O rapaz da gabardine

APL 154

Havia uma rapariga qu’estava a servir na casa d’uma senhora rica. Um dia, por qualquer motivo, a senhora pôse-a na rua e, quando ela ia pla rua, sem ter pra ond’ir, apareceu-lhe um rapaz e perguntô-lhe:
 — Então, menina, onde é que vais?
 — Olha, nã sei pra onde vê. Estava a servir na casa d’uma senhora mas ela despediu-me... — repondeu a rapariga.
 Olha, vai ao número tal e está lá uma senhora que precisa d’uma criada. — disse o rapaz.
 Ela lá foi onde ele lhe disse. Ao chegar, bateu à porta e veio uma senhora que lhe perguntê:
 — O que é qu’a menina quer?
 — Fui informada de qu’a senhora precisava d’uma criada. — respondeu a rapariga.
 — Preciso mesmo. — afirmô a senhora.
 Entretanto, combinaram tudo e ela ficô lá nessa casa a trabalhar. Ela fazia limpeza, passava a ferro, fazia tudo.
 Nessa casa, havia um quarto qu’estava sempre fechado à chave mas, um dia, a senhora disse-lhe:
 — Olha, hoje temos o dia mais vago, vamos abrir aquele quarto e fazer-lhe limpeza. Então, lá foram, abriram o quarto e a rapariga quando viu um quadro na parede com a fotografia d’um rapaz, disse apenas:
 — Ai, Nossa Senhora, aquele rapaz qu’eu vi na rua, foi o que me indicô a casa!
 Ao fim de dois ô três dias, hôve um baile na aldêa e a rapariga também foi ao baile. Lá, viu esse mesmo rapaz à roda do baile mas ele nunca dançô mas onde ela estava, os olhos dele estavam também. Depois, o baile acabô, estava muito frio lá fora e a rapariga estava a tremer de frio.
 — Queres a minha gabardine? — perguntô-lhe o rapaz.
 — E como é qu’ eu ta dê depois?
 — Nã tenhas problemas, leva-a qu’ eu amanhã venho buscá-la.
 No ôtro dia de manhã, quando a rapariga abriu a porta, estava o rapaz à espera da gabardine. Ela deu-lha, despediram-se e ela abalô. Entretanto, a rapariga nã s’aguentô e contô tudo à senhora:
 — O minha senhora, trago uma coisa no pêto e tenho de lhe dizer. A senhora tem de m’explicar de quem é a fotografia qu’está lá no quarto. Ainda ontem vi aquele rapaz no baile, vestido com uma gabardine, e foi ele que m’indicô a casa da senhora pra servir.
 — De que cor era a gabardine? — perguntô a senhora.
 — E igual à qu’está na fotografia.
 — Mas essa gabardine está ali no guarda-fato, eu nunca a quis dar a ninguém!
 Foram ao quarto para a senhora lhe mostrar a gabardina mas ela nã estava lá. A senhora ralhô com ela e acusô-a de a ter rôbado.
 — Um caso destes, vô-me já embora!
 Depois de tudo isto, a senhora pegô num ramo de flores e foi à cova do filho que tinha morrido há dez anos. Quando chegô ao cemitério, estava a gabardine em cima da cova. A voz do filho soô e disse:
 — Leve-a, mãe, qu’eu emprestê-a à Maria.
 A mãe pegô na gabardina e foi chamar a rapariga para voltar a trabalhar lá em casa. Ele era santo e andava a puxá-la.

Fonte Biblio GRAÇA, Natália Maria Lopes Nunes da Formas do Sagrado e do Profano na Tradição Popular Lisboa, Colibri, 2000 , p.200-201

Place of collection Margem, GAVIÃO, PORTALEGRE

InformanteArmandina de Matos (F), 47 y.o., Margem (GAVIÃO) PORTALEGRE,

Narrativa

When XXI Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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