breve divulgou-se esta noticia. Não obstante, muita gente não lhe deu crédito.
 — São gabazolices, dizem uns.
 — Que ele era capaz de roubar a relva, não merece dúvida, diziam outros.
 E ainda hoje corre insistência que o carneiro encantado aparece a muita gente.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.227-228

Place of collection Algoz, SILVES, FARO

Narrativa

When XIX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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