Os figos da Fonte de Vale de Asnos

APL 3582

Contam os mais velhos que nas manhãs de S. João aparece uma moura próximo de Outeiro Seco, no concelho de Chaves, junto a uma fonte a que chamam “Fonte de Vale de Asnos”. E que aparece a estender uma manta branca de figos maduros e apetitosos.
    Ora, numa dessas manhãs foi uma mulher de Outeiro Seco à fonte. E, como a pobreza em sua casa era muita, ia pelo caminho a rilhar uma côdea dura de pão. Eis senão quando, à sua frente, se lhe depara estendida uma grande manta de figos.
    — Bô?! Tantos figos?! Quem os teria aqui deixado?
    Deitou fora a côdea de pão e tratou de meter uns poucos de figos numa cesta, dizendo:
    — Por hoje já me governo.
    Depois encheu o cântaro da água e voltou para casa. Ao chegar a casa, como a fome apertava, foi à cesta dos figos e despejou-os na mesa. Qual não é então o seu espanto, ao ver que, em vez de despejar figos, estava a despejar moedas de ouro.
    Passou-lhe logo a fome. Depois lembrou-se que na fonte tinham ficado ainda figos que davam para encher mais uma ou duas cestas iguais àquela. Vai daí, agarra na maior cesta que tinha em casa e voltou lá para trazer todos os que houvesse.
    Mas bem se enganou. Ao chegar lá, já não viu figos nenhuns. E ouviu então uma voz, cantando uma melodia triste, que dizia:

“— Não passes neste lugar
Em manhãs de S. João,
Não te perdeu a pobreza
Mas perde-te a ambição!”

    Era a voz da moura que lá está encantada. A mulher ficou descoroçoada e regressou a casa, contando, pelo menos, encontrar as moedas de ouro que lá deixara. Mas também nisso se enganou, pois em casa apenas achou bocados de carvão. Pôs-se então a lamentar a sua sorte. Lamentou até ter deitado fora a côdea de pão que levava quando foi à fonte.
    Dizem os velhos que o que esta mulher deveria ter feito era contentar-se com as moedas de ouro que encontrou ao chegar a casa, e não fosse tentada a ir buscar mais. Ficaria ela bem e teria quebrado o encanto da moura.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.242-243

Ano1999

Place of collection Outeiro Seco, CHAVES, VILA REAL

InformanteMaria da Graça Oliveira Gomes (F), 54 y.o.,

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications