O Lobisomem

APL 657

Já lá vão muitos anos...
 Sabe-se lá... talvez séculos!...
 Pelas ruas de Segura, a desoras, nas intermináveis noites de Inverno, surgia estranho ser em desordenado tropel que trazia amedrontada a população.
 À sua aproximação, mesmo os mais animosos, sentiam levantar-se-lhes os cabelos!...
 Sol posto, já ninguém saia à rua.
 E o alegre povo raiano sofria e passava um verdadeiro castigo.

 Um dia, um mocetão, valente e destemido, tomou a resolução de averiguar a causa de tão extraordinário fenómeno.
 E colocou-se entre o postigo e a porta da casa de seus pais.
Chovia a potes.
 O vento com seus estridentes assobios era medonho. Parecia impelido pelo demo!
 E o mocetão, valente, firme em seu posto, esperou uns momentos; o bastante para se enregelar.
 O tropel não se fez esperar, e uma sombra negra surgiu.
 As pedras da calçada chispavam lume.
 A sombra horrenda resvalava pelas valetas e escouceava para um e outro lado fazendo com que as próprias ombreiras dos portadas deitassem faíscas.
 E o rapaz, agora um tanto assustado, colou-se bem á porta. Parecia petrificado!
 O estranho fenómeno avançava cada vez mais em correria vertiginosa, e o moço, embora, como se disse, um tanto amedrontado, pôde verificar que se tratava de um monstro informe, metade cavalo, metade homem, ferrado de pés e mãos! Estava quase a arrepender-se da sua temeridade!...
 Mas, o monstro, seguindo o seu caminho, desapareceu...
 Que fazer depois do que vira?
 Calar-se?
 E se contasse tudo a pessoas experimentadas, sabedoras e consideradas pela sua idade?
 Procurou de facto um dos homens mais velhos da sua terra.
 E expôs-lhe minuciosamente o que vira.
 E o bom vizinho respondeu-lhe:
 — O que tu viste, meu amigo, é um encanto que só se desfará se alguém tiver coragem de, escondido atrás de uma das cruzes das ruas da nossa aldeia e munido de uma vara com aguilhão, picar o monstro por forma que o faça lançar de si muito sangue.
 — Pois deixe o caso comigo. Se aí está o remédio... picá-lo-ei eu mesmo, respondeu o rapaz.
 — Pois então, toma cuidado, que, se o não picares bem, grande perigo corres!...
o moço, forte e destemido, como se disse, disposto a dar mais uma prova do seu valor, e a livrar a povoação de tão grande desassossego, logo que anoiteceu, recolhidos todos os moradores e fechadas todas as portas, foi colocar-se, por entre vendaval formidável, atrás de uma das cruzes, tendo bem apertada na mão direita forte vara com grande aguilhão.
 Começou a ouvir-se o tropel, pondo-se em breve à vista a infernal figura.
O rapaz tremia!
 Perdera quase a noção de si mesmo!
 Fugir?...
 Bem se lembrava ele do conselho do velho:
 — Toma cuidado, que se o não picares bem, grande perigo corres!...
 Recobrou ânimo.
 Estava ali para vencer ou morrer!
 Já agora levaria ao fim a sua empresa.
 Esperou! O monstro avançava a todo o galope.
 E passou; e, na passagem, o heróico mocetão cravou-lhe bem a grande aguilhada!
 E o monstro, como por encanto, desapareceu.
 O valente moço respirava; mas tremia ainda. O seu coração batia desordenadamente.
 Foi deitar-se, mas não podia conciliar o sono! Que iria suceder?
 Passaram algumas noites e o tropel não mais se ouviu.
 — Que estranho facto se terá passado? Inquiria a população.
 O rapaz (ninguém sabe até onde vai o poder de encantos e bruxarias) contara o seu feito, muito em segredo, só aos mais íntimos.
 Volveram dias e noites, e o povo, de segredo em segredo, veio a saber o que se passara.
 E perguntava:
 — Mas que figura seria essa, horrenda e disforme?
 — Seria um lobisomem?
 — E quem seria o infeliz?
 Passaram ainda mais alguns dias, até que um dos mais considerados moradores de Segura que havia desaparecido do convívio da população, apareceu sem um dos olhos.
 Se ele era são e escorreito, se não constara na povoação qualquer desastre, como e onde teria ele perdido a vista? — perguntavam todos os moradores de Segura. Tirara-lha, evidentemente, o rapaz da aguilhada!
 E o povo passou a afirmar, desde logo, como verdade incontestável, que o monstro, semi-homem e semi-cavalo que tanto o incomodara, era, por artes do demo ou mercê de encanto, o bom homem que aparecera, sem saber como, sem um dos olhos.

Fonte Biblio DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira Coimbra, Alma Azul, 2002 , p.58-61

Place of collection Segura, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications