O Menino dos olhos grandes

APL 2156

Era um bebé, aí de uns dois anos, talvez, que aparecia a altas horas da noite a chorar na rua. Chorava, chorava, e as pessoas apanhavam-no.
 Quando os homens iam pró mar, nessa altura quem andava mais na rua eram os homens, que iam às tantas pró mar. E viam aquele menino...
 - Oh menino, tás perdido?
 (Acho que era um menino muito bonito, muito jeitoso.)
 Apanhavam-no, levavam ao colo...
 - Onde é que tu moras? Vamos lá ver se encontramos a família. E levavam. E ele ia sempre, apontava, apontava, não falava (diz que nunca falou).
 Mas depois começava a pesar, a pesar muito, a pesar muito e as feições a deformar-se: começava a criar uma cara de homem... — arrepia-se; o seu pai jurava que era verdade — ...e começava a pesar muito, a pesar muito e, quando os homens sabiam que aquilo era demais, lembravam-se que era o menino dos olhos grandes. Os olhos começavam a dilatar muito, muito e atiravam com ele ao chão. Porque ele algumas vezes tentou estrangular algumas pessoas. Mas isto era a lenda.
 Deformava-se, uma vez, então eles atiravam com ele, e alguns até rezavam, rezavam o credo:
 - Ah credo, valha-me Deus!
 Aquilo era uma coisa má, para eles aquilo… a Floripes não. A Floripes eles gostavam, acompanhavam. Porque era uma mulher bonita, toda vestida de branco, e comprido... Este menino dos olhos grandes era uma coisa má.

Fonte Biblio AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a,

Ano2000

Place of collection Olhão, OLHÃO, FARO

ColectorIolanda Bandeira (F)

InformanteAguedita da Conceição Dias (F), 77 y.o., Olhão (OLHÃO) FARO,

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications