O penedo do sino

APL 270

A curta distância da Citânia, para os lados de Bustelo, viveu em recuados tempos um humilde guardador de gado que tinha na sua companhia uma única filha. Do rebanho de ovelhas e cabras talhavam, sabe Deus como, o pão de cada dia.
 A filha do cabaneiro, catorze anos mal contados, soltava de manhã cedo o seu rebanho pelas ladeiras mais mimosas da serra. Enquanto o pai atinava outros trabalhos, a pastorinha era a rainha de todo aquele ermo, ora sentada nas conchas dos penedos, ora a correr atrás de uma avezita das alturas. Regressava ao seu casebre do penedo do sino, avisada pelo Sol a esconder-se para as bandas do mar.
 Numa fresca manhã, quando se dispunha a abalar, mais uma vez, com as suas mecas, viu sobre o penedo do sino — pedra enorme que servia de vedação à corte — um sardão verdiscado, de olhos vivos e brilhantes.
 Embora as ovelhas se atropelassem em busca da saída e a pastora estivesse muito próxima, o sardão mostrou-se calmo.
 Dia a dia, a pegureira deu em espreitar o penedo; o sardão lá estava muito sereno. E, talvez devido a essa quietude, a cachopa passou a chegar-lhe leite duma cabrinha branca que aparecera abandonada na Citânia. Porém, certa manhã, a rapariga, vendo faltar o leite na sua linda cabrita branca, murmurou com tristeza; junto do penedo do sino:
 — Ai, pobre bichinho! Não sei o que há-de ser de ti...
 Ante o espanto da pastorinha, no dia seguinte, em vez do sardão, estava sentado no pedregulho um formoso mancebo, que logo assim falou:
 — Escuta, menina. Não tenhas medo! Eu fora transformado em sardão. Tu quebraste-me o encanto. Merece uma lembrança a tua bondade e a tua coragem.
 Durante noventa dias deste-me leite dessa cabrinha que certa ocasião recolheste.
 Boquiaberta e trémula, a pastora não tinha forças para gritar e fugir. O simpático moiro, sorridente, acrescentou:
 — Eu vou partir já. Não fales nisto a teu pai. O segredo de tudo será a tua felicidade. Assim que estiver salvo, no meio dos meus parentes, a cabrinha branca voltará a ter leite. Esta é a certeza de que nada de mau me aconteceu.
 Ouve, por fim:
 Deixo-te este talismã de ventura. Guarda-o muito bem, e, ao fim de três meses, tempo da minha viagem, põe-no sobre este penedo que é a arca dos meus tesouros. O talismã mudará para chave. Abrirás o penedo neste ponto que vou beijar. E que Alá te proteja, meu anjo!
 Dito isto, o moiro, parecendo ter asas nos pés, encaminhou-se para o alto da Citania e nunca mais foi visto.
 A bondosa pastorinha, dentro em pouco, ficou rica e sedutora. Casou com um abastado lavrador de Sanfins. Já muito velhinha, dava gosto ouvi-la contar a lenda da sua juventude.

Fonte Biblio AA. VV., - Douro Litoral, 5ª Série, IX n/a, s/ed., 1953 , p.66-67

Place of collection-, PAÇOS DE FERREIRA, PORTO

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications