O Penedo Negro ou Calhau Encantado

APL 1693

Contavam os velhinhos à lareira quando vinha pr’aqui para férias, para casa dos meus avós, que no cima aqui da serra do Alvão, no lugar por cima na povoação da aldeia da Relva havia um penedo negro, penedo, uma pedra muito grande e que tinha um género de uma porta, quase como uma porta de uma igreja, uma porta grande, já com muito uso, uma cousa muito velhinha e que as pessoas quando passavam por ali, os pastores ou as pessoas que vinham das aldeias de cima, ou assim, parece que sentiam sempre um bocadinho de medo naquele penedo.
 E, e constava também que nesse penedo à meia-noite havia pessoas que já tinham ouvido uma mulher, uma senhora, uma menina cantar muito triste, mas nunca ninguém tinha visto essa senhora nem nada. Por ali passavam quem? Os pastores e os aldeãos lá de cima das aldeias de cima, que vinham à vila às compras aqui a Vila Real.
E há uma madrugada que vem um sujeito, um aldeão para baixo e, ao passar ali, arrepiava-se sempre, sentiam sempre qualquer… porque diziam que ele que aparecia uma menina, uma senhora a cantar mas…  
Então quando vinha a passar quase a rodear a pena ouviu ranger, ranger de porta e olhou para trás, assustou-se e olhou para trás e viu sair lá de dentro dessa porta, dessa porta uma menina muito linda e ele ficou assustado e essa menina disse-lhe logo:
 - Não tenhas medo que eu não faço mal a ninguém, mas vou-te pedir uma coisa que vou pedir que queria que me fizesses.   
Portanto o homenzinho, ainda a tremer, ainda ele não estava em si, lá ouviu o que ela dizia, e ela então foi dizendo:
- Eu sou uma moura encantada. Tenho aqui, estou aqui há muitos anos e tenho uma fortuna enorme aqui, muito ouro, muita coisa, que é difícil até arranjar balanças suficientes para pesar e tudo isto te darei e casarei contigo. Levarei este ouro para tua casa e casarei contigo, se tu agora que vais a caminho da Vila comprares lá uma bola de quatro cantos e me trouxeres essa bola de pão, (aquelas bolas de carne). Mas toma bem atenção, que tu quando vieres não podes partir nem tirar nada dessa bola, porque senão dobras-me o encanto, quer dizer, não só não sou encantada, como fico ainda cá mais tempo.
  O homem continuou a descer a serra com o seu pauzinho, foi às costas lá com o seu alforgezito p’ra despois levar as encomendas lá pós vizinhos e pá família:
- Olha, traz-me um quilo de arroz.
Outro:
- Traz-me um fósforo.
Outro:
- Traz-me um quilo de sal – e etc.…
E veio e a pensar sempre naquilo e ao mesmo tempo contente:
- Eh caramba, se for verdade… – Ele ainda era um solteirão, portanto, vá, – se for verdade…
Bem, chegou à cidade, a primeira coisa que ele foi comprar foi a vela, quer dizer, a broa de pão de quatro cantos. Conhecendo aquele pão de Favaios que tem quatro cantos. Comprou aquilo com medo que como era dia de feira também que acabasse o pão, comprou logo. Bem, andou a fazer as compras p’ra um lado e pró outro. P’ra ele, lá prós vizinhos, lá p’ra quem tinha e, à tardinha, tentou regressar a casa, mas começou a sentir fome.
Sentindo fome, ele não tinha comido lá nada e a tentação, mas se ele, mas não… eu sou um homem de palavra e aquela menina disse-me que não podia tocar no pão nem podia partir, portanto…Bem. Chegou, quando chegou pr’ aqui p’ra cima pró sopé, pró lado da Relva, ali numa fontezinha, com sede, sentou-se na fonte p’a beber água, mas a tentação foi muita e ele disse:
- Caramba, mas não pode ser! Mas eu tou com fome e tal, a menina pareceu-me uma menina delicada e boa. Ela vai perdoar-me se eu comer um cantinho da broa… – e, toca de comeu, bebeu água, comeu um cantinho da broa, lá da bola, bebeu um bocadinho d’água e continuou a viagem.
Quando chegou ao cimo, ao pé do penedo, bateu lá à porta, bateu no penedo e disse ele e lá abriu-se a porta e veio a menina. A menina, quando ele chegou, quando abriu o penedo, quando abriu a porta, a menina, sem o deixar falar, adivinhou já o que é que ele tinha feito e ele estava também comprometido, ele estava convencido que ela que era boa menina que ia-lhe  perdoar aquilo, mas ela respondeu-lhe, quando ela abriu a porta e ela disse-lhe logo:
- Olha, em cavalo de três pernas, contigo não vou ir.
Fecha-te porta de pedra, para nunca mais abrir.
E o homem ficou, que já estava entusiasmado que ia herdar aquele ouro, ia casar com uma menina muito bonita, ficou desanimado e, quer dizer, a vida dele outra vez continuou como era antigamente, sempre foi a trabalhar no campo e cada vez que passava por ali bem que tentava bater à porta ver se ela se abria, mas nunca mais se abriu a porta e depois passaram a chamar ou Penedo Negro ou Calhau encantado.
Portanto, moral da história, moral da história, que ele coitado não resistiu à tentação da fome, e tal, e com aquela ilusão que tinha pensado em ir casar com a menina e ter aquele ouro todo, passou a não ter nada, porque não aguentou a fome, não aguentou, não cumpriu a palavra que tinha dado à menina.

Fonte Biblio AA. VV., - Literatura da tradição oral do concelho de Vila Real s/l, UTAD / Centro de Estudos de Letras (Projecto: Estudos de Produção Literária Transmontano-duriense),

Place of collection Borbela, VILA REAL, VILA REAL

InformanteRaul Ferreira de Carvalho (M), 81 y.o., Borbela (VILA REAL) VILA REAL,

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications