O Poço das Asas

APL 1405

Há alguns anos, na Praia do Almoxarife, no lugar do Chão Frio, vivia a Adelina, uma formosa rapariga morena, de longos cabelos negros e olhos doces, castanhos, muito escuros. 
 A sua beleza cativara o jovem morgado António da Silveira que passava o Verão naquela freguesia. Um bonito amor desabrochou entre ambos, mas a diferença de classes sociais fazia com que se encontrassem apenas às escondidas, durante a noite, num lugar muito ameno, junto de uma gruta em cujo interior havia um poço de água cristalina todo rodeado de arvoredo.
 Muitos rapazes do lugar pretendiam Adelina como noiva, mas ela sempre recusava os pedidos de namoro com uma desculpa ou outra.
 Os ciúmes começaram a dominar o coração dos malogrados amantes que se puseram a seguir os passos da Adelina, até que descobriram os encontros nocturnos da jovem com o morgado.
 Uma noite, Adelina, que já estava grávida de António da Silveira, saiu à sucapa de casa para junto do poço. Chegando ao lugar do encontro, sentou-se sobre a alta rocha que ficava por cima do poço e teve de ficar sozinha durante algum tempo porque o jovem morgado, por qualquer razão, ainda não tinha aparecido.
 Cegos pelo ciúme, três dos pretendentes rejeitados por Adelina, ao vê-la ali desprotegida, à espera do amado, assassinaram-na, atirando-a depois para dentro do poço.
 No dia seguinte de madrugada, quando as mulheres da povoação foram buscar água para gastar nos arranjos domésticos, encontraram o cadáver de Adelina, caído na água, rodeado de poderes de penas alvíssimas.
 Dois dos assassinos fugiram, enquanto o terceiro, Ricardo, enlouqueceu de remorsos e ia sentar-se todos dias junto ao poço, olhando fixamente as águas, que muitas vezes apareciam cobertas de penas brancas. A quem passava Ricardo dizia que viessem ver as penas caídas das asas de um anjo e, acusando-se de seu crime, acrescentava que Adelina, quando fora morta, trazia no ventre um anjinho que, ao despedir-se da vida, tinha deixado cair algumas penas brancas das asas.
 E foi devido a esta triste história que se passou a chamar àquele poço de água cristalina o Poço das Asas.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.252

Place of collection Praia Do Almoxarife, HORTA, ILHA DO FAIAL (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications