O pescador e a feiticeira

APL 1389

Um homem da Calheta do Nesquim, que morava pròs lados, das Canadas, costumava ir pescar à noite prà costa peixe de fundo: congros, abróteas, moreias. Aproveitava as noites sem lua, porque as noites claras não dão peixe.
 Naquela noite, assim que chegou lá abaixo, enjeirou-se a apanhar peixe. Apanhou uma moreia pintada, matou-a e atirou-a para um buraco atrás de si. Atirou outra vez a linha ao mar e daí a pouco apanhou uma solha. Quando ia atirá-la para o buraco, já não tava lá a moreia e viu faiscar lume na ponta da cana. Ficou agoniado, lembrando-se que podiam ser feiticeiras que andassem por ali a tentá-lo. Atirou a solha para o cesto, guardou a linha no saco, pôs o trocho às costas e começou a subir a canada.
 Quando ia mais ou menos a meio, uma gata começou a persegui-lo, ronronando à sua volta. O homem, que já vinha mal disposto, aborreceu-se, enxotou-a com os pés, lançou um “sapete gata” e disse furioso:
 — Foste tu, se calhar, que me roubaste a moreia!
 Puxou da grateira e com força feriu o bicho. Logo, diante dos seus olhos arregalados, a gata se transformou numa mulher muito perfeita, que tava completamente nua. Desviou os olhos, tirou, à pressa, o casaco de cotim e deu-o à mulher para que se cobrisse. A feiticeira disse-lhe então:
 — Tu agora hás-de-me ir botar em casa.
 — Não vou! — respondeu o homem.
 E ali foram ficando, um dizendo que sim, o outro que não. No entretanto já ia amanhecendo e passava gente para a missa da manhã. Mas não viam a feiticeira e o pescador porque, por artes da feiticeira, estes tavam transformados em pedras.
 Por fim o homem resolveu ir levar a feiticeira a casa. Fez como a feiticeira disse: deu três passos para a frente e ficou no Cais do Pico, depois deu três passos para trás e ficou no mesmo lugar.
 Voltou pra casa. A mulher, que já tava muito agoniada com a demora, estranhou o cheiro do casaco e apressou-se a lavá-lo. O cheiro a enxofre, deixado pela feiticeira, nunca mais desapareceu, apesar do casaco ter sido lavado e assoalhado muitas vezes e ter sido usado até ser quase um trapo.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.231-232

Place of collection Calheta De Nesquim, LAJES DO PICO, ILHA DO PICO (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications