O homem que queria ver os diabretes

APL 1352

Há já muitos anos, havia um homem do lugar da Beira, em S. Jorge, que não acreditava que os diabretes fossem tão perigosos como toda a gente dizia. Ria e gozava por os vizinhos se meterem em casa cedo e trancarem bem as portas, na noite dos diabretes.
 Um certo ano decidiu-se. Queria ver sair os diabretes. Ao anoitecer do dia dois de Fevereiro, mal acabou de cear, vestiu um casaco e sozinho, pôs-se a caminho da Rocha da Pelada, onde os diabretes saíam, segundo se dizia.
 Chegando ali, sentou-se numa pedra e ficou à espera. A noite foi passando. Estava muito frio e tudo muito escuro, mas nada acontecia. O homem estava sozinho, não tinha ninguém para falar e, aos poucos ia caindo numa sonolência. Mas ele não queria arredar pé nem pegar no sono. Tinha que ter os olhos bem abertos para ver os diabretes naquela noite.
 Estava nestes pensamentos, quando olhou para a rocha e viu sair um vulto. Era um diabrete, grande e pesado, que se veio aproximando no escuro e, ao passar ao pé do homem, disse com voz medonha:
 — O que te salva é estares aí num cerrado onde está também uma rês para o Espírito Santo, senão ias comigo esta noite — e continuou o seu caminho para os lados da serra.
 O homem não quis esperar para ver mais. Tomou o caminho de casa, um pé não apanhava o outro.
 A partir de então, sempre que chegava a noite dos diabretes irem para o mar ou saírem para terra, o homem da Beira era o primeiro a trancar bem as portas e janelas, e a deitar-se cedo, não fosse cruzar-se outra vez com algum diabrete.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.188-189

Place of collection-, VELAS, ILHA DE SÃO JORGE (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications