O José da Rua

APL 1640

Irmão do Joaquim da Rua. Morreu de repente; o cadáver inchou e estalou-lhe a carne, caindo-lhe aos pedaços. A alma dele foi por muito tempo o terror da freguesia. Foi visto por muita gente. Entre outros conta-se dum tal que tinha uma conversada próxima da casa, em que ele morreu. Uma noite, indo ou vindo da conversada, encontrou-o. Foi fugindo dele, mas ele seguindo-o; só parou num sítio para meter a água num moinho (costume do homem em vida), mas o tunante nem assim se viu livre dele. Acompanhou-o até à porta de casa. Aí o homem salvou-se dentro, fechando logo a porta e dizendo: “Vai-te com mil diabos!” Mas sentiu ainda um empurrão à porta. O tunante nunca mais apareceu de noite. A casa, em que viveu o José da Rua aparecia muita vez com as portas e janelas abertas. A herdeira dele, mulher do António, brasileiro da Eira, teve grandes desgostos e sustos. A alma do tio falava em várias pessoas e dizia que lhe não havia de escapar nenhum dos filhos da sobrinha. O primeiro filho que ela teve morreu e a freguesia em peso quase que se alvorotou com a verificação dos agouros dos espiritados. Brasileiro e mulher chegaram a ter um padre escondido em casa, para opor a qualquer investida da alma penada. Conta-se que a sobrinha, entrando uma vez em casa (na casa em que o tio morreu, e antes de casada, parece), encontrou o defunto sentado numa cadeira, e perguntando-lhe pelo motivo porque não tinha mandado dizer as missas que ele tinha deixado. (Invenção do povo, porque as missas já estavam ditas). A mulher do António andou munida de chaves do sacrário para vingar os filhos.
 Dez anos depois do falecimento a alma do José da Rua ainda falava numa rapariga, cujo pai se viu tão desesperado que se foi ter com o reitor (Tomás), dizendo-lhe que “abrisse a cova, onde o José da Rua foi enterrado, para ver se ele lá estava, ou não; porque de contrário a abriria ele.”

Fonte Biblio SARMENTO, Francisco Martins Antígua, Tradições e Contos Populares Guimarães, Sociedade Martins Sarmento, 1998 , p.129-130

Place of collection-, GUIMARÃES, BRAGA

InformanteMargarida (F),

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications