Os piratas e a promessa de Gil de Quadros

APL 1326

Em casa de Gil de Quadros Machado, capitão-mor da Vila de Santa Cruz da Graciosa, naquele anoitecer do último sábado de Novembro de mil seiscentos e sessenta e nove, já tinha acabado a ceia. Rezou-se, como era costume em casa de qualquer bom cristão, e o dono da casa fechou a devoção com uma Salvé-Rainha em louvor a Nossa Senhora da Vitória, que em mil seiscentos e vinte e três livrara a vila de um assalto de piratas.
 O capitão começou a falar com entusiasmo dos seus antepassados à mulher e às filhas. A luz mortiça das velas da sala, o tom dolente do capitão, iam fazendo crescer um ambiente de sonolência, que foi cortado apenas por momentos pela entrada de um morcego, através da janela da sala. Por fim toda a família recolheu aos seus aposentos para o descanso da noite, mas Gil de Quadros sentia-se preocupado, lembrando a visita do morcego agoirento.
 No dia seguinte, ainda antes do amanhecer, um mensageiro bateu à porta insistentemente e trouxe uma notícia aterradora: piratas ingleses tinham cometido muitos roubos e atrocidades no povo da Vila da Praia. Gil de Quadros pensou logo na defesa de Santa Cruz e mandou tocar a rebate, fazendo ao mesmo tempo uma promessa que lhe doía mais do que a morte: ofereceu as suas duas filhas, Clélia e Anunciação, como freiras, se Deus livrasse a vila dos invasores.
 Os piratas, depois de roubarem e destruírem na Vila da Praia, rumaram para outra ilha e a Vila de Santa Cruz ficou incólume.
 Gil Quadros comunicou às filhas o voto que tinha feito e, embora todos chorassem de dor, o pai enclausurou-as no Convento das Capuchinhas de Angra.
 Clélia era dócil e submeteu-se com mais facilidade à imposição do voto paterno. Mas Anunciação amava demasiado a sua terra e a vida secular para aceitar a vida religiosa e os dias de clausura eram extremamente penosos para ela.
 A tia das meninas, madre abadessa, reconhecia que a vocação era essencial para a vida monacal e várias vezes escreveu ao irmão a contar-lhe que Clélia e Anunciação não tinham nascido para o mosteiro.
 Gil de Quadros sofria profundamente, mas mantinha-se fiel ao juramento que tinha feito numa hora de aflição. Uma Sexta-Feira Santa, quando rezava à Senhora da Ajuda para que o iluminasse, ouviu uma voz dizer-lhe:
 — Desliga-te do teu voto. O Senhor compadeceu-se de ti e, como sinal da Sua infinita bondade, fará pousar duas pombas brancas sobre as hastes da Cruz do Porto da Barra, ao nascer do sol, de Quinta-Feira da Ascensão.
 Gil de Quadros ficou muito animado com esta revelação do Senhor e esperou com ânsia o dia indicado. Ainda era lusco-fusco e já o capitão-mor estava junto à Cruz, à espera do sinal de Deus. Quando o sol assomou no horizonte, duas pombas muito brancas mansamente vieram pousar sobre a cruz plurissecular.
 A alegria do capitão foi enorme e mesmo nesse dia caminhou para Angra a fim de tirar do convento as duas filhas.
 Clélia e Anunciação voltaram à sua terra e aí viveram felizes.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.158-159

Place of collection Santa Cruz Da Graciosa, SANTA CRUZ DA GRACIOSA, ILHA DA GRACIOSA (AÇORES)

Narrativa

When1669

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications