O Penedo do Perseguido

APL 2231

Junto da povoação de Orgens, subúrbios de Viseu, existe um enorme penedo, sobre que assenta pequena cruz de granito.
 O Conde D. Gomes, rico-homem, vivia no castelo senhorial, edificado naquela povoação, em companhia de uma irmã, jovem, bela e encantadora. Em certa ocasião e já noite, acertou de passar junto do castelo numerosa cavalgada, que vinha da montaria; e um dos cavaleiros do grupo, moço esforçado e donoso, preso dos encantos da grácil e venusta castelã, que furtivamente descobrira através das góticas janelas do vetusto alcáçar, deixou-se enamorar perdidamente por ela, e daí em diante procurou encontrá-la para, nos arrebatamentos da alma e dedilhando amorosamente a teorba delicada, lhe falar da sua paixão ardente. Numa noite — e já noite velha — esses ternos galanteios foram ouvidos pelo austero rico-homem que, mordido da raiva e vencido da indignação procedidas do orgulho ofendido, pulou de um salto para o terreiro e lhe disse:
 — Que pretendeis vós, indigno vilão, da neta estremecida de Fafes Luz e filha cândida de Afonso Mendo?
  — Vilão eu? — lhe respondeu o ofendido — Eu, o nobilissimo e muito esclarecido senhor do Viso? O que pretendo é levá-la à igreja, e santificar assim o nosso ardente amor.
 — Nunca! retorquiu aquele — Antes a mão de fogo do infernal Belzebu!
 O ginete arrancou velozmente, levando o cavaleiro atónito, e logo o penedo se abriu ruidosamente, dando saída ao próprio Satanás, que reclamou o cumprimento da promessa feita. O conde não lhe deu a irmã adorada; mas, por isso, todas as noites e sempre àquela hora, se escancarava o enorme megálito para deixar sair o deus infernal que, a vozes estridentes, pedia se cumprisse a palavra dada, O desgraçado D. Gomes, minado de susto, e perseguido dos fantasmas e duendes que de contínuo o salteavam, mandou colocar sobre o penedo terrível a cruz que ainda hoje lá se vê; e, desde então, nunca mais se tornou a ouvir alta noite a tremenda e horríssona voz do descaroável Belzebu.

Fonte Biblio VASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1966 , p.634-635

Place of collection Orgens, VISEU, VISEU

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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