[Os Amores de Rodrigo e Leonor]

APL 3203

Conta-se que, no primeiro quartel do século XVI, existiam em Peniche dois fidalgos que, reciprocamente, se odiavam: ódios velhos, nascidos porventura nos longos e temerosos cruzeiros das descobertas, de onde haviam trazido histórias fantásticas para contar e riquezas de sobejo para desbravar o torrão final. E nada no mundo os fazia aproximar e esquecer a sua malquerença.
    Quis Deus, todavia, que Rodrigo, filho de um deles, se enamorasse loucamente de Leonor, a bonita e prendada filha do outro dos fidalgos desavindos.
    Sabedores do ódio profundo que separava seus pais, não ousavam os jovens enamorados revelar o doce afecto que os unia, não podendo, porém evitar que transbordasse o alvoroço de amor que os aproximava. Descobertos então os sentimentos de ambos e sem que nada houvesse a demovê-lo da sua decisão, resolveu o pai de Rodrigo degredar seu filho para a Berlenga, fazendo-o ingressar como noviço, no Mosteiro da Misericórdia, de frades jerónimos existente, a fim de que ele esquecesse tão indesejável e impossível união.
    Obediente a seu pai, partiu Rodrigo para a Berlenga, com a alma cheia de revolta e de ansiedade. Mas o amor é fértil em imaginação e, com a ajuda de um pescador seu amigo, fazia-se o jovem transportar num pequeno batel, todas as noites, até uma gruta situada nas penedias da costa meridional de Peniche, onde Leonor ansiosamente o aguardava assinalando a sua presença com a luz de uma pequena lanterna.
    Por muitas e longas noites se repetiram os encontros dos dois jovens apaixonados. Mas, certa vez, descobertas as surtidas de Leonor, viu-se a donzela perseguida pelos servos de seu pai e, na precipitação da fuga, saltando de rochedo em rochedo, resvalou sobre os seixos da encosta. E, na negrura da noite, tombou um grito de morte do alto da penedia, afogando-se no mar negro que, em baixo, ciciava segredos e saudades.
    Entretanto, para mais uma noite de amoroso convívio, chegou Rodrigo à vista da gruta. Não enxergando o sinal do costume, começou o jovem de sentir a alma repassada de surpresa e receio. Subiu a encosta, apressado, chamando pela bem-amada. Só o eco e o marulho das ondas lhe responderam. Tentou penetrar na noite, temendo alguma desgraça. Nada. Até que se lhe retalhou o coração de angústia ao ver a boiar em baixo, inútil, o manto branco da sua enamorada. Um grito de dor cresceu da sua alma ferida, enchendo de tragédia os recônditos mais negros dos rochedos. E, na esperança de salvar a sua amada, lançou-se Rodrigo do alto das arribas ao encontro da noiva que perdera...
    Dias depois, nas areias do carreiro vizinho, alguém encontrou o corpo de Leonor, embalado docemente pelas ondas, os lábios iluminados por um sorriso triste e imaculado, constando que, piedosamente, o fizeram depositar no adro da capela de Santa Ana.
    Quanto ao corpo do desventurado moço, diz também a tradição que foi encontrado na costa do norte, junto a uma rocha a que se deu o nome de Laje de Frei Rodrigo.
    E ainda hoje, quem souber entender os murmúrios do mar e passear os olhos pela beleza que se distende por toda a costa sul de Peniche, pressentirá a doçura inefável de um mistério cheio de encantamento e poesia: talhada romanticamente nas arribas, a gruta que foi teatro de tão trágico amor e a que o povo, religiosamente, chama Passos de Leonor, lá está, altiva e serena, a aguardar, numa renovada esperança de juventude, o regresso feliz dos dois enamorados…

Fonte Biblio CALADO, Mariano Peniche na História e na Lenda Peniche, Edição do Autor, 1991 , p.418-419

Place of collection-, PENICHE, LEIRIA

Narrativa

When XVI Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications