O joão do serro, lobisomem

APL 465

Ali no Ribeiro do Pereiro havia lá um homem qu’era o João Estrudes, tinha o apelido de João do Serro e tambem lhe chamavam o João Lobisome. O homem teve sempre a fama de ser lobisome, até houve quem dissesse que ele tinha embruxado o mê pai, que ele era da idade do mê pai, fizeram a tropa juntos.
 Uma ocasião, lá com um sobrinho dele, que esse moço ‘inda é vivo, diziam que ele andava fazendo mal ao mocito por meio do livro de S. Supriano, que havia um livro de capa verde que era o livro de S. Supriano. O pai do rapazito correu ai médicos, correu tudo, e o moço ‘tava empolado, com uma grande barriga e diz que ‘tava embruxado por aquele, na sei se ‘tava se não. Então o pai, que era ainda mê parente, foi a caminho dele e deu-lhe tanta porrada, tanta porrada e então ou ele punha-lhe o filho bom, ou que acabava com ele.
 Contanto que o mocinho foi, foi, pôs-se bom e ‘inda aí está, é um moço mais novo do que eu, tem menos uns tres ou quatro anos.
 Esse tal João Lobisome levou muita porrada, de pessoas que estavem doentes e iam logo a caminho dele, e vá porrada p’ra cima. Eu vi-lhe dar tanta porrada, pois aquilo era lá ó pé de mim, tudo por modo da fama de lobisome.
 Más ele, coitado, chegou lá à altura dele tambem morreu. Como era lobisome podia ainda viver mais uns anos, más ele morreu já velho, só que na lhe serviu de nada ter o livro e ser lobisome.
 Más tinha mesmo a fama de ser lobisome, aquele homem. E muita gente tinha medo dele, diziam que andava à noite uivando pelos serros e que se ia encontrar com as bruxas lá nas encruzilha-das, algumas até aqui perto donde a gente agora vive, outras onde dantes eu morava, ali ao Ribeiro do Pereiro.
 Uma ocasião ia eu passando lá ó pé da casa dele e vi um branquejar numa encruzilhada mais adiante. Tambem vinha eu uma vez com um irmão da minha mulher e um primo meu, nessa mesma encruzilhada que havia lá, e a gente ouviu muitos paparitos e viu aquilo a branquejar, a andar à roda. Havia de ser um baile de bruxas, mas a gente na se chegou lá ó pé. Bem, nessa altura tivemos medo, pois claro.

Fonte Biblio TENGARRINHA, Margarida Da Memória do Povo Lisboa, Colibri, 1999 , p.36-37

Place of collection Mexilhoeira Grande, PORTIMÃO, FARO

InformanteAntónio Branco (M), born at Mexilhoeira Grande (PORTIMÃO) FARO,

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaConvinced Belief

Classifications