O pão não levedou por castigo do Espírito Santo

APL 1420

Havia um homem dali de riba da Travessa, chamado José que tinha muita fé no Espírito Santo. Como a mulher estava para ter um filho, prometeu dar um boi para o Espírito Santo, se tudo corresse bem.
 Chegou-se ao dia de matar o gado para a festa e o homem arrependeu-se do que tinha prometido porque o boi fazia-lhe muita falta para lavrar e carrear. Inventou uma desculpa e veio falar com a mulher que estava a amassar pão. Convenceu-a e não foi levar o boi.
 Ela não ficou muito satisfeita, mas lá continuou a amassar o pão. Botou-lhe o fermento e deu-lhe mais umas mexidelas como sempre costumava fazer. Pôs um abafo por cima do alguidar e, para a massa não arrefecer muito, pô-lo sobre o lar ao pé do calor do forno.
 O tempo foi passando e o pão não levedava. A mulher olhava para ele a ver se via uma arregoazinha, tocava-lhe com a ponta do dedo indicador, mas nada: estava empresado.
 — Era o fermento que não era bom! Vou buscar fermento a casa da mulher do José Dias do Quarteiro, que ela tem fermento fresco! — disse a mulher, enquanto punha o xaile pelos ombros.
 Saiu, trouxe o fermento e misturou-o no pão, esperançada que daí a pouco tempo já estaria com o pão a modo de ir para o forno. Foi esperando, esperando, mas nada. A massa continuava como a tinha deixado. Entretanto o boi que se tinha desamarrado da terra e tinha vindo ter a casa, berrava lá fora.
 A mulher já não estava nada satisfeita com o que se estava a passar e tinha o pressentimento de que tudo aquilo era por causa da promessa que o marido não tinha pago.
 Chamou por ele e disse-lhe que o que era prometido era devido e que não se devia brincar com o Senhor Espírito Santo. O marido, vendo-a assim preocupada, acedeu:
 — O boi vai para o Espírito Santo!
 Para espanto dos dois, logo que o marido tomou esta decisão, o pão esbordeirou pelo alguidar fora, lindíssimo para ir para o forno.
 Pagaram a sua promessa, o filho nasceu bem e cada vez mais aumentou a fé daquela família de Ponta Delgada no Espírito Santo.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.269-270

Place of collection Ponta Delgada, SANTA CRUZ DAS FLORES, ILHA DAS FLORES (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

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