O lugar de val flores

APL 345

O Lugar tinha a sua rua principal - como todos os Lugares - e nessa rua morava um casal ainda jovem. Amavam-se muito, mas um desgosto enorme perturbava a felicidade completa daquele lar.
 Por bruxedo feito por uma pretendente do marido da Mariana, que a preterira em favor da sua actual mulher, aquele passara a “correr o fado”.
 Mirrava de desgosto a mulher do “corredor”. Todas as terças e quintas-feiras, logo após as badaladas da meia-noite, dadas no sítio da igreja, via o seu homem sair de casa, dirigir-se ao pinheiro mais alto das redondezas, trepar ágil que nem felino por ele acima e dependurar, no cocuruto, as roupas que trazia vestidas!
 Invariavelmente, a seguir, dirigia-se ao local onde se realizava a feira semanal e espolinhava-se no mesmo sítio onde um cavalo tinha feito o mesmo (o “corredor de fado” transformava-se sempre no animal que se tinha espolinhado no local onde eles mesmos se espolinhavam). Transformado naquele animal, partia a toda a brida, percorria sete estrada reais, regressando a casa antes que amanhecesse, sob pena de aparecer ele mesmo humano onde passasse ao romper do dia.
 Havia duas maneiras de “quebrar o encanto” mas, dado o melindre de que se revestia a ocasião, quem o tentasse fazer não podia falhar, se não poderia morrer ele mesmo ou o “corredor”.
 Uma dessas formas de “curar” o “achacado” era subir ao pinheiro onde estavam as suas roupas, metê-las num forno e queimá-las totalmente. Não podia restar sequer um “cisco” das mesmas. Outra era tentar ferir o animal que corria e em que ele se tinha transformado.
 Consumada completamente uma destas duas formas de desencantamento, o “fado” terminava sem perigo para qualquer das partes e, não raras vezes, o “curado” ia agradecer ao seu “salvador”, levando-lhe os mais diversos presentes, como forma de gratidão.
 Porém, este caso era bem diferente. Qualquer destes possíveis “remédios” tinham já sido aplicados e... nada. O fado continuava a ser corrido pelo moço. Então, a sua mulher recorreu à bruxa que, na terra, tinha maior fama. Contou-lhe a sua desgraça e ela disse-lhe que bem sabia como curar o seu marido do mal que o apoquentava, pois tinha sido ela que o embruxara a pedido da moça que o pretendera, quando ainda solteiro!
 «O teu marido precisa de, depois de “correr o fado”, pisar flores desde a entrada da rua até casa. Flores de vários tipos e várias cores». Naqueles longínquos tempos em que todas as terras eram pertença do Mosteiro de “São Cristóvão” de Rio Tinto, só havia um rico lavrador-fidalgo que abarrotava de cupidez, mas que era o único capaz de, a troco de boa maquia, lhe conseguir a quantidade e variedade de flores para “atapetar” o caminho onde morava. Lá se dirigiu à quinta do fidalgo, levando ao pescoço, já com a finalidade de o dito fidalgo o ver, grosso cordão de ouro que sua mãe lhe tinha dado no dia do seu casamento. Era o que de maior valor possuía.
 Quando o fidalgo deparou com o cordão, e sem que a mulher pudesse dizer ao que ia, logo lhe perguntou: “Quanto vale?”; “Vale flores”, titubeou ela!
 Em troca do ouro, o fidalgo mandou vários criados colher flores que, embora poucas e quase murchas, foram suficientes para “curar” o “corredor de fado”. Mas Deus não dorme, e no lugar do já curado, passou a “correr o fado” o fidalgo que, por tão grande valor de ouro, tão poucas e tão más flores vendera! Aquele ouro valia mais e melhores flores!
 Eis, pois, a lenda que deu o nome ao Lugar de Val Flores, nome lindo duas vezes: por durante tantos anos se ter mantido cheinho delas e por ter tido tantas flores em resultado duma grande prova de amor.
 
 Vivi durante mais de três décadas nesse Lugar. Ainda hoje existe, na freguesia de Rio Tinto, uma rua com o nome Val Flores: é a que tem o seu início no Largo do Cruzeiro da lndependência e o seu fim na Rua do Patronato.
 Quando ali residi, dizia-se e escrevia-se Val Flores. Não obstante, ainda hoje não é raro ver-se escrito Vale de Flores e, até, Valflores!
 Era eu vizinho da centenária (e já lá vão mais de 50 anos) “Ti” Amélia, que sempre pronunciava Vale de Flores. Vezes sem conta ouvi da sua boca e mais tarde de sua filha, “Ti” Ana Chasca, que também alcançou os 100 anos ou muito próximo disso, o seguinte: “na rua principal deste Lugar, no tempo em que estas terras ainda pertenciam ao Mosteiro de S. Cristóvão, morava um casal jovem. Porém, o moço “corria o fado’: e o encantamento só se quebra se, ao regressar do “fado” ele pisasse flores desde a entrada da rua até sua casa. Então a lenda, tida como “verdade verdadeira” por aquelas pessoas, corria na freguesia e entretanto foi esquecida.
 Ouso acrescentar que, daqui, se poderá aproveitar. 1) Que o maravilhoso e o tenebroso, nas suas expressões mais radicais, quase sempre andam de mãos dadas com o misterioso, o irreal, 2) Que o amor verdadeiro é o verdadeiro amor e, assim sendo, a desgraça vinga mal, ou não vinga. 3) Que, mesmo através de ínvios caminhos, o castigo pelo mau procedimento ainda pode surgir na vida terrena, se o agravo for grande.

Fonte Biblio S/A, . Lendas de Gondomar Gondomar, Câmara Municipal de Gondomar, 1995 , p.19-22

Place of collection Rio Tinto, GONDOMAR, PORTO

InformanteJoaquim dos Santos Marinho (M), 63 y.o.,

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications