O Parto da Moura

APL 2936

Certa noite uma moura estava para dar à luz um filho e o marido recorreu aos serviços de uma famosa parteira que havia no lugar da Presa. A mulher não queria fazer o serviço, mas o mouro prometeu-lhe uma fabulosa recompensa, mas na condição de ela guardar segredo para sempre.
Feito o parto e antes de se retirar, a parteira marcou a criança com uma beliscadura no canto do olho direito, para a reconhecer se um dia a voltasse a encontrar.
Ao despedir-se, o mouro despejou no avental da mulher uma panela de carvão, como recompensa dos serviços prestados.
A mulher ficou admirada daquele pagamento e só por vergonha, ou talvez por medo, não o deitou fora logo ali. No entanto, quando regressou a casa, foi deitando pelo caminho os pedaços de carvão que levava no avental.
E qual não foi o seu espanto quando, ao chegar a casa o pouco carvão que ainda transportava reluzia sob a forma de pedaços de ouro. Voltou para trás para recuperar as que tinha deitado fora, mas já nada encontrou.
Anos mais tarde a parteira foi à fonte do Cabril. Enquanto enchia a bilha viu num pego da ribeira duas crianças a brincar. A mulher aproximou-se delas e viu que uma tinha um sinal junto ao olho direito. Nisto aparece o mouro, que a interpela, dizendo:
— Eu sabia, cristã maldita, que não ias cumprir a palavra, desde que vi o beliscão no rosto da criança. Pois a partir de hoje não mais nos reconhecerás porque, para sempre, te vai faltar a luz do sol. E nesse instante soprou-lhe para os olhos um pó que trazia na mão fechada.
A parteira ainda regressou a casa pelo seu pé, mas à noite já estava cega.

Fonte Biblio JANA, Isilda Histórias à Lareira Abrantes, Palha de Abrantes, 1997 , p.11

Place of collection-, SARDOAL, SANTARÉM

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications

TypesChristiansen 5070 Midwife to the Fairies